“The heart of Turisas was forged by four winds / In a smithy high up in the skies
On an anvil of honour, with a hammer of blood / The Four Winds pounded”
Turisas - Battle Metal
Beowulf

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Sangue na neve

O Sol resplandecia na paisagem coberta de neve na vila do Lobo do Norte, no extremo Norte da ilha de Isa. Os aldeões estavam ocupados com suas tarefas cotidianas – alguns tomavam conta do rebanho, tão importante durante o inexpugnável inverno daquela região; outros cuidavam das plantações e alguns se ocupavam de polir e afiar suas armas. Os rumores de uma invasão bárbara haviam chegado através de bardos até as tavernas da vila. O medo fustigava a coragem daqueles homens, eles eram poucos e a vila não dispunha de nenhuma proteção contra ataques, tornando-os alvos fáceis.

Era meados de Aurora do Sol, uma pequena família comemorava o quinto aniversário de um menino. O pequeno humano tinha os cabelos da família de seu pai – um vermelho fogo intenso, e os olhos da família da sua mãe – um azul limpo e profundo. Comemorava com seus pais e seus dois irmãos mais velhos, estavam sentados ao redor de uma pequena mesa comendo carne, pão e queijo – um conforto bastante raro naquela época. Havia poucas crianças com a mesma idade do menino naquela vila, uma peste havia matado grande parte dos bebês e crianças pequenas quando ele tinha pouco mais de um ano, logo não havia alguém a quem chamar de amigo. Pais estavam com medo de uma nova peste se abater sobre a vila, matando outros de seus filhos. A taxa de natalidade foi quase reduzida à zero. A vila estava à beira da extinção.

Já estava anoitecendo e a pequena família continuava reunida, quando um alarme soou na vila – um som alto e imponente emitido por um chifre. O pai do menino levantou-se assustado, pegou sua espada e escudo e beijou sua esposa enquanto esta se aproximava dos filhos com lágrimas nos olhos. Ele passou a mão na cabeça dos filhos uma última vez e se dirigiu à rua. A mãe abraçou profundamente os filhos, molhando os rostos deles com as lágrimas. O pequeno garoto não sabia o que estava acontecendo, por que seu pai havia abandonado a festa com a espada em punhos? Por que seus irmãos estavam tão assustados e sua mãe estava chorando? A inocência é o maior presente de uma criança. Elas provavelmente sucumbiriam ao desespero antes de chegar à idade adulta.

Lá fora a situação era outra. Os homens agrupavam-se tentando formar uma posição mais defensável. Embora seu sangue nórdico os tornasse fortes e resistentes e grande parte deles tinha algum treinamento na milícia, eles eram poucos – menos de cinqüenta. As tochas que clareavam o horizonte indicavam que seus inimigos eram muitos, pelo menos quatro vezes o número deles. O desespero tentava dominar aqueles guerreiros, cuja morte era certa. Todos lutariam por um motivo mais forte do que o daqueles bárbaros – lutariam para proteger suas esposas e filhos. Já era noite e as luzes do norte dançavam para anunciar a batalha que se aproximava, o brilho das tochas e o som de passos se aproximavam cada vez mais. O menino nada disso compreendia, ficava aconchegado nos braços de sua mãe, escutando o próprio som da morte sem saber disso. Os guerreiros lá fora empunhavam suas armas com mais força, os mais experientes tentavam animar os mais novos com discursos sobre glória e honra, suas vozes trovejando naquela noite fatídica. O brilho estava mais próximo, já era possível escutar o som do metal das armaduras dos inimigos e os gritos alucinados de homens guiados pela cobiça e a fome carnal. Os urros dos bárbaros só eram suprimidos pelas palavras de esperança dos mais experientes, esperança, que todos sabiam era inútil. Todos morreriam ali, lutando por honra e glória.

Glória é o que gritavam os bárbaros alucinados, guiados pelo cheiro do sangue derramado. Não houve nada glorioso naquela carnificina sem fim. Os guerreiros da vila caiam levando consigo um ou dois inimigos, porém os números e o equipamento superior logo fizeram a diferença. Ao ouvir os gritos e sons da batalha o menino começava a sentir medo, um sentimento que nunca havia sentido, pelo menos não com tamanha intensidade. Não sabia explicar o motivo daquilo, apenas um sentimento puro e bruto que o fez chorar, não sabia por que o fazia, apenas chorava, tinha que pôr o sentimento para fora de alguma maneira e aquela era a melhor – e única – que conhecia. Sua mãe abraçou-o mais forte quando os sons se aproximaram ainda mais da casa. Aquilo o fazia sentir melhor – sentir o calor do peito de sua mãe e o abraço de seus irmãos o reconfortava de alguma maneira. Na penumbra do lado de fora o pai lutava, tentando protegê-los dos inimigos.

Haviam se passado pouco mais de dez minutos do início da batalha quando a porta da casa foi arrombada e um homem emergiu no raio iluminado por uma vela. Estava com a face e o corpo ensangüentados e um desejo maníaco nos olhos. A mãe tentou inutilmente proteger os filhos – já que esta era a vítima. O homem avançou em sua direção, rasgando suas roupas e amarrando suas mãos às costas. Os dois irmãos tentaram proteger a mãe, avançando sobre o bárbaro. Tudo o que conseguiram foi uma morte rápida pela lâmina do homem, que em seguida despiu suas vestes e avançou sobre a mãe do menino, que estava horrorizado, paralisado em um canto, as lágrimas secas em seu rosto. Não sabia o que estava acontecendo, mas sua mãe parecia estar sofrendo, pois chorava muito, tentava se livrar do bárbaro, mas este era muito forte para ela. Ele queria ajudá-la, mas não conseguia se mover, aquele sentimento paralisara seus músculos. O pai do garoto entrou no lar momentos mais tarde, matando o homem que abusava de sua mãe com um golpe rápido e preciso.

A envolveu num abraço e chorou junto dela, vendo dois de seus filhos mortos. O momento de ternura foi fatal para ambos, que morreram abraçados, perfurados pela espada de outro bárbaro que adentrara a casa. Ele em seguida avançou em direção ao menino, o mesmo olhar assassino nos olhos que ele vira quando o bárbaro matara seus pais. Ele sentia que morreria também, mas a dor de ver sua família inteira morta foi ainda maior, afinal, não há dor para os mortos. E foi até com certa alegria que o menino recebeu o golpe no ombro direito. Sentiu a dor do corte e o calor de seu sangue deixando seu corpo. Sua visão foi escurecendo e seus outros sentidos também foram perdendo a eficácia. Ele pensou ter ouvido um rugido imponente e gritos desesperados dos bárbaros antes de perder os sentidos e abraçar a morte.

Frio, sentia muito frio e uma tremenda dor no ombro. O menino estremeceu levemente e permaneceu de olhos fechados. Sentia um gosto de sangue na boca e logo a lembrança do que havia acontecido tomou conta de sua mente e sem o medo para nublá-los, eles o abateram com força total. Sentiu-se muito mal e virou para o lado vomitando nas peles onde estava deitado. O vômito o deixou ainda mais fraco e o fez sentir ainda mais frio. Quase não teve forças para abrir os olhos, mas reuniu suas energias e o fez. O que viu quase fez com que desmaiasse novamente. Deparara-se com uma criatura da qual ouvia apenas nas histórias contadas pelo seu pai ao redor da lareira ou nas músicas dos ocasionais bardos que passavam por Lobo do Norte: um dragão, as escamas dele brilhavam no lusco-fusco da caverna onde estava. “Você deve descansar”, ouviu o dragão dizer com uma voz grave e poderosa. “Diga-me apenas o seu nome”, ele continuou, os olhos encarando o menino. “Beowulf”, respondeu, antes de desmaiar novamente.

Revelação

Beowulf acordou muitas horas depois, enrolado nas peles sentia o calor retornar ao seu corpo. O calor lhe fazia bem, mais bem do que se recordava. Abriu os olhos e procurou seu anfitrião, ele estava enroscado num canto, terminando de comer o que parecia ser um bode montanhês. Agora que Beowulf sentia-se melhor, pôde observar com mais atenção o dragão. Suas escamas brilhavam como prata perfeitamente polida e seus olhos pareciam poços de prata liquefeita, as pupilas já começavam a se dilatar. Beowulf sabia que isso indicava grande idade, pois os bardos haviam lhe contado ainda em Lobo do Norte. Sua vila não mais existia, sua família e todos os que lá residiam estavam mortos. Mas ele havia sobrevivido, inexplicavelmente apenas ele havia sobrevivido, uma criança era tudo o que restara de uma vila, uma criança que fora salva por um dragão. O dragão viu as perguntas nos olhos da criança e terminou de comer os restos do bode. Virou sua cabeça reptiliana na direção da criança e começou a falar em sua voz grave, num tom calmo e confortante.

Contou a Beowulf que estava passando pelo local em busca de comida – apenas animais selvagens se fosse possível encontrá-los. O dragão preferia não ter de comer nenhum animal de rebanho, sabia o trabalho que os humanos e outros povos tinham em domesticar e criar aqueles animais. O garoto se surpreendeu com a revelação do dragão, sempre achou que os dragões fossem maus, as histórias que escutava sempre falavam de dragões que destruíam vilas inteiras com seus sopros de fogo, ou que as condenava à fome e miséria ao devorar os rebanhos e destruir as plantações. O dragão convidou o garoto a discutir o que o havia deixado intrigado e ele respondeu o que se passava em suas mentes. “Típico dos humanos”, ele ouviu o dragão dizer, “contos sempre são contados sobre guerreiros valorosos que matam o dragão que estava destruindo a pequena vila. Mas nunca, nunca se ouve do dragão que evitou que isso acontecesse mais vezes.” Beowulf estava intrigado com aquilo e perguntou ao dragão em sua voz fina, contrastando tremendamente com a do dragão “Há dragões bons que fazem isso?”, o dragão bufou levemente, “Criança, você tem muito que aprender, especialmente sobre nós dragões. Creio que ainda não lhe mencionei meu nome, chamo-me Drogoth.”

Drogoth continuou a sua história: após vasculhar a área por animais, encontrou alguns bodes montanheses, comeu alguns ali mesmo e levava outros para a sua caverna, esta na qual estavam. Durante a viagem notou uma movimentação de luzes no horizonte assim como urros de fúria e de dor. Querendo ajudar, moveu-se até lá e notou que a vila a qual estava observando havia alguns dias estava sob ataque. Largou o seu bode ali mesmo e moveu-se rapidamente na direção dela. “Ao me aproximar vi que havia alguns homens lutando contra os invasores”, contava o dragão, “mas os inimigos estavam em um número muito superior em relação a eles. Questionei-me por que lutavam, se morreriam do mesmo jeito. Ouvi alguns gritarem ‘lutem por suas famílias’, outros ‘protejam seus lares’ e outros ainda ‘salvem seus filhos’. Aquilo me surpreendeu, lutavam até a morte para proteger sua prole e a sua família. Não pude deixar de ir ajudá-los, mas quando cheguei os números superiores dos inimigos já haviam cobrado o seu preço – todos os guerreiros da vila estavam mortos e a maioria das construções estavam em chamas. Entristeci-me por ter chegado tarde demais, não podendo salvar aqueles valorosos guerreiros. Os bárbaros ao avistarem-me reuniram-se para me atacar. Eu estava pronto para fazer meia-volta e retornar à minha caverna quando o grito de uma mulher chamou-me a atenção. Dirigi-me rapidamente até a origem do grito e entrei na casa quebrando a parede. Deparei-me com um homem e uma mulher mortos, abraçados sobre os cadáveres de seus filhos e um bárbaro golpeando uma criança indefesa – você.” Ele olhou na direção de Beowulf. “Golpeei o bárbaro com minha cauda, retirando-o de cima de você.”

Pausou sua fala por um breve instante antes de continuar. “E você estava lá, caído no chão, o seu ombro sangrando muito. Pensei ter novamente chegado tarde demais, quando você se mexeu levemente. Você ainda estava vivo, embora gravemente ferido e também havia perdido muito sangue. Cortei a minha mão e derramei um pouco de sangue sobre o seu ferimento, cedendo um pouco de mim a você.” Beowulf surpreendeu-se com essa revelação, revirando-se incomodamente dentro das peles. “Falaremos sobre as conseqüências de meu ato quando você for um pouco maior”, continuou Drogoth, “agora me deixe terminar a minha história. Após ceder um pouco de meu sangue, você começou a respirar mais levemente, o que me acalmou. Alcei vôo com você entre minhas garras, esquivando-me de batalhas desnecessárias com os bárbaros para não pôr sua vida em risco. Eles ainda arremessaram lanças e dispararam flechas em minha direção, mas consegui esquivar delas facilmente. Dirigi-me até esta caverna e depositei você nas peles de alguns animais que havia comido a fim de protegê-lo do frio árduo desta região. No dia seguinte retornei até a cidade para procurar por sobreviventes, infelizmente não encontrei nenhum. E tenho vigiado você desde então. Foram quatro dias de apreensão, por vezes achei que você sucumbiria ao seu ferimento. Mas aqui você está.”

Aturdido pela informação, Beowulf ficou de boca aberta. Passara quatro dias desacordado, sua família e todos que conhecia haviam morrido – ele estava só. Não tinha para onde ir e não era forte o suficiente para caçar. O medo, a dor, o sofrimento, o desespero e a insegurança que sentia e que haviam sido acumulados em todos esses dias precisavam ser liberados. Beowulf chorou, sentiu um peso sendo liberado de dentro de si à medida que as lágrimas escorriam de seu rosto. Drogoth observava o garoto chorar com uma profunda piedade em seu olhar, ele se concentrou por um breve momento e assumiu a forma humana, um humano de ascendência nórdica, alto e musculoso, com cabelos loiros até os seus ombros e olhos prateados. Ele caminhou em direção de Beowulf e o abraçou. O garoto sentiu que o seu pai havia retornado, sentiu novamente o calor de um abraço paterno, sentiu-se confiante o bastante para perguntar algo ao dragão, sua voz empapada pelo choro, “Senhor Drogoth, o que eu farei? Eu não tenho para onde ir. Eu estou só no mundo.” “Não criança”, Beowulf ouviu a voz do dragão partindo do humano à sua frente, “você tem a mim.” Ele chorou ainda mais alto pelo tamanho gesto de ternura e amor por parte do dragão. Drogoth notou que o seu sangue já começava a fazer efeito na criança, ela raciocinava muito melhor do que uma criança humana normal. “Mas eu tenho uma condição”, ele continuou e Beowulf levantou a cabeça a fim de olhar os argênteos olhos de Drogoth. “Você vai permitir que eu lhe treine a fim de que você também possa proteger as pessoas indefesas.” Beowulf estava surpreso pelo pedido – era exatamente o que ele desejava, tornar-se forte para impedir que outras crianças acabassem como ele. “Claro!”, respondeu sorrindo, o primeiro sorriso que dava desde a invasão de Lobo do Norte.

Forjado em aço, fogo e frio

Sob a tutela de Drogoth, Beowulf treinou arduamente. Esforçava-se até o seu limite, ansiava por poder. O dragão tentou descobrir qual era o ponto forte do garoto, logo descartou a magia, ele não tinha a paciência necessária para a arte, embora Drogoth julgasse que, com o tempo ele seria capaz de ter um fraco domínio espontâneo sobre o fogo devido ao seu sangue dracônico. Beowulf realmente gostava de manejar espadas, vira seu pai e todos na vila usá-las, achava que era uma forma de honrar as vítimas do ataque. Drogoth, vendo isso, focou o treinamento na arte do combate corpo-a-corpo. Inicialmente fez o garoto treinar com espadas rústicas de madeira, a fim de melhorar sua coordenação motora e habilidade com as mãos – e também porque ele era muito novo e fraco para empunhar uma espada de metal.

Treinaram por um bom tempo usando as espadas de madeira, Drogoth assumia a forma humana e ensinava a Beowulf como atacar e defender-se utilizando a espada. Ele era muito mais eficiente no ataque do que na defesa, seus movimentos ofensivos eram rápidos, mas não possuía muita habilidade para defender-se após ter realizado o ataque. Drogoth providenciou um escudo bastante rústico e leve – uma casca de árvore, a fim de ver se os reflexos do garoto eram mais rápidos utilizando escudos. Ao vê-lo bloquear com maior facilidade os ataques sentiu-se satisfeito. Beowulf freqüentemente saía com hematomas e sangramentos destes treinos – Drogoth era gentil apenas o suficiente para não machucá-lo gravemente. Beowulf não reclamava, especialmente após seu mestre mencionar que o sangue derramado em treino não era tão ruim quanto o derramado em combate.

Por dois anos usaram apenas as espadas de madeira. Poucos meses após o sétimo aniversário de Beowulf, Drogoth o presenteou com uma espada curta, que ele havia pegado de um bando de ladrões que matara para impedi-los de assaltar uma caravana de mercadores. Os olhos dele brilharam ao ver e pegar a espada, sua espada. Ele passou os dedos levemente pela lâmina, acariciando-a e sentido o toque do ferro em suas mãos. Embora ela ainda fosse uma espada curta para um adulto, uma criança normal teria de segurá-la com as duas mãos para desferir golpes eficientes. Com o treinamento e o sangue de dragão em suas veias, Beowulf pode usá-la com apenas uma, passou certas dificuldades no início, mas em questão de dias pôde utilizá-la eficazmente. Drogoth se surpreendeu com a evolução do garoto ao longo dos anos – não julgava que seu sangue fosse fazer tamanha diferença na evolução dele, espantava-se também com a dedicação do garoto, nunca o havia questionado sobre as razões que tinha para dedicar-se com tamanha adoração aos treinamentos.

Devido à inteligência mais desenvolvida de Beowulf para a idade dele, Drogoth começou a lhe ensinar um pouco sobre a história e cultura dos dragões. Explicou-lhe a diferença entre os dragões elementais, ou cromáticos, e os metálicos. Enquanto os primeiros passavam a vida atrás de riquezas, semeando a destruição por onde passavam; o segundo grupo também buscava riquezas, mas usava seu poder para ajudar humanos e outros povos, como elfos e anões. Beowulf apenas havia ouvido outras pessoas mencionarem esses dois povos, mas nunca havia visto nenhum integrante deles. A curiosidade natural da raça chamava a atenção do dragão, afinal a curiosidade controlada é o primeiro passo para o conhecimento, bastava agora controlar essa curiosidade e ensinar ao garoto tudo o que lhe cabia aprender. Comentou com o garoto como geralmente eram os ritos fúnebres dos dragões, caso vivessem em sociedade. A eles era dado o destino que mais se aproximava com o elemento ao qual tinham maior afinidade, podiam ser enterrados, queimados ou postos para repousar nas profundezas do oceano, por exemplo. Mencionou também o fato de que nem mesmo os próprios dragões compreendiam o fato de gostarem tanto de acumular riquezas, embora alguns acreditem que seja uma maneira de comparar os poderes de dois dragões. Quanto maior a sua riqueza, mais poderoso ele é.

Muitos anos passaram-se neste ritmo de treinamento: combate e lições sobre dragões e outros povos. Beowulf foi exposto a informações que jamais teria descoberto se houvesse permanecido em Lobo do Norte. Seus pais freqüentemente vinham à sua mente durante o treinamento. A visão mais forte que tinha era de seu pai abraçado em sua mãe, coberto com o sangue dos inimigos derrotados para proteger a ela, a ele e a seus irmãos, que morreram tentando proteger sua mãe – algo que não foi capaz de fazer. Sentia-se traído por si mesmo ao não fazer nada ao ver o bárbaro abusar de sua mãe – com a idade e as explicações de Drogoth às suas perguntas, ele finalmente entendera o que havia acontecido. Beowulf estava começando a tornar-se um homem, estava com catorze anos de idade quando Drogoth aproximou-se, suas escamas refletindo a luz da fogueira que Beowulf havia acendido para aquecer-se. Queria falar algo a Beowulf havia tempo, mas julgava que o garoto não tinha a maturidade e a experiência necessários. Neste momento, olhando para o homem à sua frente, julgava que ele estava pronto. “Você cresceu muito desde que o salvei do ataque, o homem que está a minha frente hoje teria feito a diferença naquele ataque nove anos atrás.” “Tudo graças a você, mestre”, respondeu, sua voz muito diferente agora, estava mais grave e imponente, embora continuasse um pouco rouca – o processo de maturação ainda não havia se completado totalmente. A barba só agora havia começado a aparecer e ele aparava-a toda semana – ordens de Drogoth, que achava ridículo aqueles pêlos disformes e irregulares, ele poderia deixá-la crescer, se quisesse, mais tarde.

Inclinou sua cabeça reptiliana para olhar Beowulf nos olhos, ambos sorriram por um breve momento. Drogoth assumiu sua forma humana e juntou-se a Beowulf ao redor da fogueira. “Venho querendo ter essa discussão com você há um bom tempo, Beowulf”, disse fitando as chamas que crepitavam levemente. O guerreiro olhou diretamente para Drogoth, enquanto este continuava fitando as chamas. Sem mover os olhos continuou, “quando cedi um pouco de meu sangue para você, logo senti mais do que vi que você não seria como todos os humanos, afinal você possui sangue dracônico correndo em suas veias.” Beowulf escutava tudo atentamente, estava profundamente interessado em sua herança dracônica. “Vi que algo diferente e até único aconteceria com você assim que a cicatriz daquele golpe permaneceu todos esses anos sem dar sinais de que iria sumir.” Beowulf jamais dera muita atenção àquela cicatriz, afinal o treinamento o dera uma boa quantidade delas em todo o corpo. Até que no início do ano no qual faria treze anos, algo diferente aconteceu. Estava se banhando num córrego perto da caverna para remover o sangue que permanecia em seu corpo após o treinamento, quando notou que algo estranho acontecera com o seu ombro direito. Da cicatriz do golpe que havia recebido quando criança pequenas formas prateadas haviam começado a surgir em direção ao seu pescoço e braço. Apavorado, vestiu-se rapidamente e foi procurar seu mestre. Drogoth também ficara intrigado com aquilo, não conhecendo nenhuma explicação lógica para o fato, a única coisa que pôde garantir é que ela não faria nenhum mal a Beowulf.

Notou que Drogoth agora lhe encarava com seus olhos prateados, olhos que Beowulf agora quase compartilhava – o azul de seus olhos havia começado a clarear e desbotar havia dois anos. “A tatuagem que surgiu de sua cicatriz vêm me intrigando nestes anos.” Começou ele, voltando os olhos às labaredas que saltavam da fogueira. “Você também deve ter notado que ela vem crescendo desde então.” Beowulf sinalizou positivamente com a cabeça, realmente notara que ela havia crescido alguns centímetros nestes anos, alcançando a metade da distância entre seu ombro e o pescoço e começava a avançar em direção ao seu braço. “A única explicação que encontrei é que ela avança conforme você avança. Com isso quero dizer que ela é uma medição do seu poder, ou da influência do sangue de dragão sobre você. Desde que ela surgiu você tem sofrido mudanças mais drásticas: a cor de seus olhos, a sua afinidade com o fogo, a sua altura elevada…” Beowulf espantou-se com esse último detalhe. Ao ver a cara de espanto dele, o dragão continuou, “você talvez não tenha percebido, mas mesmo o seu povo sendo composto de homens altos, você é bastante alto para sua idade. Não deve ter percebido isso devido ao fato de que não viu nenhum integrante de sua raça nestes nove anos. Essas mudanças já eram previstas em parte por mim, lhe falarei sobre as quais prevejo daqui em diante mais tarde. Agora devemos nos focar nessa sua afinidade pelo fogo, acredito que você poderá desenvolver um pequeno controle sobre ele. Começaremos a trabalhar nisso já neste momento.”

Ele pediu para Beowulf se concentrar nas chamas a sua frente e tentar moldá-las, formando uma runa do alfabeto. Ele passou algumas horas tentando moldá-la sem sucesso. Drogoth acalmou-o e disse que demoraria um pouco até que conseguisse controlar essa nova habilidade. Abandonaram o treinamento de combate até Beowulf dominar o controle básico sobre as chamas, o que levou mais de seis meses. Embora ele já tivesse um controle parcial sobre elas no final do primeiro mês o dragão não o deixou descansar até que no final do sexto mês ele já conseguia controlar pequenas chamas e também criá-las. Podia também tocar em pequenas chamas sem queimar-se. Drogoth estava satisfeito com o desenvolvimento do seu pupilo, assim como Beowulf estava satisfeito consigo mesmo – ele adorara a habilidade de determinar a temperatura da carne que estava assando e quanto tempo precisava para ela ficar pronta. Ele estava ansioso para poder trabalhar sua habilidade com a espada novamente. Ao comentar isso com Drogoth, ele bufou levemente, soltando pequenas chamas das narinas. Assumiu a forma humana e entrou numa parte da caverna que havia proibido a entrada de Beowulf – e este por agradecimento ao que o dragão havia feito por ele jamais ousara descumprir uma ordem dele.

Voltou segurando uma espada com bainha numa mão e um pequeno barril embaixo do outro braço. Repousou o barril perto das chamas e pôs duas canecas de madeira ao lado dele, dirigindo-se até Beowulf com a espada em sua mão. Entregou-a para ele, dizendo “Creio que está na hora de abandonar aquela pequena espada, você já deve ter força mais do que o suficiente para usar esta”. Pegando-a nas mãos ela realmente era mais pesada, mas ele conseguia movê-la facilmente. Empunhou-a em posição de combate esperando fazer um teste com ela num treinamento com seu mestre já neste instante. Drogoth ao ver aquilo, largou sua espada no chão, pegou uma das canecas e entregou a outra a Beowulf, trouxe o barril para próximo dos dois e disse “Esta na hora de comemorarmos ao verdadeiro estilo nórdico! Já deve ter visto seu pai e outros bebendo isto, embora não deva ter provado ainda. Isso se chama hidromel.” Ele encheu a caneca de Beowulf e este bebeu o líquido curioso. Tomou um leve gole, sentindo o sabor da bebida e logo em seguida virou a caneca, um pouco da bebida transbordando e molhando suas vestes. O dragão riu ao ver a cena, como um pai faria ao ver o filho bebendo o seu primeiro hidromel. Beberam juntos o resto do barril, que já estava pela metade quando começaram a beber. Somente devido ao sangue de dragão Beowulf agüentou tamanha quantidade de álcool, mas mesmo assim acabou caindo de sono quando terminou.

Quando acordou, notou que já se passava muito da hora a qual estava costumado a levantar e também sentia uma enorme dor de cabeça. Drogoth o levou para se banhar no pequeno córrego para ajudar a aliviar a dor de cabeça do rapaz. Ao retornarem, comeram um pouco de carne e começaram a treinar com a espada novamente. Beowulf ainda estava um pouco lento devido ao hidromel do dia anterior, talvez por isso Drogoth tenha aliviado um pouco o treinamento, não sem no final do dia Beowulf estar coberto de novos cortes. Ele também teve de ouvir que um guerreiro devia saber a hora correta de apreciar os prazeres mundanos. Se ele estivesse se preparando para uma guerra as chances de sobrevivência seriam reduzidas drasticamente no estado em que se encontrava. Ele assentiu, confiando na sabedoria do seu mestre, mas não pôde deixar de apreciar a idéia de beber com seus irmãos de guerra antes de uma batalha. O treinamento com a nova espada foi inovado novamente quando Drogoth lhe deu um verdadeiro escudo de madeira, ele era pequeno, não atrapalhando em muito os movimentos de Beowulf. Estava feliz por usar armas mais reais, armas com as quais, um dia, ajudaria outras pessoas a não terem o mesmo destino que o seu quando criança. Esse pensamento o fez refletir sobre tudo o que acontecera em sua vida. Caso os bárbaros não tivessem invadido a sua vila, o que ele estaria fazendo neste momento? Estaria ele cuidando dos campos ou teria outra profissão? E ele ainda teria um pai e uma mãe. Entretanto não teria conhecido Drogoth e não seria quem ele é hoje, não teria a força e a habilidade que tem agora. A força para evitar outras tragédias às quais fora submetido. Mas e se evitasse essas tragédias, não estaria impedindo outras crianças de terem a mesma oportunidade que ele teve? Acabou distraindo-se do combate tempo o suficiente para levar um golpe um pouco mais duro de seu mestre, que também ficou surpreso ao ver a guarda dele tão aberta.

Repousou a sua espada no chão e andou em direção ao seu pupilo, que apertava o lugar no qual havia sido golpeado, na tentativa de estancar o sangue. Ele contou ao seu mestre o que havia pensado e este olhou com piedade e afeto para Beowulf. “Não deveria pensar nisso. Também sou grato por ter encontrado você naquela noite, mas e se eu não estivesse lá, o que seria de você? E quanto a todas aquelas pessoas que morreram? É verdade que isso proporcionou a nós um destino melhor, mas eu poderia não estar lá e caso isso acontecesse não seria melhor que todas aquelas famílias tivessem permanecido vivas e prosperando, do que ter encontrado a morte pelas espadas de uma tribo de bárbaros? Não devemos julgar as nossas ações pela probabilidade de algo de bom acontecer caso algo ruim aconteça e sim devemos evitar que algo ruim aconteça a fim de que coisas boas aconteçam.” Beowulf olhava abismado para as palavras de sabedoria do dragão, o que ele falava fazia todo o sentido. Ele agradeceu pela ajuda novamente e aceitou a mão que ele oferecia para ajudá-lo a se levantar.

Drogoth decidiu que já era hora de eles passarem um tempo na civilização, afinal Beowulf jamais encontrara outro membro de sua raça. O dragão achava extremamente importante ele conseguir sentir-se bem na civilização, afinal, chegaria um momento em breve no qual eles deveriam separar-se e o rapaz teria que conseguir sobreviver sozinho. Eles se dirigiram até uma pequena cidade distante da caverna de Drogoth – Fenrir, onde passariam alguns meses. Lá chegando se apresentaram como pai e filho (Drogoth fora em sua forma humana, obviamente). O dragão havia estudado esta cidade cuidadosamente nos últimos meses e viu que a chance de sua identidade real ser descoberta ali era praticamente nula, afinal a cidade não contava com nenhum estudioso das artes arcanas residente. Drogoth viu o quanto essa experiência era necessária logo ao chegarem à cidade. Beowulf estava inquieto, não se sentia bem no meio de tanta gente. Drogoth não o culpava por isso, na verdade, ele culpava a si mesmo por ter privado o rapaz da companhia de sua raça. Talvez ele estivesse tão acostumado a ouvir histórias de como outros dragões protegiam suas proles de agressores humanos, que se esquecera que embora Beowulf partilhasse de seu sangue, ele não era seu filho.

Hospedaram-se numa estalagem, dizendo que estavam viajando para escrever um livro sobre como era a vida no extremo norte, e que talvez por esse motivo passariam um bom tempo na estalagem. O estalajadeiro não via nenhum problema nisso, afinal eram raras as ocasiões na qual os quartos de sua estalagem ficavam lotados. Beowulf permaneceu inquieto por mais alguns dias, observando e escutando com atenção o seu mestre explicar-lhe os aspectos da vida cotidiana de uma pequena cidade. De vez em quando, eles paravam para fazer algumas perguntas – para manter o disfarce e também para Beowulf poder conhecer mais sobre as pessoas não apenas pelas palavras de seu mestre. Algumas semanas depois o rapaz estava mais espontâneo e aberto. Embora tenha permanecido um tanto introvertido, já não se sentia inquieto e desconfortável ao redor de tantas pessoas. Fazia seus próprios passeios pela cidade sem a companhia do seu mestre, a pedido deste, para sentir-se mais autônomo e independente. Drogoth ficava questionando os habitantes durante estes passeios – eles tornaram-se uma espécie de celebridade na pequena cidade, os boatos sobre o livro logo se espalharam. As pessoas paravam os dois na rua e perguntavam se não podiam ajudá-los em nada. Drogoth geralmente recusava educadamente estes convites, falando que no momento estava apenas escrevendo a informação que havia coletado.

Quatro meses depois, Drogoth sentia que Beowulf havia aprendido todo o necessário. Estavam a poucos meses do décimo quinto aniversário de Beowulf quando se despediram da pequena cidade, dizendo que mandariam um exemplar quando o livro estivesse concluído. Ao chegarem à caverna, Drogoth questionou Beowulf sobre o que ele havia aprendido vivendo entre o seu povo. Ele comentou que estava orgulhoso em fazer parte de um povo como aquele, quase todos os integrantes eram honrosos e valorosos. E que também lutariam para proteger a cidade e as famílias deles. Drogoth estava orgulhoso de seu aluno, ele havia desenvolvido um senso de honra e justiça bastante forte, exatamente o que ele queria. Retornou à sua forma de dragão e olhou seriamente para Beowulf. “Tenho que fazer uma coisa que venho adiando faz anos, está na hora de separar-nos por um tempo.” Beowulf olhara aturdido para o dragão, seu treinamento ainda não estava concluído! Havia tantas coisas ainda a aprender. “Preste atenção Beowulf,” ele falara numa voz ainda mais grave e imperativa. “durante a nossa estadia em Fenrir descobri certas coisas que me deixaram preocupado. Não lhe falarei sobre elas agora, somente quando eu retornar. Você não deve, sob hipótese nenhuma, entrar em qualquer área densamente habitada. Até o meu retorno mantenha-se afastado destas áreas, saberá os motivos mais tarde.” “Sim mestre”, assentiu Beowulf, que aprendera a confiar totalmente em seu mestre. “Devo partir imediatamente, se até o seu vigésimo terceiro aniversário não retornar considere-me morto. Até lá, não se esqueça de seu treinamento, julgo que ele será muito importante daqui para frente. Até mais, Beowulf.” Ele abriu suas enormes asas e alçou vôo em direção ao sul. Beowulf ficou parado, aturdido, ele ficaria sozinho por até nove anos. Pegou sua espada e escudo e partiu também, indo procurar um lugar no qual passaria os primeiros meses.

A Ascensão

Um ano e alguns meses se passaram desde que Drogoth havia partido, Beowulf sobrevivera até o presente momento caçando cervos para alimentar-se e para usar suas peles para abrandar o frio da região. Com alegria recebeu o calor da primavera que diminuí um pouco as dificuldades de sobrevivência na região – ele vinha marcando os dias na parte traseira de seu escudo, julgava que estavam em meados de Despertar do Sol. Caçava um rebanho de cervos numa manhã meses após o seu décimo sexto aniversário, quando acabara escorregando numa pedra solta e caíra com seu braço direito sobre uma pedra pontiaguda, ferindo-o gravemente. Conforme fora instruído por Drogoth ele lavou o ferimento para remover as impurezas no interior e em seguida conjurou uma pequena chama em seu dedo para cauterizar o ferimento. A dor foi quase insuportável nas duas etapas, mas ele sabia que se um dia desejaria utilizar novamente o seu braço em combate, isso era necessário. Em seguida enfaixou-o com tiras de sua blusa, vestindo apenas as peles dos animais que havia caçado para proteger-se do frio que ainda resistia ao calor da estação. Sentia muita dor ao movimentar o braço, tornando impossível caçar utilizando ele, mas se não caçasse acabaria morrendo de fome. Também poderia procurar ajuda numa vila ou cidade próxima, mas estaria desrespeitando as ordens de seu mestre, o que não faria mesmo que sua vida dependesse disso. Pôs seu escudo nas costas e sacou sua espada com a mão esquerda, sentindo certa dificuldade em empunhá-la, mas se quisesse sobreviver não tinha escolha. Não teve muito sucesso no primeiro dia, não conseguiu caçar nada, tendo que comer o que sobrara do dia anterior. Decidido, treinou arduamente com a mão esquerda naquele dia e nos seguintes. Acabou tendo que recorrer a frutas que havia encontrado enquanto caçava. Não que detestasse comer frutas, mas elas não lhe davam a energia necessária para continuar no mesmo ritmo de treinamentos.

Treinara por cerca de quatro meses até conseguir controle absoluto do braço esquerdo. O braço direito estava quase completamente curado em dois meses, mas a perspectiva de seus golpes serem tão letais com o braço esquerdo quanto com o direito lhe parecia fascinante. Mesmo antes de julgar seu treinamento completo já conseguia caçar utilizando-se do braço esquerdo, mas ele ainda não estava no ponto de usá-lo eficazmente em combate por isso havia continuado com o treinamento. Assim que seu braço direito se recuperara totalmente – cerca de três meses antes de seu décimo sétimo aniversário, ele começou a treinar atacar com seu escudo juntamente com a espada. A dificuldade foi bastante alta no início, devido à diferença entre de atacar com uma espada e com um escudo. Mas assim que dominou a habilidade – um mês mais tarde – estava satisfeito consigo mesmo. Resolveu banhar-se enquanto o riacho ainda não estava congelado devido ao frio que se aproximava. Ao chegar lá se surpreendeu com suas feições, estavam mais graves do que nunca, a barba havia começado a preencher toda a sua face, a tatuagem já estava na base de seu pescoço e já alcançara um quarto da distância entre seu obro e cotovelo direitos. O seu corpo também estava maior – os músculos finalmente começavam a aparecer depois de todos os anos de treinamento. Terminou de lavar-se e pegou sua espada e escudo, saindo para caçar.

Andou até uma floresta que não havia explorado ainda, para ver se encontrava algum rebanho de cervos ou outro mamífero de pequeno-médio porte. Já estava anoitecendo e Beowulf ainda não dera sorte – não havia conseguido caçar nada até o momento. Estava quase desistindo, mesmo que isso significasse que dormiria sem jantar. Levantou-se de onde estava deitado, escutando os arredores, e começou a retirar as folhas secas de suas vestes quando ouviu um grito de uma mulher e passos apressados cerca de 30 metros para o seu lado – passos de mais de um par de pernas, parecia que a mulher estava sendo perseguida. Ele tinha de ajudá-la e não estaria desrespeitando nenhuma ordem do seu mestre, afinal ele estava na floresta e não em uma cidade. Movimentou-se rapidamente em direção a origem do barulho. A penumbra do local não permitia que ele enxergasse normalmente, mas as longas sessões de treino noturno deram a Beowulf a capacidade de lutar apenas com seus outros sentidos.

Escutou outro grito – desta vez mais desesperado, começou a correr, a espada e o escudo já em punho. Poucos segundos depois a quantidade de árvores começou a diminuir e uma clareira começou a surgir na penumbra da floresta. Assim que seus olhos se acostumaram com a iluminação mais forte do local, Beowulf viu dois homens com espadas em punho, apontando-as em direção a uma figura coberta por um manto, seu rosto nas sombras do capuz, caída no chão. Entrou correndo na clareira, quebrando alguns galhos no chão e chamando a atenção dos homens, ele estava parado dentro de uma vala de cerca de trinta centímetros de profundidade e encarando os homens, que estavam num terreno mais alto que ele. Eles pareciam ter de vinte a trinta anos de idade, mas nem de perto haviam treinado tanto quanto Beowulf. “Veja só”, um deles disse olhando para o outro, “temos mais uma vítima esta noite, solte esta espada e nos passe o dinheiro, moleque.” O outro riu após o primeiro bandido ter caçoado do rapaz – eles obviamente não perceberam que a vala na qual Beowulf estava era tão profunda, porque ele era mais de quinze centímetros mais alto que os ladrões. O segundo ainda rindo continuou “Vamos matá-lo, assim poderemos nos divertir com a garota um pouco.” Ele olhou com um olhar maldoso em direção à figura encapuzada no chão. Ao ouvir que a mulher era na verdade uma garota, e o que eles iriam fazer com ela, Beowulf revoltara-se e apontou sua espada para os dois homens dizendo, “Larguem vocês suas espadas e deixem a garota em paz, ou não sairão vivos daqui.” Os dois homens riram. “Mas quem diria, temos um herói aqui hoje. Uma pena que você não passará desta noite.” Eles avançaram em direção ao rapaz, as espadas em punho e sorrisos confiantes em seus rostos.

Beowulf saltou da vala ficando em pé no terreno elevado, espada e escudo em prontidão. Os ladrões surpreenderam-se ao ver o tamanho do homem ao qual chamaram de moleque. Beowulf girou a espada em sua mão, preparando-se para o combate. Seus inimigos tremeram perante a fúria nos olhos do guerreiro. Avançaram juntos sobre ele, o rapaz esquivou do primeiro golpe e bloqueou o segundo com seu escudo, desviando o braço do inimigo e acertando um golpe preciso no pescoço deste. O primeiro urrou após ver o seu aliado morto e avançou cegamente sobre Beowulf, atingindo-o de raspão no braço, o suficiente para cortar levemente o músculo, o guerreiro contraiu levemente o rosto devido à dor sentida. Ele desferiu um golpe cheio de fúria no pescoço do inimigo decepando-o. Os inimigos estavam aos seus pés, mortos, eles foram as primeiras pessoas a quem matara, sempre imaginara que não conseguiria suportar este sentimento, mas o pensamento de que as mortes deles salvaram a vida de um inocente encheu-o de felicidade e orgulho. Gotas de sangue e suor de Beowulf pingavam sobre a terra já encharcada com o sangue dos ladrões. Ele jogou o corpo de seus inimigos na vala e começava a enterrá-los, jogando terra sobre eles com as próprias mãos, quando alguém o abraçou por trás.

Olhou para trás e viu que a garota o segurava firmemente com os braços entrelaçados. Ele virou-se para olhá-la melhor, ela continuou cabisbaixa abraçando-o fortemente, o guerreiro podia ouvir soluços debaixo do capuz. Ele retirou seu capuz e ergueu sua cabeça segurando o queixo da garota. O calor do abraço somado à beleza dela e aos olhos verdes claros despertou sua libido. Ela era bastante jovem, devendo ter a mesma idade dele, tentando disfarçar o que sentia, perguntou-lhe “Você está bem?” lágrimas rolavam do rosto dela, tão claro quanto uma manhã de sol, ao responder “Sim, obrigado pelo que fez por mim”, ela pôs uma de suas mãos nos peitos do rapaz, apertando as peles que ali estavam, soluçando histericamente. Beowulf estava tão assustado quanto ela, via aquela garota chorando de agradecimento pelo que ele fizera, sentia que estava corando. Tentando acalmá-la disse “Fiz o que qualquer um teria feito”, ele a ouviu responder, chorando “Você ouviu o que eles iriam fazer comigo, obrigada por impedi-los.” Ele a abraçou, “Você está segura agora”, abaixou a cabeça para olhar profundamente nos olhos dela. Ela encarava-o com os olhos cheios de lágrimas. Não pôde resistir – abaixou-se e beijou-a, ao ver que o gesto lhe fora retornado, deixou que a natureza cuidasse do resto.

Despertou deitado sobre a relva, o Sol pálido do outono brilhava sobre a sua cabeça, os raios refulgiam ao passar entre as folhas em movimento. A moça estava deitada sobre o seu peito, os dois cobertos com as peles que ele vestia. Permaneceu deitado por um tempo, apreciando a paisagem e como os cabelos dela esvoaçavam à brisa suave da manhã. Passaram-se alguns minutos até que ela também despertou, beijou-a novamente e começaram a conversar. Ele contara a ela que ele havia sido criado nas montanhas pelo seu mestre, que o adotou após seus pais terem morrido quando ele era muito jovem. Também contou que seu mestre havia saído em viagem e que ele lhe dera ordens para aguardar a sua volta. Ficou sabendo que o nome da jovem era Gwyneth, ela contou que residia nas proximidades, junto de seu pai, o qual fora assassinado pelos mesmos bandidos que a perseguiram na noite passada, eles haviam tentado roubar a fazenda deles e o seu pai morrera tentando proteger suas posses, ela correra em direção à floresta tentando fugir dos assaltantes. Ela chorou novamente ao lembrar-se da morte de seu pai, lágrimas escorriam pelo peito de Beowulf que a abraçou carinhosamente. Ela o beijou e acabaram fazendo amor novamente sob o límpido céu de uma manhã de outono.

Quando acordou, viu que Gwyneth já havia despertado e começara a se vestir. Ele se pôs de pé e começou a se vestir também. Quando ele indagou sobre o que ela estava fazendo, ela terminou de se vestir e olhou para os olhos do guerreiro, um profundo pesar e angústia em seus olhos. “Tenho que ir até a cidade de Valkir que fica perto daqui, tenho parentes lá que me acolherão. Porque você não se junta a nós, tenho certeza que meus parentes aceitarão a você também.” O guerreiro olhou para ela tristemente, “Eu não posso. Estou sob ordens de meu mestre para não chegar perto de nenhuma cidade e não posso desrespeitá-lo após todos esses anos que ele me ajudou.” Permaneceu em silêncio por um tempo e então continuou “Por que você não fica aqui comigo? Podemos morar na sua fazenda, não sou bom agricultor, mas posso caçar e realizar outras tarefas.” Ela começou a chorar, “Eu não posso fazer isso, tenho que retornar para a cidade. Talvez um dia encontrar-nos-emos novamente Beowulf. Adeus!” Ela virou-se e andou decidida para dentro da floresta. O guerreiro permaneceu ali, pasmo. Nunca imaginara que seu primeiro relacionamento fosse durar tão pouco, prometeu a si mesmo que um dia iria até Valkir para encontrá-la novamente, mas enquanto isso aguardaria pelo retorno de seu mestre. Retornou até onde começara a enterrar os ladrões e terminou o serviço.

Sempre ao despertar Beowulf olhava para os céus na esperança de ver Drogoth voando entre as nuvens, suas escamas de prata brilhando sob a luz do sol, iluminando a paisagem. Os anos foram passando e Beowulf foi crescendo cada vez mais. De acordo com as anotações que fazia no escudo já estava com mais de vinte e um anos. Admirou seu corpo enquanto lavava-se numa manhã de Coração do Fogo, o equinócio de outono se aproximava e o clima já começava a esfriar. Seu reflexo refletia tudo o que acontecera em sua vida. Seus músculos estavam grandes e resistentes, fruto de todo o treinamento que realizou. Ele era bastante alto, chegando aos dois metros de altura. A barba de um vermelho vivo, agora completa, era espessa e lisa, com cerca de dez centímetros de comprimento. Os cabelos longos e lisos chegavam até a metade das costas. Os olhos tinham agora a cor de prata pura e polida, semelhante à cor das escamas de Drogoth. Seu semblante era grave e imponente, combinando com sua voz poderosa – herança de Drogoth sem dúvida. A tatuagem já alcançara mais da metade de seu pescoço e estava quase chegando ao seu cotovelo – ela havia começado a enrolar-se pelo braço, cobrindo grande parte de seu bíceps. Ela agora brilhava levemente quando utilizava seus pequenos poderes sobre o fogo. Terminou de se lavar e começava a vestir-se quando escutou um barulho de passos atrás dele. Rapidamente sacou sua espada e preparava-se para desferir um golpe, quando uma voz familiar disse: “Crescemos, não?”

Virou-se e viu quem aguardara por todos esses longos anos – ali estava Drogoth em sua forma humana, imponente e feliz. Beowulf largou sua espada e avançou em direção ao seu mestre abraçando-o como a um pai. “Vá com calma!” ele ouviu seu mestre dizer, eles agora tinham praticamente a mesma altura, embora Drogoth fosse um pouco mais alto. Beowulf soltou seu mestre e ficou olhando para ele, uma expressão de profunda devoção no olhar. “Nossa!, como você está forte e bem diferente daquele garoto com quem falei seis anos atrás. Vejo que suas habilidades melhoraram muito”, disse apontando para a tatuagem. “Tenho muitas coisas que quero discutir com você, mas agora não é o momento. Quero que me conte tudo o que se passou nestes anos em que estive fora.” Beowulf convidou seu mestre a sentar ao redor da fogueira no seu rústico acampamento. Os dois sentaram-se em pedaços de madeira improvisados como bancos. Beowulf contou tudo com extremos detalhes, orgulhoso de cada façanha e habilidade que havia adquirido nestes longos anos. Falou sobre o ferimento no seu braço direito, que o forçara a usar o seu braço esquerdo para caçar, tornando-se assim, tão habilidoso com o braço esquerdo como com o direito. Falou como aprendera a combater usando seu escudo e sem o auxílio da visão, como dominara melhor suas habilidades com a espada e o controle sobre o fogo. Falou sobre Gwyneth e sobre como ela havia o abandonado. “Ela não o abandonou,” seu mestre lhe falava após ter contado a ele, “ela estava assustada com o que havia acontecido. Acredito que a perspectiva de viver sozinha com alguém que mal conhecia a tenha deixado confusa. Ela não sabia se o amava ou se estava apenas profundamente agradecida pelo ocorrido. Ela temia o que poderia acontecer caso tivesse ficado aqui para viver com você, mas ela gostaria de conhecê-lo melhor, por isso o convidou para ir com ela à casa de seus parentes. O que, fico feliz em saber você não fez. Os motivos para isso lhe contarei hoje à noite. Por enquanto continue me contando o que aconteceu.” Beowulf terminou sua história, contou como os quatro anos seguintes passaram rapidamente e como ansiava pela volta de seu mestre. Drogoth ficou agradecido por ele ter obedecido a suas ordens e esta noite ele saberia o motivo da sua viagem. Eles caminharam por cerca de duas horas até chegarem ao seu destino – a caverna de Drogoth.

O fim de uma jornada

Assim que chegaram à caverna, Beowulf viu que seu mestre já havia estado ali hoje, um javali estava assando sobre uma fogueira e um barril de hidromel estava repousando num canto. Eles beberam e comeram até que o crepúsculo começou a dominar o céu, quando Drogoth assumiu sua forma natural e pediu para que Beowulf se aproximasse. Ele se sentou ao lado do fogo, o guerreiro olhava atentamente para seu mestre. Drogoth vendo que tinha atenção total de Beowulf falou num tom pesaroso. “Nós dois corremos um grande perigo, um perigo de morte.” O guerreiro permaneceu imóvel, seus olhos voltados para o dragão. “O meu maior inimigo, Nonaloth,” continuou, “descobriu sobre você. Ele tinha um espião em Fenrir, que repassou tudo o que sabia sobre mim e você a ele. E temo dizer que ele sabia muito, e o que não sabia – de onde você vinha e quem você realmente é – Nonaloth foi capaz de desvendar. Ele sabe que você tem meu sangue e julga que isso é uma vergonha a toda a raça dos dragões.” Beowulf continuara imóvel, fitando as chamas. Drogoth continuou, “Você deve saber que muitos dragões assumem a forma humanóide para passar a noite com belas elfas e humanas, principalmente. Eu mesmo fiz isso em Fenrir. Mas os casos nos quais um filho resulta desta união são muito raros, uma quantidade ínfima de bebês nasce com sangue dracônico misturado com o de outra raça. E poucos desses bebês sobrevivem até chegar à idade adulta, pois Nonaloth e outros dragões que compartilham do mesmo ponto de vista sobre essa união fazem todo o possível para exterminá-los.”

O guerreiro virou-se para seu mestre, “Ele então acredita que sou seu filho?” Drogoth riu abafadamente. “Não, mas suspeita, ele de certa forma sabe que você tem meu sangue, mas como isso aconteceu ele não sabe dizer.” O guerreiro tinha uma expressão preocupada em seu rosto, “O que faremos mestre?”, agora era a vez de Drogoth contemplar as chamas. “Eu não sei, mas creio que a melhor chance de sobrevivermos é ficarmos juntos, pelo menos por mais alguns anos.” Beowulf suspirou, não sabia se era de alívio ou de indignação, deseja permanecer e ajudar seu mestre, mas também gostaria de viajar pelo mundo, conhecer algo mais do que as montanhas e tundras às quais estava acostumado. Seu mestre lhe chamara novamente, um tom de voz um pouco mais calmo. “Creio que já é hora de discutir com você sobre a evolução de seus poderes. Já comentei que quando lhe ajudei, cedendo-o meu sangue eu não sabia ao certo o que aconteceria com você. Cada mudança que se passou com você: o amadurecimento precoce, o forte senso de honra e justiça, a força superior à da grande maioria dos humanos, sua resistência natural, o domínio sobre o fogo, a mudança da cor de seus olhos, o seu tamanho avantajado, e principalmente a tatuagem foram surpresas para mim tanto quanto para você. Nunca tive certeza aonde você chegaria, embora possa lhe garantir que nunca imaginei que você teria avançado tanto. O guerreiro que está hoje aqui na minha frente não é obra do meu sangue e sim do seu esforço e dedicação.”

Ele ouvia o crepitar incessante das chamas, brincava com suas formas utilizando o seu pequeno domínio sobre elas, sua tatuagem brilhando juntamente com a iluminação precária produzida pela fogueira. Olhou para o seu mestre e disse, com a voz rouca. “Não seria o que sou hoje sem o seu treinamento, mestre.” Drogoth olhou para ele brincando com as chamas e sorriu. “Talvez,” ele disse, “mas eu não sou responsável por todas as suas habilidades. Mas temo em dizer que mesmo elas são inúteis contra Nonaloth. Ele é muito mais experiente e poderoso que você. Se puder evitar um confronto, evite-o.” Ele terminou a frase com um tom mais grave, o que fez Beowulf parar de brincar com as chamas e olhar para seu mestre, previa que o que ele diria a seguir era profundamente importante. “Creio que também está curioso sobre o que acontecerá com você daqui em diante. Não posso garantir-lhe com toda a certeza, mas de acordo com minhas observações você tem desenvolvido habilidades e características para refletir a sua herança: o meu sangue. Seus olhos tornaram-se muito parecidos com os meus embora mantenham – e creio que assim continuarão – o formato do de um humano normal, com pupilas redondas e não se dilatando conforme você envelhece. O seu domínio sobre o fogo também reflete meu elemento principal. O seu tamanho, força e resistência foram canalizados através de meu sangue e com o seu treinamento desenvolveram-se para o que são hoje.”

Prestava muita atenção ao que Drogoth falava. Sempre tivera muita curiosidade – e interesse – sobre suas habilidades. Seus olhos estavam fixos em seu mestre que quando na forma humana lembrava-lhe muito a si mesmo. Ele respirou profundamente e continuou, “O que prevejo para o seu futuro, são outros reflexos do que eu, e todos os dragões, somos. Sua pele e músculos já são bastante resistentes e creio que com tempo eles se tornarão cada vez mais e mais resistentes, podendo até mesmo fazer com que golpes fracos não o atinjam e reduzir os ferimentos causados pelos mais fortes.” Beowulf olhou para seus braços e apertou-os, realmente sentia que sua pele e músculos eram firmes e rígidos, mas como nunca teve muito contato com a civilização, não sabia que aquilo era incomum. “Seus sentidos também podem se desenvolver, especialmente a visão e a audição, permitindo a você ver e ouvir quase tão bem como os dragões.” Beowulf achou aquilo espantoso, seus sentidos nunca foram seu forte, ele já fora várias vezes surpreendido por seu mestre durante os treinamentos. “E,” Drogoth surpreendeu Beowulf, perdido em seus devaneios, “creio que sua forma física e força ainda serão afetas pelo meu sangue. Até o presente momento, nada de extraordinário referente a esses aspectos aconteceu com você, suponho que com a maturação de suas habilidades o meu sangue despertará suas habilidades.”

Beowulf passou a mão sobre sua tatuagem, perguntando-se até onde a influência do sangue dracônico iria em seu corpo. Embora suas feições fossem um pouco mais selvagens e graves do que a de outro humano e a cor de seus olhos fosse incomum, ele era indistinguível de outro integrante da raça. Alisava sua barba enquanto pensava sobre o assunto. Se aquilo que seu mestre lhe falara fosse verdade, ele realmente poderia fazer uma diferença no mundo, mas havia um problema – Nonaloth. O dragão ameaçava não só o seu futuro como também o de seu mestre. Ele se erguia em seus pensamentos como uma montanha, barrando qualquer esperança de uma vida calma nos braços de uma mulher, construindo uma família. A sua família. Ao contar seus temores para Drogoth, ele levantou-se e se dirigiu até o lugar onde costumava dormir, enroscando-se lá. “Sempre há uma maneira de resolver os problemas, Beowulf. Basta encará-los da maneira correta, Nonaloth é sim um inimigo formidável e mortal, tanto para mim quanto para você. Enquanto ele não souber onde estamos, estaremos seguros. Durma sossegado, amanhã é um outro dia.” Beowulf recolheu-se em sua cama improvisada de peles de animais. Passou um tempo refletindo sobre as informações às quais fora apresentado naquele dia. Mas logo o cansaço e o hidromel cobraram o seu preço, e ele caiu num sono profundo.

Raios de sol batiam em seu rosto quando acordou. Drogoth não estava na caverna, ele o encontrou no riacho, banhando-se. Juntou-se ao seu mestre, e conversaram sobre os rumos do treinamento enquanto se lavavam. Drogoth comentou que não tinha muito mais o que ensinar a Beowulf, ele já havia aprendido tudo sobre o domínio da lâmina de uma espada. O dragão comentou que talvez fosse útil Beowulf conhecer um pouco sobre combate à distância e que ele o ensinaria a utilizar um arco. Ao terminarem, Beowulf começara a se vestir quando Drogoth lhe chamou a atenção. “Esqueça essas peles. Eu comprei roupas para você, elas estão na caverna junto com o arco. Beowulf vestiu apenas a parte de baixo, cobrindo suas partes íntimas, e dirigiu-se até a caverna. Lá encontrou roupas simples, porém roupas, o toque do tecido em sua pele era estranho após anos usando peles, estranho, porém confortável. Ele vestiu suas roupas pegou o arco simples e as flechas que estavam ali perto e encontrou o dragão na rua. Ele arrumava uma pilha de palha onde Beowulf praticaria pontaria. O guerreiro aproximou-se com o arco em punho pronto para a lição. Drogoth mostrou-lhe o jeito correto de segurar o arco, como puxar a corda para dar maior força ao disparo e outros fundamentos básicos da arquearia.

Um mês e algumas semanas se passaram. Beowulf aperfeiçoou em parte sua técnica de arquearia. Ele teve muito mais dificuldade em dominar o uso do arco do que tivera com a espada ou o escudo. Ele obviamente continuou a praticar com a espada. Drogoth o elogiou por descobrir sozinho que com seu domínio sobre o fogo poderia criar pequenas chamas na superfície da lâmina da espada, causando uma pequena queimadura ao seu inimigo, além do dano normal pelo golpe. As noites estavam cada vez mais frias agora que o inverno se aproximava. Beowulf saíra uma noite para admirar o céu e treinar um pouco o combate às escuras. Drogoth havia permanecido na caverna, dormindo. Treinou por cerca de uma hora e em seguida fora até o riacho retirar o suor de seu corpo. Enquanto vestia-se, olhava para a água vendo as luzes do norte dançarem na superfície da água. Aquilo não lhe trazia boas lembranças – Drogoth lhe contara que no dia em que sua vila foi invadida por bárbaros, a aurora também brilhava no céu. Não gostou daquilo e resolveu voltar rapidamente para a caverna.

Dera apenas alguns passos na direção dela quando um clarão brilhou na escuridão, sua origem era a caverna de Drogoth. Momentos mais tarde uma figura alada emergiu das profundezas dela e soltou um jato de chamas para o alto. Em seguida alçou vôo, sua silhueta claramente visível sobre o céu estrelado. Beowulf perguntou-se porque seu mestre estaria saindo tão à noite. Receava ter de ficar novamente sozinho por outros longos anos, mas logo descartou essa probabilidade, Drogoth teria lhe contado. Acelerou o passo, perguntando-se o que poderia ter acontecido para ele sair sem lhe avisar. A única explicação que encontrou é que ele devia partir com urgência e como Beowulf não estava na caverna, deixara algum recado escrito para ele dizendo que retornaria em breve. Sim, devia ser isso. Mas por que então seu coração batia alucinadamente? Não sabia explicar, Drogoth dissera que estavam seguros e ele não poderia ter se enganado – não Drogoth, o dragão de prata. Enquanto subia o caminho sinuoso montanha acima, lembranças do dragão inundavam sua mente. O dia em que ele lhe resgatara, as vezes em que trocaram golpes de espada, as aulas sobre a cultura dracônica, a ajuda que ele lhe dera para dominar mais eficazmente seu domínio sobre o fogo, a primeira vez em que bebera hidromel, a felicidade ao vê-lo novamente após quase uma década, tudo o que ele lhe falara sobre como suas habilidades se desenvolveram e como se desenvolveriam – todas essas lembranças invadiam sua mente sem uma explicação lógica. Seu coração batia alucinadamente enquanto dava os últimos passos montanha acima. O que estava acontecendo? Embora fizesse menos de um minuto desde que vira o clarão inicial, anos pareciam ter se passado. A entrada estava poucos metros à sua frente, sentia que seu coração iria explodir, deu o último passo e o interior da caverna à penumbra devido à fogueira abriu-se perante seus olhos prateados.

Nunca esqueceu o que seus olhos viram dentro daquela caverna. Drogoth estava lá, caído, uma enorme quantidade de sangue no chão. Marcas de dentes e garras cobriam quase todo o corpo do dragão, suas escamas prateadas cobertas de sangue refulgiam à luz da fogueira, dando a caverna uma iluminação avermelhada. Beowulf correu em direção a ele, lágrimas de dor escorriam por sua face. O som delas pingando sobre o sangue do dragão preenchia toda a caverna, para Beowulf nada além da caverna existia neste momento. Ele se aproximou do dragão e ajoelhou-se ao lado de sua cabeça, levantando o pescoço dele e abraçando-o. “Pai!” Surpreendera-se com as próprias palavras, nunca chamara Drogoth assim, embora seus sentimentos em relação a ele fossem extremamente paternais. “Do que me chamou?” Ele ouviu a voz do dragão, asfixiada e fraca, tão diferente daquela voz grave e poderosa à qual estava acostumado, os movimentos pesados e lentos dos músculos do pescoço indicavam que ele estava respirando com dificuldades. “Pai, você deve descansar! Poupe suas forças.” Lágrimas prateadas escorreram pelos olhos do dragão, indo parar no colo de Beowulf, que àquela altura estava coberto com o sangue do dragão. “Nunca pensei que fosse ouvir isso, sempre desejei secretamente ser chamado de pai por você, filho.” Beowulf abraçou mais fortemente o pescoço de seu pai. O dragão bufou levemente de felicidade. “Não há nada que você possa fazer por mim, morrerei em instantes.” O choro do guerreiro intensificou-se. “Não chore, estou feliz por que deixarei algo de bom neste mundo – você. Mas antes você precisa saber o que aconteceu. Foi Nonaloth, ele veio aqui. Deve ter descoberto a localização de minha caverna. Foi o destino que fez com que você não estivesse aqui. Acho que consegui convencer ele que havia mandado você para longe, usei a raiva dele ao meu favor.” Ele riu fraca e abafadamente. “Quando ele viu a pilha de peles que você usa para dormir, me perguntou se você tinha ido embora por que eu as mantinha ali. Respondi ‘Você sabe como eu sou. Humanas sempre me deixaram excitado’.” Beowulf riu em meio às lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

Ouviu o som familiar das chamas crepitando. Esta noite, entretanto, o som não lhe acalmava. Drogoth continuou a falar, sua voz ainda mais fraca. “Ele ficou furioso com meu comentário. Avançou sobre mim com uma fúria indomável. Não pude fazer absolutamente nada para me defender. Ele é muito mais velho e experiente do que sou. Após golpes cheios de fúria, ele soprou fogo sobre mim, embora soubesse que de nada adiantaria – era apenas um sinal da minha derrota e humilhação. Ele deixou-me aqui, sangrando até morrer. Sabia que você retornaria, pude sentir que se aproximava e aqui você está, filho.” Beowulf urrou de fúria, sentimentos distintos chocavam-se em seu peito. “Pai, por favor, não me deixe. Já perdi um pai, não posso perder outro.” “Você jamais perdeu um e nunca perderá dois. O seu pai vive em você, assim como eu, não se esqueça que é o nosso sangue que corre em suas veias, filho.” Beowulf acalmou-se um pouco, “O que eu farei?” Drogoth encarava-o com seus profundos olhos cor de prata. O guerreiro podia ver seu rosto refletido neles. “Você encontrará seu caminho, mas queira ou não, Nonaloth estará no final. Seja seu motivo, filho, vingança ou puro instinto de sobrevivência, você acabará enfrentando-o no final. Ele não põe em risco somente a sua vida, mas também a de todos os outros que estejam a sua volta. Você não terá descanso enquanto ele respirar o mesmo ar que você. Suas habilidades ainda se desenvolverão por um longo tempo, tenha certeza de não enfrentá-lo antes da hora. Como meu presente de despedida, você pode pegar tudo o que houver na minha sala de tesouros, é a sua herança. Adeus, filho.” O pescoço dele parara de mover-se. Beowulf urrou novamente e abraçou com muita força a cabeça de seu pai. O sangue que escorria do dragão caiu sobre a tatuagem de Beowulf, ela brilhou com um vermelho intenso e ele sentiu-a queimar e arder. Uma dor profunda irradiou-se da cicatriz para todo o seu corpo, percorrendo todos os músculos de seu corpo. Sentiu-se fraco e tudo ficou escuro.

Uma nova alvorada

Beowulf acordou abraçado no pescoço de Drogoth, toda a dor da noite anterior retornara com força total. Já passava do meio-dia, o sol brilhava forte¬mente do lado de fora da caverna. O interior rochoso dela parecia muito mais frio agora que Drogoth estava morto. Ele sentia que devia dar ao seu pai os rituais fúne¬bres adequados. Foi buscar lenha e a palha que utilizavam para treinar arquearia. Colocou a lenha e a palha ao redor do corpo maciço do dragão. Lembrara-se do que ele havia dito sobre a sala de tesouros, e como não tinha intenção de retornar à caverna após iniciar o ritual, rumou até a sala. A sala era menor do que esperava e o seu conteúdo surpreendeu-o ainda mais. Imaginava que a sala estaria repleta de ouro, jóias e gemas, mas ela estava completa¬mente vazia, a não ser por um último barril de hidromel e uma mesa encostada na parede oposta à porta. Sobre a mesa estavam obje¬tos que fizeram Beowulf sentir-se extremamente grato por Drogoth, sentimento que tornou a perda ainda mais insuportável e dolorosa. Lá estavam uma espada, um escudo e uma simples armadura de couro. O escudo era feito de metal e madeira – a armação e o centro eram de ferro assim como algumas tiras de metal que iam do centro até a borda, terminando em setas; o restante era de uma madeira brilhosa e lisa, que cheirava a carvalho. A espada fez os olhos do guerreiro brilharem. Era uma espada larga – um tanto maior para compensar o tamanho de Beowulf. Ela tinha cerca de um metro e trinta de comprimento. A bainha e o punho dela eram de um couro marrom avermelhado muito bem trabalhado. A guarda, a base e alguns detalhes na bainha eram feitos de ouro, ou de algum metal muito semelhante. Ele retirou a espada da bainha, sua lâmina era feita de aço, jamais havia utilizado uma espada daquele material, que era mais resistente e permitia gumes mais afiados. Na extensão horizontal da lâmina havia gravadas, em runas dracônicas, as palavras ‘Beowulf “Sangue de Dragão” Drakengard’. A beleza das runas e o significado da última palavra: “Defensor de Dragões”, fez com que Beowulf se emocionasse ao relembrar do pai, amigo e exemplo que perdera na noite anterior.

Minutos depois ele estava na caverna principal. A armadura vestida, o escudo e a espada presos a uma fivela nas costas. Seus antigos equipamentos – também presentes de Drogoth repousavam agora com ele no chão da caverna. Criou uma chama em sua mão, respirou profundamente e murmurou “Adeus pai, eu não o decepcionarei”. Jogou-a sobre a lenha e palha que entraram em ignição instantaneamente. Ele sentiu que não agüentaria ficar ali, vendo o seu pai queimar. Saiu da caverna e olhou uma última vez para as escamas prateadas de Drogoth, que pareciam derreter em meio às chamas. Decidido, desceu até o riacho para beber um pouco de água. Nas margens do riacho, retirou a armadura e colocou-a de lado, juntamente com seu escudo e espada. Ao entrar na água, lembrou-se do que havia acontecido antes de desmaiar na última noite. Pôs a mão sobre a tatuagem e não sentiu nada de estranho. Ao olhar o seu reflexo, notou que ela havia avançado um pouco, mas nada de muito diferente havia acontecido. Perguntava-se o que havia acontecido. Tudo o que conseguia lembrar era que estava abraçando Drogoth quando uma dor insuportável se apoderou dele, irradiando-se da tatuagem. Pensou por algum tempo e concluiu que o que havia acontecido devia-se ao fato de que como Drogoth morrera, uma parte dele havia morrido também. E a tatuagem e a cicatriz simbolizavam isso – a união entre humano e dragão, o lugar onde o sangue de um dragão fora derramado para salvar a vida de um humano. O sangue de seu pai – Drogoth. A sua vida.

Sua vida acabara de tomar um rumo que ele não esperava, seu caminho e destino eram incertos para ele. Beowulf apenas sabia o que seu pai e mestre lhe garantira: o confronto com Nonaloth era inevitável. Procuraria as respostas onde quer que elas estivessem. De acordo com Drogoth, havia mais dragões nas terras ao Sul e onde houvesse dragões haveria as respostas para as suas perguntas. Ele teria que atravessar o mar para chegar até lá e não tinha nenhum treinamento como marinheiro, nem dinheiro para pagar a viagem até lá. Decidiu que a melhor maneira era arrumar dinheiro trabalhando para pagar a sua viagem. Rumou para a cidade de Valkir, onde ele poderia arrumar trabalho, assim como talvez reencontrar Gwyneth. A jornada em direção ao oeste durou menos de quatro dias, o clima começava a tornar-se mais rigoroso, o vento gélido fustigava seu rosto, pequenos flocos de neve já começavam a cair da imensidão azul cinzenta sobre sua cabeça. Assim que chegou à cidade viu Gwyneth mais adiante, perto da praça central. Ao seu lado havia um homem vestido com roupas nobre e de aspecto importante. No colo dela, havia um bebê. Pensou que ela poderia estar cuidando da criança para algum nobre da cidade, mas quando ele a beijou, sua esperança dissolveu-se tão logo surgira. Não poderia ficar ali, traria complicações tanto para ele quanto para ela. Se alguém descobrisse que se conheciam, perguntas constrangedoras seriam feitas e um risco para a aparente situação social dela poderia surgir. Deu as costas para a cidade e partiu em direção ao sul – procuraria trabalho numa cidade costeira, onde com sorte poderia aprender um pouco sobre navegação também.

Chegou à cidade costeira de Laratok, poucos dias após. Carregava algumas peles de animais que havia caçado, usaria algumas para proteger-se do frio que chegava. Venderia as outras para conseguir algum dinheiro, poderia assim manter-se em alguma estalagem por alguns dias até conseguir algum emprego. Conseguiu dinheiro suficiente para manter-se por alguns dias numa estalagem de qualidade média. A cidade era habitada quase que totalmente por humanos embora houvesse alguns anões e uns poucos elfos. Logo conseguiu emprego como ajudante do ferreiro local. Aprendeu rapidamente o básico sobre como forjar armas e outros objetos de metal. Seu mestre anão – Hogwaf – ensinou-lhe muito mais do que o simples ofício de ferreiro, também o ensinou como andar a cavalo. Ele possuía uma pequena fazenda, onde Beowulf também ajudava durante a época do plantio e da colheita, aquilo nunca o interessou, então não adquiriu um real conhecimento sobre a agricultura. Foi lá que Hogwaf ensinou-o a montar, o guerreiro adorou a sensação de andar rapidamente pelas planícies, sentindo o vento e a o cheiro da grama fresca. Logo a habilidade dele sobre um cavalo surpreendeu até mesmo o próprio Hogwaf, o anão jamais imaginara que alguém que nunca havia montado antes poderia dominar o animal tão rapidamente. Ele até conseguia lutar normalmente sobre o cavalo, utilizando a força e a velocidade do cavalo para impulsionar seus golpes. Conseguia também conduzir o cavalo utilizando apenas os joelhos, deixando seus braços livres para utilizar tanto sua espada quanto o escudo.

Hogwaf também lhe ensinara a importância de uma arma reserva. “Sempre carregue uma arma pequena escondida,” ele dizia com sua voz grossa. “Você nunca sabe quando pode precisar dela. Às vezes a surpresa é mais efetiva do que um braço forte.” Ele lhe mostrou como uma adaga pode ser útil em determinadas situações, além de ser uma ótima ferramenta de caça. Ele treinou brevemente com algumas adagas que fabricavam na ferraria, antes de vendê-las. Ficou dois anos na cidade, antes de decidir partir para o sul. Como presente de despedida Hogwaf presenteou Beowulf com uma adaga um tanto diferente, chamava-a de drachenzahn, ou dente de dragão, devido à sua largura fora do comum. Dera a ele também uma pedra de amolar de excelente qualidade, para que ele mantivesse sua espada e drachenzahn em excelente estado. Beowulf agradeceu ao seu mestre pelos presentes e por tudo que ele havia aprendido.

Foi até as docas para pegar um navio que partiria para o sul. Pagou pelo primeiro disponível, embora o barco partiria apenas dali a uma semana. Perguntou se não poderia ajudar nos trabalhos do cais, assim ele poderia aprender alguma coisa sobre barcos e conseguiria dinheiro para manter-se aqueles dias na cidade. O mestre das docas aceitou sua oferta e permitiu que ele ajudasse nos reparos de um navio, poderia assim aprender algo sobre navegação com o capitão. Uma semana depois ingressara no barco que o levaria para o sul. Não se sentiu desconfortável a bordo do barco, como muitos dos outros passageiros. Ele admirava as pequenas ondas chocando-se contra o casco do barco. Produzindo um ruído calmo que lhe lembrava o crepitar das chamas na caverna de Drogoth. Fazia um bom tempo que não utilizava seu domínio sobre o fogo – temia que alguém descobrisse e que de alguma maneira Nonaloth ficasse sabendo. A viagem demorou menos de dez horas, afinal a distância não era tão grande e o vento contribuiu, soprando na direção correta a viagem inteira.

Desembarcou no final da tarde, o sol já estava se pondo, dando à água um tom alaranjado. Esticou suas pernas, pôs sua mochila – que havia comprado em Laratok – nas costas e seguiu rumo ao Sul. Achou mais difícil caçar nessa região do que nas tundras onde estava acostumado. Com o tempo adquiriu experiência o suficiente para sobreviver facilmente nas planícies quentes onde estava. Freqüentemente passava pelas cidades, vendendo algumas peles e visitando as tavernas – o hidromel dessa região não era tão bom quanto o do norte e era mais difícil encontrá-lo por aqui. A quantidade de povos diferentes que viviam ali surpreendeu o guerreiro. Anões, humanos e elfos conviviam até harmoniosamente junto com algumas raças das quais Beowulf apenas ouvira Drogoth comentar, como halflings e gnomos.

Numa das cidades na qual parou ouviu alguma coisa sobre um problema envolvendo dragões em Othalos. Como estava numa taverna foi complicado escutar corretamente o que o homem estava falando e poucos pareceram se interessar no que ele falava. Beowulf havia prestado muita atenção, mas uma briga acabou eclodindo na taverna. Ele se locomoveu até onde o homem estava, protegendo-o e levando-o para fora da taverna em segurança. O homem agradeceu e explicou mais claramente qual era o problema. Ele não sabia de muita coisa também, só tinha ouvido boatos sobre dragões estarem causando problemas em Othalos. Qual era o problema e que tipo de dragão era não sabia responder. Beowulf agradeceu pela informação e entrou na taverna, terminando sua bebida e observando a briga que ali acontecia, acabava nocauteando alguém que tentava acertá-lo. Logo depois subiu para o quarto que havia alugado na taverna, onde se deitou na cama e logo adormeceu.

Quando acordou vestiu-se rapidamente, pegou todo o seu equipamento, e desceu para tomar o café da manhã que estava incluso no preço da estadia pela noite. Enquanto bebia o leite e comia o pão com queijo, refletiu sobre o que dragões poderiam querer numa cidade. Eles geralmente atacavam comunidades isoladas que não tinham muita chance de defesa. Porque eles – ou ele – atacariam uma cidade mais povoada não fazia sentido para Beowulf. Dependo da quantidade de soldados treinados, a vida deles estaria em risco. O motivo também lhe era desconhecido, roubar o rebanho era pouco provável, se fosse por esse motivo eles teriam atacado uma ou mais vilas. Ficando ali parado não descobriria nada. Terminou seu café da manhã, agradeceu ao taverneiro pela estadia e comida e partiu.

O vento que soprava fazia seus cabelos e barba dançarem, dando a impressão de que ele estava em chamas. Caminhou durante o dia inteiro, parando brevemente apenas para almoçar dois coelhos que caçara. A sua drachenzahn era realmente excelente para caçar e limpar pequenos animais – o gume era afiado e permitia golpes rápidos e precisos. Hogwaf era mesmo um exímio ferreiro, a lâmina era extremamente resistente. Lavou-se num riacho próximo, sua tatuagem havia crescido entre um e dois centímetros, crescimento imperceptível aos olhos de um observador casual. Beowulf agradeceu o fato de os anões não serem observadores dedicados quando o objeto a ser observado não é feito de pedra ou metal, do contrário Hogwaf teria feito perguntas que ele não gostaria de responder. Ele havia ficado ainda mais forte e resistente devido aos golpes de martelo durante os dois anos como ajudante de ferreiro. Seguiu seu caminho durante o restante do dia, observando o sol seguir lentamente o seu curso até sumir atrás das montanhas a oeste. Montou acampamento a cerca de trezentos metros da estrada. Acendeu a fogueira com uma chama conjurada de seu dedo e usou sua capacidade de entender o fogo para descobrir quanto tempo ainda faltava para os coelhos ficarem prontos. Sentia falta do hidromel, mas não tinha dinheiro suficiente para poder sempre carregar um pouca da bebida consigo.

Após comer os coelhos, tirou sua armadura e colocou sua armas ao seu lado. Deitou-se sobre a relva, observando o céu sem lua que se estendia infinitamente acima dele. Uma leve brisa mantinha o clima agradável. Ele já havia completado vinte e cinco anos de idade, e ainda não sabia que rumo sua vida tomaria. Quando criança sempre se imaginou vivendo em Lobo do Norte, com uma esposa e filhos. Após a invasão de mais de vinte anos atrás, sempre sentiu como se a sua vida não tomasse um rumo fixo. Drogoth, Gwyneth, Hogwaf – todos pessoas com as quais desejava ter passado mais tempo, mas de alguma forma ele fora condenado à separar-se deles, o sangue de dragão lhe era uma dádiva e uma maldição. Temia que esse sangue de dragão acabasse contendo uma das sinas da espécie – a solidão. Havia poucos dragões que moravam ou mesmo viviam juntos e nunca ouvira falar de uma sociedade composta exclusivamente por dragões, nem Drogoth lhe mencionara algo sobre o assunto. Admirou o céu claro e limpo, pontilhado por estrelas, desta vez não havia luzes dançando sobre ele, mas ele sentia que algo de estranho acontecia. Adormeceu perguntando-se onde estaria o seu destino. O que não sabia é que seus pés estavam guiando-o para um destino muito maior do que ele imaginava…

Classe – Guerreiro do Dragão

Em remotas ocasiões um dragão bondoso pode ceder seu sangue para salvar a vida de um inocente ou um maldoso pode fazê-lo para ter um fiel servo e escravo. Esses seres não se tornam meio-dragões, mas adquirem poderes e habilidades completamente diferentes. Sua aparência se torna mais imponente ou assustadora, mas não adquirem o caráter dracônico dos meio-dragões ― ainda mantém os traços de sua raça base. Os indivíduos abençoados com o sangue dracônico após o nascimento possuem habilidades desconhecidas por eles mesmos e por seus dragões-pais.

Aqueles que possuem sangue dracô­nico desenvol­vem suas ha­bilidades em dois ramos distintos. Al­guns, incen­tivados pelo sangue que corre em suas veias, buscam o conhecimento supremo da ma­gia ― algo bas­tante co­mum devido à afini­dade dos dra­gões com ela. Ou­tros buscam em suas ha­bilidades físi­cas o apogeu de seus poderes. Estes indivíduos são conhecidos como Guerreiros do Dragão.

Os Guerreiros do Dragão escaparam da morte devido ao sangue de dragão derramado sobre um ferimento fatal. Esse ferimento deixou uma cicatriz que jamais poderá ser abandonada ― a “Marca do Dragão”, como é co­nhecida por alguns. Dessa cicatriz uma figura de um dragão começa a surgir conforme seus poderes se de­senvolvem. Essa tatuagem é uma medida do poder do Guerreiro do Dragão, ou da influência do sangue dracô­nico sobre ele, pois conforme os poderes dele vão se desenvolvendo, a tatuagem também o faz. Ela tem inici­almente o formato de um dragão bebê da mesma varie­dade do dragão-pai, e vai se desenvol­vendo lentamente conforme os anos vão se passando. Com o tempo, ela cobre grande parte do corpo do Guerreiro, sempre avançando a partir da cicatriz.

Embora dependa de suas habilidades físicas, o Guer­reiro do Dragão possui pequenas habilidades mágicas ― uma herança de seu sangue dracônico. Ele possui um con­trole limitado sobre o elemento principal de seu dragão-pai, assim como uma pequena resistência a ele que vai aumentando com o tempo.

Fisicamente eles se parecem com um integrante nor­mal de sua raça, embora algumas de suas característi­cas se­jam um tanto incomuns (olhos da cor do dragão-pai, al­tura fora da mé­dia, dentes um pouco pontiagu­dos, etc.), elas sozinhas não indicam a as­cendência dra­cônica. Com o tempo, suas habilidades físicas vão se desenvolvendo e sua pele não chega a se tornar escamas, mas se torna mais grossa e resistente, assim como seus mús­culos.

A grande parte dos Guerreiros do Dragão tem dragões bons como pais. Esses são conhecidos por sua bravura e coragem em batalha. Eles lutam para defender o que acreditam, para defender aqueles que não podem se­gu­rar uma arma, ou simplesmente para tornar o mundo um lugar melhor. Mantém sua herança dracô­nica no mais absoluto segredo, compartilhando-a ape­nas para pessoas nas quais confiam totalmente. Conhecem o problema de ficar muito tempo em um mesmo local devido à proba­bilidade das pessoas notarem que sua tatuagem ― já incomum, aumenta de tamanho sozi­nha. A maioria fica com o dragão-pai boa parte da vida e quando o deixa encontra dificuldades em permane­cer num local e cons­tituir família.

Informações de Jogo

NívelBônus Base
de Ataque
FortitudeReflexosVontadeEspecial
1+1+2+2+2Talento Adicional, Afinidade Mágica, Resistência à Energia 5, Aumento de Atributo ― Força +2
2+2+3+3+3Aumento de Atributo ― Con +2, Mestre dos Cavalos, Pele do Dragão +1
3+3+3+3+3Físico Poderoso
4+4+4+4+4Metabolismo Acelerado, Pele do Dragão +2
5+5+4+4+5Talento Adicional
6+6/+1+5+5+5Pele do Dragão +3
7+7/+2+5+5+5Resistência a Magia, Aumento de Atributo ― Força +2, Re-sistência à Energia 15
8+8/+3+6+6+6Aumento de Atributo ― Con +2, Pele do Dragão +4
9+9/+4+6+6+6
10+10/+5+7+7+7Talento Adicional, Pele do Dragão +5
11+11/+6/+1+7+7+7
12+12/+7/+2+8+8+8Pele do Dragão +6, Vida de Dragão
13+13/+8/+3+8+8+8Aumento de Atributo ― Força +2
14+14/+9/+4+9+9+9Resistência à Energia 25, Aumento de Atributo ― Con +2, Pele do Dragão +7
15+15/+10/+5+9+9+9Talento Adicional
16+16/+11/+6/+1+10+10+10Pele do Dragão +8
17+17/+12/+7/+2+10+10+10
18+18/+13/+8/+3+11+11+11Pele do Dragão +9
19+19/+14/+9/+4+11+11+11Aumento de Atributo ― Força +2
20+20/+15/+10/+5+12+12+12Talento Adicional, Aumento de Atributo ― Con +2, Pele do Dragão +10

Habilidades: A Força é essencial para um guerreiro do dragão, ela define suas capacidades no combate corpo-a-corpo, sua principal arma. A Constituição garante mais pontos de vida, sempre úteis para um combatente que toma a frente nas batalhas, uma Destreza permite a utilização de armaduras mais leves, garantindo uma maior mobilidade. Uma inteligência alta garante mais perícias, aumentando a sua versatilidade.

Tendência: IGUAL à do dragão-pai.

Dado de Vida: d12

Especial: Classe de História. Proibida a Multiclasse.

Perícias de Classe

As perícias de classe (e a habilidade chave delas) de um Guerreiro do dragão são: Cavalgar (Des), Conhecimento (arcano) (Int), Cura (Sab), Escalar (For), Intimidar (Car), Natação (For), Observar (Sab), Ofícios (Int), Ouvir (Sab), Saltar (For) e Sobrevivência (Sab).

Pontos de perícia no 1° nível: (4 + modificador de Inteligência) x 4

Pontos de perícia a cada nível subseqüente: 4 + modificador de Inteligência

Características de Classe

Usar Armas e Armaduras: Um guerreiro do dragão é proficiente com todas as armas simples e comuns e uma arma exótica à sua escolha. Também sabe utilizar todas as armaduras e escudos (exceto escudos de corpo).

Talentos Adicionais: No 1° nível e após isso no 5° nível e a cada 5 níveis subseqüentes (10, 15, etc.) o guerreiro do dragão recebe um talento adicional. Estes talentos podem ser selecionados da lista de talentos adicionais do Guerreiro, inclusive dos talentos exclusivos para eles, como Especialização em Arma, contanto que o personagem possua níveis de guerreiro do dragão em número igual ou superior aos níveis de Guerreiro requeridos para tal talento. Por exemplo, um guerreiro do dragão de 9° nível tem acesso aos talentos Especialização em Arma (requer 4° nível de Guerreiro) e Foco em Arma Maior (requer 8 ° nível de Guerreiro). Os talentos recebidos a cada três níveis também podem ser escolhidos dos exclusivos para guerreiros, contanto que o personagem atenda aos mesmos requisitos acima.

Afinidade Mágica (Sob): Um guerreiro do dragão tem uma afinidade inata com a magia, herança de seu sangue dracônico. Embora ele não possa conjurar magias diretamente, ele possui pequenos poderes que podem ser utilizados sem limite diário. Essa habilidade tem relação direta com a variedade do dragão-pai, por exemplo, um guerreiro do dragão que tenha um dragão de prata como pai terá pequenos poderes relacionados ao fogo, enquanto que um de um dragão azul terá poderes relacionados à eletricidade. Esses poderes não incluem efeitos de dano direto (caso crie chamas, por exemplo, elas não podem ser criadas nos espaços ocupados por uma criatura), embora possam ser utilizados com a finalidade de encantar armas, por exemplo. Inicialmente eles podem realizar pequenos efeitos em relação a este elemento, mas conforme o guerreiro do dragão vai adquirindo experiência, o domínio sobre estes elementos se aprimora. Quando aplicável, esses efeitos duram um número de minutos igual ao nível do guerreiro do dragão. Como exemplo, vamos supor que o elemento do dragão-pai seja fogo:

  • Controlar Chamas: Cria, modela ou apaga chamas num volume equivalente a 0,2 m³ por nível. Pode alterar a cor das chamas e também aumentar seu calor e brilho, numa razão de 10% por nível.
  • Arma Flamejante: Cobre uma arma branca com pequenas chamas, causando dano adicional por fogo. Causa inicialmente 1 ponto de dano por fogo. A cada 5 níveis esse efeito se aprimora, aumentando o tamanho das chamas. O dano causado aumenta na seguinte evolução: 1, 1d4, 1d6, 1d8, 2d6, 2d8, 3d6, 3d8, etc.
  • Rastrear Calor: Concentrando-se por uma rodada, um guerreiro do dragão pode sentir o calor de todos os corpos num raio de 3 m para cada nível que possua.
  • Origem das Cinzas: Ao tocar em cinzas, um guerreiro do dragão pode determinar quando houve fogo naquele local até um número máximo de semanas igual a um terço de seu nível (arredondado para cima). A partir do 8° nível ele pode saber qual objeto tais cinzas eram originalmente.
  • Derreter Metais: Ao atingir o 7° nível, o guerreiro o dragão pode derreter metais com ponto de fusão baixo (como ferro) apenas com alguns gestos, desde que determinado metal esteja livre (ou seja, não esteja em posse de nenhuma criatura). Em níveis posteriores pode derreter metais com ponto de fusão maior.
  • Cauterizar Ferimentos: Um guerreiro do dragão pode cauterizar pequenos ferimentos, impedindo o sangramento. Note que isso não cura nenhum ponto de dano, apenas impede que os ferimentos sangrem.

Aumento de Atributo (Ext): O corpo de um guerreiro do dragão reflete as mudanças que o sangue dracônico causa nele, aumentando sua força, resistência, porte físico e agilidade corporal. No 1° nível e cada 6 níveis depois dele, ele recebe um bônus de +2 para Força.

Resistência à Energia (Ext): O sangue do dragão-pai que corre nas veias de um Cavaleiro do Dragão garante a ele resistência contra o elemento principal do dragão. Ele adquire resistência 5 contra este elemento no 1° nível e ela aumenta em 10 pontos no 7° nível e a cada 7 níveis após isso.

Mestre dos Cavalos: Os Guerreiros do Dragão possuem uma afinidade natural com o combate montado, sentem que só estão completos quando estão sob um cavalo cavalgando contra o vento, sentindo-o bater em seus rostos. Eles facilmente desenvolvem um domínio excepcional sobre o combate montado com apenas um pouco de prática ― grande parte deles treinou com cavalos durante a estadia com seu dragão-pai. Quando atingem o 2° nível eles adquirem os talentos Combate Montado, Investida Montada e Investida Implacável. A sua montaria também desenvolve uma espécie de ligação especial com o guerreiro, tendo ela também um pouco dos poderes arcanos do guerreiro. Ela adquire novas habilidades de acordo com a seguinte tabela:

NívelDV BônusAj. Arm. NaturalAj. ForIntEspecial
1°–3°+2+4+26Ligação empática, evasão aprimorada, partilhar magias, partilhas testes de resistência
4°–8°+4+6+47Velocidade aprimorada
9°–12°+6+8+68Comandar criaturas da mesma espécie
13°–16°+8+10+89Resistência à magia
17°–20°+10+12+1010

Pele do Dragão (Ext): A pele e os músculos de um guerreiro do dragão vão se tornando maiores e mais resistentes conforme a influência do sangue dracônico age sobre o seu corpo. Ele recebe +1 de bônus para a sua Armadura Natural e Redução de Dano 1/― no 2° nível. A cada 2 níveis depois do 2°, ambas aumentam em 1, ou seja, no 12° nível ele possui um bônus total de +6 para sua armadura natural e Redução de Dano 6/―.

Físico Poderoso (Ext): A partir do 3º nível um Guerreiro do Dragão é considerado como uma criatura de uma categoria de tamanho superior para efeitos de manobras de combate –  como Agarrar e Encontrão – devido ao seu físico avantajado proporcionado pela herança dracônica.

Metabolismo Acelerado (Ext): O sangue de dragão começa a influenciar no metabolismo do guerreiro do dragão. A partir do 4° nível seu corpo é capaz de regenerar ferimentos muito mais rapidamente que o normal. Ele regenera por dia uma quantidade de pontos de vida igual ao seu nível mais o dobro do modificador de Constituição. Ele regenera esses pontos mesmo caso não descanse à noite, e caso descanse ele regenera o dobro do dano temporário em atributos.

Resistência à Magia (Ext): Devido à resistência inata dos dragões à magia, os Guerreiros do dragão adquirem com o tempo uma parte dessa resistência. No 7° nível um guerreiro do dragão adquire Resistência à Magia igual ao seu nível +13.

Vida de Dragão (Ext): Ao atingir o 12° nível, toda a ancestralidade dracônica começa a agir sobre o guerreiro do dragão. Quando um deles descobre seus poderes até este patamar, sua expectativa de vida se altera drasticamente e seu corpo pode alterar-se também. A partir de agora ele envelhece apenas até algo em torno dos 25 a 35 anos para um humano, caso seja mais velho, seu corpo rejuvenesce até ele aparentar esta idade. Ele não recebe mais nenhuma penalidade devido à idade, embora continue a acumular os bônus normalmente. Sua expectativa de vida é cerca de cinco vezes maior do que um membro normal de sua raça (multiplique após o cálculo da idade máxima).

Guerreiro do Dragão Épico

O guerreiro do dragão épico dominou quase que totalmente o sangue dracônico que corre em suas veias. Descobriu que esse sangue é uma fonte infinita de poder, algo que sempre o incentiva a melhorar cada vez mais. Suas habilidades continuam a se desenvolver enquanto sua tatuagem vai crescendo cada vez mais.

Aumento de Atributo: Um guerreiro do dragão continua a receber bônus para s seus atributos após o 20° nível. No 23° e a cada 6 níveis depois deste, ele recebe +2 de bônus para a Destreza; no 25° nível e a cada 6 níveis após ele recebe +2 de Força e  no 26° e a cada 6 níveis depois dele, ele recebe +2 de Constituição.

Resistência à Energia: A resistência à energia de um guerreiro do dragão aumenta a cada 7 níveis após o 14° (35 no 21°, 45 no 28°, etc.).

Pele do Dragão: O bônus para Armadura Natural e a Redução de Dano continuam a aumentar após o 20° nível. Ele adquire +1 para sua armadura natural e um ponto de redução de dano extra no 22° nível e a cada 2 níveis após. (+11 para a Armadura Natural e Redução de Dano 11/― no 22° nível, +12 para a Armadura Natural e Redução de Dano 12/― no 24° nível, etc.).

Resistência à Magia: A resistência à magia de um guerreiro do dragão épico equivale ao seu nível + 13.

Talentos Adicionais: Um Guerreiro de Dragão épico recebe um talento extra a cada 3 níveis após o 20°.

Lista de Talentos Adicionais do Guerreiro do Dragão Épico: Armadura de Pele, Ataque Giratório Aprimorado, Bloquear Conjuração, Cavaleiro Lendário, Comandante Lendário, Combater com Duas Armas Perfeito, Constituição Maior, Deslocamento Épico, Destreza Épica, Dilacerar com Duas Armas, Especialização em Arma Épica, Foco em Arma Épico, Força Maior, Iniciativa Superior, Investida Atroz, Liderança Épica, Lutador Lendário, Penetrar Redução de Dano, Poderio Épico, Redução de Dano, Sucesso Decisivo Avassalador, Sucesso Decisivo Devastador, Tolerância Épica, Vitalidade Épica.