“Swords in their hands they killed each and every man / Who dared to invade their sacred land
Victory songs are rising in the night / Telling all of their undying strength and might”
Ensiferum - Victory Songs
Resenha – Deus Ex: Human Revolution
26 out 2011 Postado em: Destaques, Games 1
Resenha - Deus Ex: Human Revolution
Nível de Spoilers: Alto

Eu sei que haviam outros três jogos (pelo menos) na lista de resenhas que eu havia publicado, mas esse teve que pular para frente. Há cerca de cinco horas atrás eu terminei o jogo (e tem gente que acha que escrever uma resenha não dá trabalho…), depois de uma bela maratona que durou aproximadamente dois dias e 25h de jogo. Simplesmente não pude deixar de fazer a resenha no mesmo momento. Este aqui, meus caros, é um dos poucos FPS que merecem destaque no mercado atual, onde a maioria deles só segue a fórmula já provada e a desenvolvedora sabe que, com um pouco de marketing, o jogo terá lucro.

Essa é também a minha primeira resenha com um nível alto de spoilers, simplesmente porque não há como falar sobre Deus Ex: HR como ele merece sem trazer à tona o enredo e, principalmente o final. Embora eu só mencionarei o final e as personalidades chaves para ele sem falar muito da história em si, optei por considerar o nível alto porque afinal, o final é o final, heh. Mas assista o trailer abaixo para sentir um pouco da ambientação do jogo e comece a jogar ou continue lendo mais além até eu avisar onde os spoilers pesados começam, porque de qualquer maneira você terá boas experiências pela frente.

Interessante, nay? Deus EX: HR foi até hoje o segundo enredo de sci-fi que conseguiu me interessar (o primeiro sendo Mass Effect) e o motivo para tanto foi que ele se manteve no limite do acreditável (ainda mais em uma data tão próxima como 2027) e conseguiu criar boas personalidades bastante distintas entre si e principalmente as inserir num contexto em que todas as suas opiniões são válidas e torna ao jogador possível simpatizar com todas elas. O foco do jogo são as chamadas augmentations (impossível achar uma tradução adequeada, talvez aprimoramentos?), que são implantes de partes mecânicas e eletrônicas no corpo humano para melhorar certas habilidades – como raciocínio para um piloto – ou então suprimir uma deficiência – alguém que perdeu um braço por exemplo. Ao menos essa era a ideia original.

Mas humanos sendo humanos, nós sempre queremos mais. Queremos ser mais fortes, mais bonitos, mais inteligentes, mais poderosos. Então essas augmentations deixaram de ser apenas uma cura ou um aprimoramento para ser, pode-se dizer, um artigo de luxo. Um verdadeiro mercado surgiu ao redor delas, com grandes corporações pesquisando melhorias para eles e como diminuir um de seus principais problemas: rejeição. Assim como um órgão transplantado, uma augmentation frequentemente é rejeitada pelo corpo, obrigando o uso contínuo de um medicamento para que o usuário se mantenha vivo.

Mas há aqueles que são contra essa tecnologia. Estes acreditam que ao usar de augmentations, a pessoa está se tornando menos humana, porque está substituindo partes naturais por partes mecânicas. Há também os religiosos e o seu discurso sobre “brincar de ser um deus”. Mas há também aqueles que veem essa tecnologia como algo que pode ajudar a melhorar vidas, sendo o próximo passo na evolução humana. Por que alguém que precisa carregar muito peso não poderia substituir seus braços por outros mecânicos, mais fortes e mais adequados à sua tarefa? Por que alguém que precisa de extrema concentração e tem a mão de outras pessoas na mão – como um piloto – não pode ter um chip em seu cérebro que melhore sua concentração e seu tempo de reação?

E eu, sinceramente, vejo isso como o nosso futuro. Chegará o momento em que pensaremos que a evolução natural demora demais e tentaremos nós mesmos dar o próximo passo, impacientes em esperar o fluxo natural dela. E quando isso acontecer, faremos as mesmas discussões e teremos os mesmos problemas e medos dessa tecnologia que são apresentados no jogo. E isso tornou o jogo para mim algo único, algo que me fez questionar as mesmas coisas, tanto durante o jogo quanto depois. Me fez questionar quem somos, o que somos e para onde vamos. E esse é o conceito por detrás de um movimento filosofal chamado transhumanismo, que é bem expresso no jogo (daí que vem a referência ao h+ no trailer). Vale a pena dar uma lida no artigo da Wikipédia para entender um pouco mais sobre o movimento.

Só para falar um pouco da parte técnica antes de chegar ao cerne do problema, Deus Ex: HR é o terceiro jogo da franquia e é também o prólogo da série. O primeiro Deus Ex (lançado em 2000) é aclamado como um dos melhores jogos da história, jogo que eu infelizmente não tive a oportunidade de jogar. Houve muita apreensão de antigos fãs quanto à terceira versão e a sua simplificação extrema para agradar aos fãs de FPS (e a console-gamers, heh) mas o jogo provou-se surpreendente para eles, tanto que é possível terminar o jogo sem matar um inimigo sequer – com excessão de chefes, mas estes são outra história – e até há um achievement para isso!

Os sons do jogo estão no nível suficiente bom mas que não lhe chamam a atenção e os gráficos estão acima da média. O filtro meio dourado (o piss filter, lol) dá uma aparência mais dramática a eles. O que me encomodou bastante foram as animações durante as conversas “normais” (o porquê das aspas mais adiante), porque elas são simplesmente terríveis e o lip synch é um dos piores que eu já vi. Ambos são ruins ao ponto que você nota, porque para ser bem sincero, já que é algo que geralmente passa despercebido. E felizmente a versão PC não ficou o port porco que muitos esperavam, tá consideravelmente leve, mais bonita que a dos consoles – inclusive com suporte a DX11 e – pasmem – é possível digitar usando o teclado para inserir código e senhas! Algo tão estúpido e tão banal mas que virou motivo para comemoração nesse monte de ports toscos e mal-feitos (estou olhando para você Bethesda, melhor não decepcionar com Skyrim).

O gameplay é engajante e emocionante, tanto se você optar pelo modo chutar a porta! ou pelo modo com mais subterfúgio. Eu optei pelo segundo e foi uma das melhores experiências de stealth e exploração que já tive. No jogo, você é Adam Jensen, um ex-SWAT que trabalha para uma grande corporação. Devido a um acidente logo nos primeiros minutos de jogo, praticamente todo o seu corpo é modificado com o uso das augmentations e isso é visível no gameplay, já que antes disso o jogo nem HUD tem! E durante o desenrolar da aventura você vai melhorando elas, ou então adquirindo poderes inteiramente novos com pontos ganhos ao passar de nível – aye, há XP aqui e você recebe XP por praticamente tudo como encontrar um lugar secreto, matar inimigos, hackear ou completar uma missão sem ser visto por alguém. Algumas dessas augmentations são simples, como aumentar o seu inventário até outros mais extremos como lançar explosivos ao seu redor (beeeeeem útil contra os malditos chefes, #fikdik), passando por melhorar sua habilidade de hacking ou então ver através das paredes.

Mas o meu favorito é o Social Enhancer e pelos deuses, eu vou jogar essa merda de novo só para comprar esse por primeiro. Basicamente o que ele faz é lhe permitir ler traços das personalidades dos NPCs durante as chamadas Social Battles e os influenciar com o uso de ferormônios. Essas batalhas de influência são na minha opinião a melhor parte do jogo, porque você precisa ler as expressões do personagem enquanto ele fala e lhe ouve e responder de acordo com a personalidade dele. E aqui felizmente a animação é bastante boa para permitir isso. É algo diferente do que está se acostumado e me pareceu tão real e natural que foi disparadamente o melhor minigame que já vi em um jogo. Abaixo uma tela disso em ação (é mais pro final do jogo, então cuidado com o que ler nela):

Antes de entrarmos zona pesada de spoilers, onde falarei sobre três importantes personagens e sobre o final do jogo e porque achei eles umas das melhores personalidades já inseridas num jogo, falarei um pouco sobre algumas das referências um tanto ocultas do jogo. A primeira e já mencionada, é o movimento transhumanista, onde acredita-se que no futuro homens e máquinas se tornarão uma espécie nova e superior, atingindo a chamada singularidade tecnológica. Também sutil é a referência ao mito grego de Dédalo e Ícaro onde Dédalo fez asas com penas e cera para seu filho Ícaro fugir de Creta e fala para este não voar muito perto do Sol. Ícaro ignora o conselho e voa até lá, derretendo a cera e fazendo com que ele caia para morte. Isso é usado para ilustrar o poder trazido pelas augmentations e o perigo em abusar delas, a dita húbris, já que estamos falando bonito. E ainda nos mitos gregos, há referências constantes a abelhas e touros, conhecidos por serem a origem da vida de muitos deuses. Esses animais fazem parte de vários outros mitos na verdade, como pode ser visto neste post. E há ainda o nome do próprio personagem, Adam, que é o nome do primeiro homem de acordo com a crença cristã e Adam é o primeiro homem a ter a chamada super-compatibilidade com as augmentations, efetivamente podendo ser o primeiro espécime da nova espécie.

Só avisando que no próximo parágrafo começam os spoilers, então se quer ainda desfrutar dessa obra-prima dos games (você deveria) e se importa com spoilers, é melhor parar por aqui.

Os três personagens que comentei são David Sarif, Bill Tagard e Hugh Darrow. Cada um representa um extremo diferente na discussão sobre as augmentations e cada um possui pontos bastante válidos e ao mesmo tempo aspectos de personalidade que os tornam bastante perigosos. Começando por David Sarrif é o chefe de Adam e o dono de uma das maiores companhias que lida com augmentations. Apesar do que parece, ele não é o interessado em poder absoluto através delas; ele é uma espécie de visionário que vê nelas o futuro da humanidade, algo que poderia mesmo ajudar ela a evoluir mais rápido. Ele investe pesado em pesquisas em como diminuir a rejeição ao implante para que mais pessoas possam fazê-las com segurança. Mas ao mesmo tempo ele possui contratos militares para desenvolvimento de armas para soldados com augmentations a fim de conseguir recursos. E durante todo o jogo, ele sempre dá a impressão de saber mais do que ele lhe conta e de sempre estar escondendo algo. Fatos que são confirmados vez após vez e isso o torna um personagem não confiável.

Em seguida, Bill Tagard, um psicólogo que lidera o movimento para regularização da pesquisa e do uso das augmentations. O ponto dele está em que estamos perdendo muito da nossa humanidade ao nos juntar com máquinas e que isso pode levar a muita violência e destruição em massa no futuro caso a tecnologia avance demais. Além disso há o medo de que com um chip implantado no cérebro alguém poderia tomar o controle de você ou então modificar seus pensamentos, ações e emoções. Esses são medos comuns a praticamente todos quando pensamos numa tecnologia como essa. Ele também traz à tona o conceito de leis e liberdade. “A sociedade precisa ser livre, mas sem leis, com absoluta liberdade, só há anarquia. A humanidade precisa de leis para viver em sociedade.” Esse pensamento passado por ele é algo sensacional e que brinca também com muitos de nossos medos e opiniões. Mas Tagard é na verdade aquele que deseja obter o controle. O que ele pretende é montar um conselho que controle o uso das augmentations para que eles pudessem controlar toda essa tecnologia. E quem seria esse conselho? Seriam elegidos pelo público, mas coincidentemente os eleitos seriam membros de uma sociedade secreta, conhecida por diversas teorias da conspiração e que vocês talvez conheçam: Illuminati.

E por último, Hugh Darrow, o criador de toda essa tecnologia. Porém Darrow não gostou muito de onde sua tecnologia chegou. Ele considera as augmentations incrivelmente perigosas, compartilhando os medos da sociedade. E querendo mostrar os perigos que temem, ele faz uma amostra real do que os chips no cérebro podem fazer, fazendo com que muitos enlouqueçam e se transformem numa espécie de maníacos violentos. Ele, infelizmente, não é tão explorado quanto os outros dois. Mas o que o faz tão especial é quando se descobre as suas reais intenções durante uma Social Battle com ele. O que ele fez foi por pura inveja. Sendo o desenvolvedor da tecnologia mas não podendo a usar por ter DNA incompatível – algo bastante raro – fez com que ele achasse que tudo era uma injustiça grande demais. Com isso, ele passou a ver os perigos da tecnologia em si e acreditou profundamente neles. Achou que a humanidade precisava de uma lição para aprender a respeitar a evolução natural quando tudo o que queria era uma vingança.

E eu mencionei e falei sobre esses três personagens porque eles são vitais para o final do jogo, que também foi executado com maestria. As pessoas que Darrow enlouquece estão numa instalação científica no mar da Antártida, cujo objetivo é acabar com o aquecimento global, e ele ativa o sinal que as faz enlouquecer exatamente durante uma transmissão supostamente ao vivo, obviamente interrompendo-a. Mais adiante você descobre que essa transmissão não é ao vivo e lhe são dadas quatro opções:

  1. Transmitir ela como está, com Hugh falando sobre o perigo das augmentations e como elas deveriam ser proibidas para que algo como o que ele fez não pudesse ser feito novamente;
  2. Alterar ela com a opinião de Sarif, culpando um grupo extremista anti-augmentations pelo acidente. Com isso as pessoas passarão a se tornar mais aceitáveis à tecnologia e abraçar o idela transhumanista dele;
  3. Alterar ela com a opinião de Tagard, obrigando a formação do conselho controlado pelos Illuminati e regularizando a pesquisa e o uso das augmentations;
  4. Iniciar a auto-destruição da instalação, fazendo com que todos que estão nela morram (você incluso) e a humanidade decida por si mesmo o que ela quer do seu futuro.

Todos os finais são tão magnifícos e fazem com que se questione tanta coisa que seria um crime eu não deixar um vídeo do Youtube aqui com eles para que assistam. Há um total de 12 finais, sendo uma combinação das escolhas acima e de como você jogou – se optou por matar ou não os inimigos, efetivamente “abusando” dos seus poderes devido às augmentations, o que lhe separa entre “bom”, “neutro” e “mau” de certa forma.

Esse foi certamente um dos melhores jogos que já joguei (tô devendo uma resenha do melhor) e além de uma boa jogabilidade, ele me fez mesmo questionar o verdadeiro significado da palavra humanidade, bem como alguns dos valores que nos fazem humanos. O jogo está disponível para PC, PS3 e X360 e se você se considera um gamer, não tem desculpa para não jogar.

Grande amante de diversos estilos de Metal, incluindo Power, Folk, Pagan e Viking, passou a jogar RPG por influência dos amigos e desde então nunca parou. Leitor ávido, adora livros de fantasia, e vem atualmente lutando para vencer uma lista de livros que não para de crescer. Nerd e gamer, a carreira de desenvolvedor de software lhe foi uma escolha óbvia e gratificante. Também é pagão, vendo seus ideais representados na religião de seus antepassados.

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  • http://twitter.com/razithedragon Razi the Dragon

    Putz, doze finais diferentes! Eita fator replay! o/