Embora eu sempre tive como ideia para o blog fazer um hands-on e uma resenha de livros que eu leria e jogos que eu jogaria; para este não tive tempo de fazer o hands-on. Com a longa viagem para a Alemanha e o tédio de ficar sentado nos aeroportos ou nos aviões, eu acabei o lendo bastante rápido: em apenas quatro dias. Claro, o único motivo dessa rapidez não foi apenas a viagem: o livro tem uma narrativa cativante, emocionante, bem elaborada e ao mesmo tempo simples e gostosa de ler.
A trilogia Legends segue a Chronicles, sendo que apenas esta última foi lançada oficialmente no Brasil; logo este livro só está disponível em outros idiomas. O meu, em inglês, eu comprei na Amazon americana, bem mais barato do que no Brasil, heh. O único “problema” é que só havia disponível em mass market paperback, que são livros menores e com papel de qualidade inferior, semelhante ao de jornais. Não é ruim de ler, já que o tamanho da fonte é bom, mas a cor mais amarelada do papel torna o contraste inferior.
Com os mesmos co-autores das Chronicles (Margaret Weis e Tracy Hickman), a trilogia Legends narra os fatos ocorridos após a Guerra da Lança. O número de protagonistas foi bastante reduzido, o que é uma pena, já que o grupo antigo sempre me passou a impressão de ser um típico grupo de RPG em viagens. Para quem não sabe, Dragonlance surgiu originalmente como um cenário de campanha para D&D, assim como o bastante popular Forgotten Realms. Bastantes romances foram escritos sobre esse cenário, e felizmente os que li não serviram apenas para popularizar o cenário: são excelentes livros.
O livro começa alguns anos após o término da Guerra da Lança. Os Herois da Lança (os companheiros originais de Chronicles) que não participam desta trilogia como protagonistas, embora façam pequenas aparições, são: Flint e Sturm que estão mortos; Tika que regressa para Solace, onde casa com Caramon; Tanis que retornou para Solanthus com Laurana, com a qual se casou; e, Vendaval e Lua Dourada que voltaram para as planícies, onde tornaram-se líderes de seu povo. Dos originais, sobram então Caramon, Raistlin e Tas.
Assim como os dois últimos livros resenhados aqui no Dragão Boreal, esse aqui também tem partes narradas sob as perspectivas de diferentes personagens. Principalmente os três já mencionados além de Crysania, uma clériga de Paladine. A perspectiva de cada personagem é narrada de uma forma bem diferente, condizente com a sua personalidade. Poucas coisas são tão divertidas como acompanhar Tas (um kender (halfling) ladino) em suas explorações e descobrir como as coisas caem acidentalmente em seus bolsos! As desculpas para a cleptomania inata e acidental dos Kenders beiram a insanidade, o que as deixa ainda mais divertidas. Ele é o alívio cômico dos livros, porém o é parecendo natural, e não um mero recurso de narrativa.
Como os títulos dos três volumes indicam, o foco aqui está nos dois gêmeos: Caramon e Raistlin. Uma coisa que acho curiosa nesses livros com múltiplos personagens é que sempre haverá o seu favorito, sempre haverá aquele com o qual o leitor irá se identificar. Em Dragonlance isso não é diferente. Dentre todos os Herois, não deve ser nenhuma surpresa para aqueles que me conhecem e que leram o livro que o personagem com o qual eu mais me identifiquei foi o Caramon.
Caramon é o irmão gêmeo de Raistlin, porém o seu oposto em praticamente todos os aspectos. Ele é descrito como um homem grande (com apenas 1,82m!!), forte, musculoso, guerreiro, bonitão e de boa índole. Já o seu irmão Raistlin é baixo, raquítico, ambicioso e provavelmente o conjurador mais poderoso de toda a Krynn. O conflito de personalidades e valores dos dois irmãos é para mim o tema central do livro. Toda a trama gira em torno deles e do que eles são em Krynn.
Eu pensei bastante em como escrever o seguinte de uma maneira que não soasse retardada, mas não consegui. Falhei. Então leiam o que vem a seguir de mente aberta.
Eu diria que esse é na verdade um livro sobre o amor e amizade. Um livro sobre o que eles representam e os sacríficios que somos capazes de fazer em nome deles. (argh, só de ler isso parece um Crepúsculo da vida!) O amor e a amizade aqui não estão em primeiro plano, são mais sutis. Mas pode-se ver eles movendo as engrenagens da história, trilhando o caminho dos personagens e influenciando em suas decisões. Amor não só entre um homem e uma mulher, mas o amor entre irmãos, amor por um ideal, amor por um valor, amor por poder. Talvez o último mais do que todos é o que dá as caras aqui.
Os personagens se transformam drasticamente ao longo do livro. Sem entrar em detalhes para não estragar as surpresas, vemos o quanto somos capazes de mudar por amor a algo ou alguém. Mas assim como o amor move as engrenagens; a traição e a trapaça também o fazem. Esse contraste de valores, personalidades e motivações é que torna o livro tão interessante e gostoso de ler. Os personagens são fantasticamente bem escritos embora tenham arquétipos padrões e bastante utilizados. Não gosto da palavra clichê, especialmente porque muitos a associam a uma história ruim e mal-escrita. Acho que arquétipos genéricos podem ser muito bem explorados e virarem histórias fantásticas. Time of Twins prova isso.
Talvez por minha afinidade com RPG, acho excelentes todos os personagens dos romances de Dragonlance que já li. O desprezo de Raistlin com o irmão enquanto este fazia de tudo para ajudá-lo, já em Chronicles, foi o que me fez odiar todos os magos. Posso dizer que alguns acontecimentos nesse livro me deixaram bastante feliz, porque tinha algo em Caramon que eu nunca gostei. Vi neste livro isso mudar.
Leitura indispensável para qualquer fã de RPG e qualquer um que deseje um bom livro de aventura com toques de humanidade e conflitos de personalidade. A lenda está apenas começando.
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Grande amante de diversos estilos de Metal, incluindo Power, Folk, Pagan e Viking, passou a jogar RPG por influência dos amigos e desde então nunca parou. Leitor ávido, adora livros de fantasia, e vem atualmente lutando para vencer uma lista de livros que não para de crescer. Nerd e gamer, a carreira de desenvolvedor de software lhe foi uma escolha óbvia e gratificante. Também é pagão, vendo seus ideais representados na religião de seus antepassados.
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Esta entrada foi postada em segunda-feira, 28 fevereiro 2011 às 20:41
