“Donar! Zoon der aarde / Donar! Botvier uw haat / Donar! Hef uw hamer / Donar! God die de reuzen verslaat”
Heidevolk - Dondergod
História do Mundo

O céu estava claro naquela manhã. As Montanhas da Chama erguiam-se no horizonte, como garras querendo alcançar o Sol, que brilhava intensamente ― seus raios espalhavam-se por toda a paisagem deixando as cores mais vivas. O vulcão Kot’nathûk permanecia do mesmo jeito desde o início desta era: inativo, ele apenas adicionava suas enormes proporções àquela cadeia de montanhas. Era 23 de Chamas da Vida do ano de 2.963 da 3ª Era. Faltava menos de um mês para o Equinócio de Outono, mas o clima não parecia se importar ― continuava quente e abafado, tornando até mesmo a respiração difícil. A pouca vegetação existente nas montanhas estava seca e murcha, clamava pela tão aguardada chuva.

O Sol estava no extremo oeste do horizonte quando aquele céu límpido e alaranjado mudou drasticamente. Nuvens negras formaram-se por toda a extensão dele, fazendo com que os poucos raios de Sol passassem por elas de uma maneira tímida e fraca. As horas passavam e a escuridão passou a ser total ― a luz da Lua era incapaz de sobrepujar aquele negrume infinito. Famílias recolheram-se para os seus lares, as mães abraçavam seus filhos fortemente, pais tentavam mostrar coragem perante sua família, dando a eles um pouco de esperança. Começara a ventar, um sussurro assustador se estendia por toda Val’huhn. À medida que o sussurro se fortalecia, as árvores começaram a sentir a sua força ― copas tremiam violentamente, caules entortavam-se e folhas e flores dançavam no ar, impulsionadas pela lúgubre melodia do vento.

Linhas de luz cortavam o céu, adicionando sons graves à melodia cataclísmica. Formas assustadoras projetavam-se na penumbra dos lares. Velas e lampiões pareciam não poder combater a escuridão dominante, os usuários de magia ainda conseguiam combater o véu negro que tentava cobri-los. Com uma batida mais grave do tambor de luz, a chuva veio. Pesada. Forte. Rios de água corriam verticalmente. A tão esperada chuva que nutriria plantações e encheria os rios, esperada como um favor dos deuses; veio como uma maldição. Crianças choravam ao ver a água adentrar seus lares e serem arrastadas pela força dela para longe de seus pais. Logo seus gritos se tornavam nada mais do que pequenas bolhas na água e seus corpos eram arrastados para longe enquanto seus espíritos eram carregados pelo rio das almas em direção aos Planos Exteriores, para se reencontrarem com suas mães e pais que na tentativa de salvar sua própria carne também sucumbiam à força da natureza.

O negrume tornou-se um vermelho-sangue intenso e brilhante. O medo tornou-se desespero. Um círculo abriu-se nas nuvens sobre Kot’nathûk, espiralando as nuvens em direção à sua borda externa. Uma bola de chamas desceu por ele e adentrou em suas profundezas, deixando um rastro flamejante. Silêncio. Todo o som do mundo parecia ter se abafado naqueles segundos que se seguiram ao choque. Um tremor violento espalhou-se pela terra e com um último acorde naquela sinfonia de destruição, Kot’nathûk entrou em erupção. Chamas ascendiam de sua superfície em direção aos céus, recobrindo-o com um manto de sombras. Pedras de chamas eram expelidas e arremessadas a distâncias épicas.

Ninguém que pôs os olhos naquela cena respirou. Parecia que o ar havia acabado, que o mundo estava prestes a findar. A escuridão avançava, parecia que descia dos céus como se estivesse viva. Os sobreviventes abraçavam seus entes queridos, na esperança de que suas almas permanecessem unidas. A sinfonia da morte continuava ― ventos cantavam sua canção da morte. Trovões davam o toque de honra enquanto que um coral de água anunciava o clímax do espetáculo.

E da mesma maneira como começou, tudo findou. A chuva parou, o vento tornou-se uma leve brisa que carregava o cheiro do orvalho, Kot’nathûk acalmou-se, sua língua de chamas recolhendo-se em sua boca. Os trovões sumiram à medida que as nuvens iam desaparecendo. Por detrás dessa coluna de escuridão revelou-se um céu cerúleo, quase argênteo. Do leste a forma do Sol surgiu, seus raios iluminando a destruição que ocorrera durante sua ausência. À vida fora garantido o direito de perpetuar.

Um Conselho de Reis foi reunido para discutir as conseqüências do ocorrido e como procederiam. Especialistas foram enviados ao vulcão para descobrir o que se passara. Todos voltavam frustrados e estupefatos ao concluir que Kot’nathûk não havia mudado em nada ― estava tão inativo como sempre estivera. Nenhum documento conhecido pelas raças mortais e imortais contém informações sobre as conclusões e descobertas dos reis. Apenas sabe-se que entraram em consenso e nomearam o dia de 23 de Chamas da Vida como “O Dia da Chama Negra” e que esse seria o fim da 3ª Era.

As sementes do Mal Primal foram semeadas. O destino de todo o multiverso está em jogo.


O Rei Sorwën estava preocupado. Pela primeira vez na quarta era seu reino estava ameaçado. Levantou-se de seu trono e dirigiu-se para um portal poucos metros à frente. Ao passar pela armação de pedra lapidada pelos anões relembrou de como as alianças que seus antecessores e ele fizeram teriam o seu valor. Caminhou brevemente pela sacada que se estendeu aos seus pés e logo rumou à amurada dela, também lapidada por estes mesmo anões. Ao olhar para baixo e ver seu reino se estendendo perante seus olhos, entendeu pelo que lutaria.

O reino de Mëvamen era tido como o mais próspero de toda a Val’huhn na quarta era. Nesses 4.382 anos o reino havia se desenvolvido muito, tudo graças às alianças feitas ao longo dos anos. Sorwën apreciou a beleza de sua cidade. As arquiteturas élfica, anã, humana e halfling somaram-se para construir algo de incomensurável beleza. A floresta foi preservada ao máximo, a cada árvore cortada outras duas eram replantadas na orla da floresta. As casas humanas eram construídas de um misto entre pedra e madeira, dando à cidade uma aparência um tanto bucólica. As construções élficas conviviam em perfeita harmonia com a natureza que as cercava, misturando-se a ela de uma maneira soberba.

Mais no centro da floresta podia-se ver pequenas colinas erguendo-se acima das copas das árvores. Àquela hora do dia elas refletiam a luz do Sol que vinha do leste, iluminando a sacada onde Sorwën estava. Era possível ver por toda a extensão das colinas pequenas portas com ricos jardins aos seus lados. Os lares dos halflings eram um tanto rústicos, porém bem ao gosto da raça: simples, confortáveis e funcionais. Além dessas pequenas portas havia aberturas imensas na montanha principal, todas cuidadosamente lapidadas. Elas seguiam em direção ao coração da montanha onde ficavam os lares dos anões que preferiam viver no fundo da terra.

Sorwën acariciou sua barba e respirou profundamente. Tomara sua decisão: se custaria a vida de alguns homens para proteger sua amada cidade, que assim fosse. Mas ele não ficaria ali, lutaria junto com seus soldados e morreria caso esse fosse seu destino. Caminhou em direção ao seu trono e lá chegando chamou um criado para convocar uma reunião com seus generais o mais breve possível.

A sala de pedra com uma rústica mesa circular de madeira estava fria, mas ainda mais estavam os rostos dos homens que estavam à frente de Sorwën. Todos eles olhavam para o Rei com expressões de angústia e pesar em seus rostos, temiam a destruição que uma guerra causaria em sua cidade, mas temiam ainda mais o terror que as tropas inimigas causariam caso não fossem paradas a tempo. O que mais assustava os cinco presentes naquela sala (o Rei e um general para cada raça predominante na cidade) era o fato de que como combateriam um inimigo sobre o qual nada se sabe. As informações que havia chegado eram incompletas, mas o perigo iminente não podia ser negado: rumores sobre cidades em chamas e o mundo em ruínas haviam chegado de múltiplas fontes, tornando a certeza inquestionável. Logo os cinco homens chegaram a um acordo: todos lutariam até o fim para proteger o que mais amavam ― sua terra e suas famílias.

O Rei acordou assustado. Estavam no quadragésimo nono dia de campanha sem encontrar sinal dos inimigos quando um soldado irrompeu em sua barraca, agora banhada pela luz da alvorada, chamando por seu nome. “Os batedores halflings afirmam ter visto sinal dos inimigos, meu senhor”, ele disse por debaixo do elmo, sua voz saindo abafada e preocupada. O Rei levantou-se rapidamente e pediu ajuda para vestir sua armadura ― uma bela armadura de batalha, ornamentada com o símbolo da cidade ― um leão rugindo sobre as costas de uma águia. Ao olhar para o símbolo o Rei lamentou pela lenda daquele símbolo ter se perdido durante os anos. Embainhou sua espada longa e se dirigiu com seus soldados para onde os generais estavam reunidos.

Medo foi o primeiro sentimento que recaiu no coração de Sorwën quando ele adentrou a barraca onde os generais estavam. Os olhos deles haviam perdido o brilho e a esperança de viver, estavam cabisbaixos em suas cadeiras. Ao reportarem o que os batedores viram e eles mesmos haviam confirmado com os próprios olhos logo depois, dois sentimentos chocaram-se profundamente no interior do nobre rei. O primeiro foi o desespero. Se o que diziam era verdade, teriam uma batalha árdua e até mesmo impossível pela frente. Um exército de dezenas de milhares estava à frente deles e, pior, era composto por criaturas que nenhum homem naquele exército havia posto os olhos sobre. Eram seres humanóides compostos de uma escuridão infinita ladeados por uma chama vermelha e preta, todos usando armaduras e armas negras. Um inimigo desconhecido e mortal.

O segundo era fraco no início, mas foi ganhando força à medida que Sorwën pensava no que estava em jogo. Relembrou-se da visão que teve da sacada de seu castelo, sessenta e oito dias atrás; lembrou-se das noites com seus homens ao redor da fogueira, conversando sobre o dia-a-dia deles e; é claro, lembrou-se de sua amada Rainha Awenfyl e de seu filho Mirthas ― que comprovava a união entre os povos humano e élfico. Sentiu a coragem crescer dentro de si e chamou todos os homens até onde estava. Subiu em uma rocha próxima, de onde ficou visível a todos os homens. Com palavras sobre honra, glória, sobre as famílias deles, sobre a terra a que tanto amavam, Sorwën instilou coragem naqueles homens. Com um urro de guerra todos os homens pegaram em armas e partiram para enfrentar o exército inimigo, o Rei à frente, montado em um garanhão branco.

Os dois exércitos se chocaram no final daquele dia, as estrelas brilhavam mais intensamente do que nunca. Os inimigos mostraram serem suscetíveis ao aço. A batalha caminhava para um fim lastimável: o sangue dos soldados de Mëvamen inundava o campo de batalha. Sorwën via seus homens caírem ao seu lado, sentia que perdia um filho a cada morte deles. Viu que um dos inimigos levantava sua arma negra contra um de seus soldados e partiu para impedir o golpe com sua espada, mas o golpe foi forte demais e ele não teve forças para conte-lo, sentiu a lâmina penetrar fundo no seu abdômen, dilacerando músculos e ossos. Sentiu o calor de seu sangue escorrendo pelas pernas, juntando-se ao de seus homens.

No desespero gritou por ajuda, implorou aos céus que lhe ajudassem. E a ajuda veio. Uma coluna de luz dourada desceu dos céus, uma luz tão intensa que cegou todos os homens naquele campo de batalha. Alguns afirmam ter visto formas humanóides destruírem todos os inimigos, mas o que realmente aconteceu ficou perdido nas brumas do tempo. Quando os homens se recuperaram viram que seus inimigos estavam aos seus pés, mortos. Estupefatos, ficaram em silêncio por um momento e logo em seguida urraram de felicidade pela vitória alcançada. O vento tratou de carregar a voz daqueles homens por vários quilômetros, e em pouco tempo todos saberiam da batalha e do seu desfecho.

Os quatro generais encontraram o corpo de seu rei no meio dos mortos. E logo a dor substituiu a alegria daquela noite, todos lamentavam a perda do rei que os havia guiado à vitória, mesmo ela tendo acontecido de maneira inesperada. Mensageiros foram mandados por toda a Val’huhn e logo chegou-se ao acordo de que, assim como no dia em chamas negras desceram dos céus uma era terminou; no dia em que uma luz dourada o fez, outra também terminaria. E assim o dia de 12 de Mão da Chuva ficou conhecido como “O Dia da Retribuição” e em 4.382 terminaria a quarta era. Todos esperavam ainda mais prosperidade e glória na era vindoura.

Tolos são aqueles que acham que a luz salva a todos ― afinal quanto mais próximo se fica dela, maior sua sombra se torna.


As estrelas brilhavam intensamente no céu naquela noite de 27 de Crepúsculo do Sol do ano de 2.436 da 5ª Era. O seu lusco-fusco acabou chamando a atenção de um jovem elfo que viajava de volta a sua terra natal. Fenmë estava deitado sobre a relva que crescia abundantemente sobre a pequena colina na qual resolvera passar a noite. O vento que soprava levemente, as impulsionava calmamente, pequenas partículas de pólen desprendiam-se, voando por todo o horizonte. Mas Fenmë não prestava atenção à cena ao seu redor, o céu claro e limpo o fez lembrar-se do motivo de sua viagem, que começara cerca de três meses atrás.

O verão chegava ao seu fim. O equinócio de outono estava próximo e com ele viria a festa que os elfos de sua cidade preparavam todos os anos. Até mesmo os anões se juntavam a eles nessa comemoração, cuja participação era muito bem-vinda, especialmente devido ao fato de que não eram servidas bebidas alcoólicas na festa (o que não impedia os anões de trazerem-na, entretanto). A festa era realizada com o intuito de manter as relações amigáveis entre as raças que habitavam primariamente aquela cidade.

O dia da festa se aproximava e os preparativos já haviam começado havia um bom tempo. As mesas já estavam dispostas sob o grande carvalho, que as banhava com sua imensa sombra, garantindo uma temperatura agradável ao local; o arquidruida da cidade garantiu que não choveria naquele dia, mesmo que ele tivesse de garanti-lo com sua magia. A natureza dava o seu toque final ao enfeitar o local com cipós, que se desprendiam graciosamente da copa do carvalho, imóveis devido à ausência do vento. O chão estava coberto com uma grande variedade de flores, algumas adicionadas manualmente ao local ― os elfos queriam mostrar o melhor de si, tudo isso devido à última festa dos anões, realizada no Solstício de Inverno. Os anões se gabavam daquela festa até hoje, eles haviam lapidado em segredo uma grande estátua de mármore com quase 15 metros de altura, ilustrando a união das raças. Estátua a qual estava agora no centro da cidade.

Embora essa “competição” pudesse causar um pouco de confusão, ela era geralmente aceita por todos os membros da comunidade como uma forma sadia de mostrar os valores e princípios da raça. Os elfos, orgulhosos e arrogantes, acabaram ficando um pouco constrangidos devido à magnitude daquela estátua. Mas os anões teriam uma surpresa aquele ano.

E eis que o dia da festa chegou. O céu amanheceu claro e limpo, sem nenhuma nuvem para atrapalhar os raios do Sol, barrados apenas pela copa imponente do grande carvalho. A música começara a tocar logo que o Sol raiou: bardos de todas as raças uniam-se numa sinfonia única para celebrar o fim do verão e o início do outono. Os participantes logo chegaram, unindo suas vozes aos bardos, cantando as mais conhecidas baladas. Dessa vez os anões não trouxeram cerveja ou hidromel, queriam estar totalmente sóbrios para aproveitar o que os elfos haviam preparado para concorrer com sua estátua. Misturaram-se aos demais integrantes, comendo as frutas e pães élficos e bebendo os sucos e néctares que os elfos haviam preparado.

Entre eles havia um jovem elfo de cabelos loiros e olhos verdes ― o exemplo perfeito da raça. Seu corpo era esguio e frágil, porém ele era bastante habilidoso com as mãos: tocava seu banjo com uma perícia incrível. Logo muitos pararam para apreciar sua versão da “Balada de Tínuvir”, que contava como a paixão entre um elfo e uma humana havia levado a ruína toda uma civilização, devido à incompreensão de ambas as famílias. Os casais humano-elfo dali, juntamente com seus filhos meio-elfos agradeciam por morar naquela cidade, onde todos podiam desposar quem bem desejassem, independente de raça e posição social.

O elfo agradeceu pela atenção de todos e foi ovacionado com uma salva de palmas. Ele desceu do palco improvisado onde estava e foi aproveitar a festa. O Sol já havia atingido seu zênite, seus raios passavam pelos pequenos buracos que havia na copa do carvalho, claramente visíveis ao iluminarem a poeira no ar. O elfo seguia um rumo certo, seus pés guiavam-no determinadamente em direção ao seu objetivo: Línwe, sua namorada. Logo viu-a a sua frente, seus cabelos negros contrastando com sua pele clara e os olhos verdes, ela o recebeu com um forte abraço e beijou-o calorosamente, ele, obviamente, retribuiu o gesto.

Afastaram-se da multidão, onde poderiam ter um pouco mais de privacidade. Saíram da proteção que o grande carvalho lhes dava, o Sol bateu em seus rostos: estava quente. Foram até a sombra de outra árvore, onde passaram um bom tempo conversando e namorando, o elfo sentia que sua vida estava completa: sua música era bem recebida por todos, amava sua namorada e ela o amava, vivia numa excelente cidade e o mundo estava em paz havia séculos.

Passara-se pouco mais de uma hora quando uma criança elfa surgiu correndo no horizonte, ele arfava levemente quando disse que o ancião élfico faria a apresentação do seu presente à comunidade. O elfo e sua namorada sorriram levemente, imaginavam o que as outras raças diriam do que haviam preparado. Eles agradeceram ao garoto e foram correndo juntamente com ele até o centro da festa, onde o ancião estava de pé sobre uma bancada de madeira, juntamente com os anciões de outras raças. Embora recebessem o título de anciões, o único que aparentava ser realmente velho era o representante dos anões: sua longa barba branca atingia seus joelhos, ela era separada em três pedaços, sendo que os laterais eram ornamentados com aros de ouro.

O ancião élfico chamou a atenção de todos batendo palmas levemente, o silêncio seguiu-as quase que imediatamente. Todos estavam curiosos para saber o que os elfos haviam preparado, especialmente devido ao sorriso presunçoso presente nos rostos de todos eles. O ancião notou que dispunha de atenção total e contraiu levemente seus lábios num sorriso contido, levou seus dedos à boca e assoviou. O assovio foi respondido da copa das árvores; todas as cabeças voltaram-se imediatamente naquela direção, onde cerca de cinqüenta elfos estavam parados sobre o galho mais grosso, que tinha em torno de 7 metros de diâmetro. Desapareceram de visão por um breve momento e retornaram logo depois, jogando para baixo algo que pareceu a todos, uma massa disforme de cipós.

Os cipós desceram desenrolando-se, e, a cerca de 40 metros do chão, pararam. Assim que terminaram de tremer devido à queda, todos puderam observar boquiabertos o que era ― os elfos pareciam estar saboreando cada segundo daquela cena. Uma tapeçaria colossal com cerca de 100 metros de altura por mais de 40 de largura feita com cipós entrelaçados entre si estendeu-se sobre todos. Nela estava representado o símbolo da cidade. Todos aplaudiram aquela magnífica obra de arte e quando o ancião élfico olhou para os outros anciões e falou em sua voz suave, porém firme “Vamos considerar isso um empate”, aplaudiram ainda mais. Os anciões sorriram e se abraçaram, mostrando como poderiam cooperar mesmo sem um Rei para governá-los.

Um humano de meia-idade aproximou-se do elfo e pediu para falar com ele a sós. Quando o questionou sobre o que se tratava, ele simplesmente sorriu. Línwe despediu-se de seu namorado com um beijo no rosto e foi juntar-se a multidão que cantava e dançava. O elfo deseja ir junto dela, mas permaneceu ali, para escutar o que o homem tinha a lhe dizer. Ele explicou-lhe que estava na cidade de passagem, vinha do leste, da corte do rei de Nagrash, onde ele estaria sediando um concurso entre bardos cujo prêmio era quinhentas peças de ouro. O elfo desconfiou, mas quando o homem mostrou-lhe um documento de aspecto oficial, inclusive com o sinete do rei, uma runa que correspondia à letra R e outra à letra V interligadas entre si, não teve mais dúvidas ― ele reconhecia aquele sinete. Ele agradeceu ao homem que lhe informou que no dia seguinte partiria de volta à Nagrash e, caso desejasse, ele poderia acompanhá-lo. O elfo ficou indeciso, com o prêmio poderia desposar Línwe, mas não sabia se agüentaria ficar muito tempo sem vê-la. Pediu para o homem esperar um momento e foi falar com sua amada.

Ao relatar o que o homem queria à sua namorada e o que pretendia fazer com o prêmio, ela simplesmente disse “Vá” e beijou-o. Ele interpretou como se ela o apoiasse totalmente e correu de volta ao homem, que estava sentado sobre um tronco, fumando um cachimbo. Ele relatou que iria e o homem assentiu com um sorriso. Combinaram se encontrar na manhã seguinte na estalagem onde o homem estava: a “Brisa Vespertina”. O elfo aproveitou o final da festa juntamente com sua namorada. Pela manhã seguinte partiram, e, embora a viagem tenha durado apenas três semanas até Nagrash, o concurso foi adiado em duas semanas devido ao fato de que o rei Vijhal estava em campanha para combater um bando de orcs que vinha assolando suas terras. O exército do rei retornara com poucas baixas e o concurso começou. Foi um mês inteiro de cantorias e música, viajantes vieram de todos os pontos da Val’huhn para celebrar. O elfo sentiu-se em casa no meio de tantos artistas.

Fenmë relembrou-se de tudo isso olhando para o saco de moedas ao seu lado, não tão cheio quanto esperava ― ficara em terceiro lugar e havia ganhado apenas cem peças de ouro, o que era mais do que o suficiente para iniciar uma boa vida. Ao olhar para o céu estrelado novamente, pensou ter visto o rosto da sua amada Línwe desenhado pelas estrelas, seu rosto claro à mostra naquela imensidão azul escura que cobria a tudo. Fechou os olhos e descansou durante todo o restante da noite.

Seguiu viagem por mais dois dias até chegar às bordas da floresta onde sua cidade ficava, ainda não conseguia ver o grande carvalho dali. Adentrou nela pela estrada principal, a luz do sol foi ficando cada vez mais escassa à medida que a floresta começava a se fechar. As folhas já estavam com um tom amarronzado e começavam a desprender-se das árvores, aquela cena inspirou Fenmë que pegou seu banjo em mãos e começou a tocar uma triste melodia, ele sentia que as folhas pareciam dançar ao som das cordas de seu banjo. Seguiu feliz em direção à cidade, ele iria finalmente rever sua amada e pedi-la em casamento. Talvez encantado pela própria melodia e pela paisagem Fenmë não notou que a floresta estava quieta, quieta demais…

Notou que algo estava errado a apenas alguns metros dos portões principais, que estavam fechados. Guardou seu banjo e notou que algo incomum estava acontecendo. Não havia sentinelas no portão e, pelo que se recordava não havia visto nenhuma até aquele momento. Notou também que o mármore branco do qual eram feitas as muralhas que circundavam a cidade, com seus mais de dez metros de altura, estava com manchas vermelhas por toda a extensão. Sentiu seu coração bater mais forte, embora não conseguisse pensar em nenhum motivo racional para tal fato. Caminhou lentamente até as portas e empurrou-as levemente, o seu coração acelerado. Quando as abriu e uma forte luz vermelha atingiu seu rosto, sentiu que seu coração acelerado parou de bater.

A cidade estava em chamas. O crepitar das chamas chegava aos seus ouvidos como estrondos de trovão, a cidade branca e verde estava agora com um tom fúnebre de vermelho. Fumaça subia de qualquer direção que ele olhava, cobrindo o céu que pela manhã estava claro com um tom acinzentado. Seus pulmões se negavam a respirar aquele ar contaminado ― ao cheiro da fumaça somava-se um cheiro ainda mais forte, um cheiro que, também estava presente por toda a cidade.

Um mar de corpos estendia-se à frente de Fenmë ― o chão estava banhado de sangue, o sangue de todos os habitantes da cidade. Ele não pode ver o corpo de nenhuma outra criatura ali, então o que poderia ter acontecido à sua bela cidade? Correu para a casa de Línwe, temendo o que seus olhos viriam ao lá chegar. Mesmo a poucos metros da casa dela pôde ver algo que o fez virar a cabeça para o lado e vomitar. Sua amada elfa estava empalada na frente da casa, seu corpo puro estava nu, com a lança atravessando seu abdômen e sua bela face manchada de sangue; sua boca e olhos abertos numa expressão de inconfundível horror e dor.

Olhou para o castelo e viu que estava em chamas, as torres ruíram enquanto ele as observava, espalhando escombros por todos os lados. Seu rosto virou para o leste, onde o grande carvalho Sorwën também estava em chamas, a tapeçaria de cipós mostrando o leão sobre a águia também ardia em chamas. As lágrimas contidas dentro de Fenmë foram liberadas. A árvore milenar, plantada no dia em que o último rei de Mëvamen morrera em campo de batalha para salvar a todos, seria transformada em cinzas. Como estavam durante o dia, não suspeitou que não pudesse notar as chamas da borda da floresta, já que esta ficava a dezenas de quilômetros do centro da cidade.

Notou mais algo de estranho na cidade, as estátuas que representavam a união dos povos que a habitavam haviam sido substituídas por outras que não reconhecia. Ao se aproximar delas e ler o que estava escrito na base “Nós trouxemos o fim à sua amada civilização”, sentiu-se ainda mais desolado. Seria mesmo possível aqueles poucos seres trazerem a destruição para toda uma cidade? Quando olhou para os céus e pediu para que quem quer que tivesse ajudado seu rei naquela hora de necessidade os auxiliasse novamente e viu um raio de luz dourada descer dos céus, pensou que estava salvo. Todos voltariam à vida e que tudo voltaria ao normal.

Um comum engano de um tolo. A luz veio em sua direção e escutou uma risada sinistra partindo dela. Tremeu. Sentiu que o tempo corria cada vez mais lentamente à medida que aquela luz se aproximava. Ele sentiu uma dor no seu peito e notou que sua visão falhava, virou a cabeça procurando o autor do golpe, mas sua visão outrora aguçada, já não conseguia ver nada com muita clareza. Por motivos desconhecidos até mesmo para Fenmë, ele banhou sua mão com seu próprio sangue e escreveu nas estatuas a frase “FIM 27.11.5E2436”, quando tentou observar melhor o que havia escrito seus sentidos falharam e ele sentiu toda a dor sumir de seu corpo.

Quanto tempo se passou ninguém sabe informar ao certo, mas sabe-se que um viajante chegou numa taverna de uma cidade próxima de Mëvamen com um olhar apavorado no rosto, e um pergaminho amassado em sua mão. As histórias daquela época nos dizem que o homem estava em choque, e que quando conseguiu falar ninguém acreditou no que ele falava. “Mëvamen destruída? Nunca!” todos afirmavam, certos de que uma civilização como aquela jamais cairia e que a frase “FIM 27.11.5E2436” não fazia nenhum sentido. No entanto, o rei Vijhal ficou bastante curioso com o ocorrido e ordenou que uma pequena cavalaria fosse averiguar o que realmente aconteceu em Mëvamen.

Os homens do rei voltaram também assustados e inquietos ― Mëvamen realmente havia caído. Ao comparar a frase “FIM 27.11.5E2436” no pergaminho que um dos homens havia trazido com a qual havia chegado ao seu conhecimento e notou que eram idênticas, pôs-se a estudar melhor a mensagem e notou que aquilo era uma data, a data do fim provável de Mëvamen: 27 de Crepúsculo do Sol do ano 2.436 da Quinta Era. Logo a notícia se espalhou e com o tamanho da revelação todos concordaram que os calendários deveriam ser reajustados e que a Sexta Era deveria começar no dia seguinte à destruição de Mëvamen.

Não havia uma palavra ou expressão que nomeasse tamanha destruição e malícia, portanto não deram nenhum nome especial àquele dia. Quanto às estátuas que foram encontradas, cópias delas foram espalhadas pela Val’huhn e aqueles seres ficaram conhecidos com “Os Arautos do Crepúsculo”. Mas com o tempo, a história, mesmo a mais negra delas, acaba se tornando apenas mais um livro na mão de poucos que a dominam e o que antes era de conhecimento público acaba tornando-se mais um ponto no fluxo intermitente que chamamos de: tempo.

Quando a luz e as trevas se juntam, o que resta? Nada… Absolutamente nada…


A neve caia fracamente naquela tarde. Ao olhar para fora contemplei a beleza das montanhas onde habitava, os flocos caiam por toda a extensão delas, tornando-as ainda mais brancas. Um vento leve soprava calmamente entre elas, impulsionando os minúsculos flocos montanha abaixo. Eu estava sentado nos portões de entrada da minha cidade, observando o lugar onde habitava. Sentia-me bem no frio, flocos de neve iam acumulando em minha barba e cabelos longos; seu branco puro claramente visível no negrume onde caiam.

Sempre gostei de observar a primeira neve do inverno e, nesse ano de 7.442 da Sexta Era ela demorou a cair. Já estávamos em 23 de Estrela da Alvorada quando ela nos agraciou com sua presença. Creio que muitos dos outros anões não compreenderiam a minha paixão por ela, mas o meu clã é muito diferente dos outros anões. Nossos músculos são maiores e mais resistentes e nosso conhecimento muito superior ao deles. Somos mais altos que eles, nossa altura média é praticamente igual à dos elfos.

Senti uma mão tocar em meu ombro, quando inclinei a minha cabeça para trás deparei-me com o ancião de meu clã. “Thamek, preciso falar com você.” ele falou em sua voz grave e rouca. Meu nome soou diferente pronunciado por aqueles lábios, jamais eu tivera a oportunidade de conversar com Hekzad em meus noventa e três anos. E, sob a primeira neve deste ano ele havia me procurado. A característica mais marcante de nosso clã me encarava sob as grossas sobrancelhas grisalhas do ancião ― os olhos vermelhos dele refletiam os flocos de neve que caiam atrás de mim. Os mesmos olhos vermelhos que todos nós, do clã Lawj Kobred (literalmente, Pedra de Luz) compartilhamos.

“Claro, meu senhor,” respondi, me pondo de pé e logo em seguida curvando-me em reverência a ele. Ele olhou-me por mais alguns instantes antes de fazer um sinal com sua mão, pedindo para que eu o seguisse. Dei uma última olhada para a neve que caía e segui-o para as profundezas, onde nossa cidade, Kawjnesk, ficava. A entrada seguia no mesmo nível por cerca de cem metros antes de começar a espiralar descendentemente nas profundezas da montanha. Era um caminho longo, embora não fosse árduo. Descemos sem falar nada por cerca de quarenta e cinco minutos, o único som que ouvia era o de minhas botas de metal em chão de pedra e o leve toque do cajado dele em intervalos regulares. Surpreendia-me o fato de que Hekzad, com seus 498 anos fizesse aquele caminho; ele era muito velho, seu cabelo e barba brancos tocavam o chão.

Assim que alcançamos o nível da cidade pude novamente ver as cores ao meu lado. A beleza de nossa arquitetura sempre conseguia me deixar encantado. Havia luzes mágicas por toda a cidade, mantendo-a iluminada de acordo com o mundo acima ― brilhantes durante o dia e tênues à noite. Uma leve brisa ― também mágica ― soprava, mantendo o ar fresco e agradável. E, bem acima da cidade, incrustada na rocha dura estava o motivo de sermos chamados de Lawj Kobred ― um cristal de um mineral tão branco cuja fraca luminosidade parecia vir de dentro dele, como se estivesse vivo.

Seguimos por entre as construções durante um bom tempo, os outros integrantes de meu clã curvavam-se em respeito a Hekzad. Eu, pego no meio de tanta atenção, não sabia como reagir, caminhava atrás dele, encarando meus pés, o som das escamas de minha armadura se chocando era tudo o que desejava ouvir. Mas mesmo assim os comentários de outros anões sobre a minha presença junto com ele eram bastante audíveis, seja porque eles não faziam questão de mantê-los em segredo ou devido à maneira como o som se transportava em Kawjnesk. Não conseguia nem ao menos distinguir o motivo central dos comentários devido à enorme quantidade deles.

Embora apenas minutos tenham se passado, para mim uma negra eternidade se estendeu do ponto em que entrei na cidade até quando me encontrei na quietude do lar dele. O meu passado, digamos, incomum, contribuiu para esse sentimento. Desde cedo fui um tipo de forasteiro aqui, embora meu sangue Lawj Kobred fosse tão puro como o de qualquer um, as condições de meu nascimento (do qual, inexplicavelmente tenho lembranças rápidas) e a perca de meus pais no início da minha vida me tornaram um. Fui criado por clérigos num tempo de Moradin, e conseqüentemente fui iniciado desde cedo nos caminhos da fé ― embora esperassem que mais um clérigo se juntasse a eles, eu ansiava em ajudar o mundo de outra forma, pela força das armas. Olhei rapidamente para o martelo em meu cinto e sorri. Logo ouvi o chamado em meu coração e aceitei a minha vocação, bastante incomum para um anão, mas gostava do título: Paladino.

“Sente-se Thamek,” a voz do ancião tirou-me de meu devaneio sobre meu passado. Pude observar melhor o lugar onde estava: era uma sala aconchegante, um fogo crepitava numa lareira ao meu lado, iluminando o ambiente com uma tonalidade ígnea. Tapeçarias ilustrando cenas de nosso passado e o símbolo de Moradin estavam penduradas em todas as paredes ― uma me chamou a atenção, um anão parado imponente sobre um penhasco combatendo um dragão que parecia ser feito de luz. Havia também várias estantes preenchidas com grossos tomos, alguns bastante empoeirados, todos eles com grossas capas de veludo e runas feitas com ouro ou mitral. Havia duas poltronas no centro da sala, que era iluminado por um lustre alguns palmos acima de minha cabeça; sob elas havia um tapete de urso pardo, sua expressão ainda era feroz. Havia uma pequena mesa no centro da sala, com dois cálices de mitral. Numa das poltronas Hekzad estava sentado e apontava para a outra, convidando-me a sentar.

Sentei-me na poltrona indicada por ele, mas desejei não tê-lo feito. Assim que sentei vi os olhos dele me encarando, pareciam ler minha mente e não meus movimentos. Mexi-me inquieto nela, e pus-me a observar a sala novamente, aguardando ansiosamente o momento em que ele quebraria o contato visual. “Olhe para mim,” ele disse suavemente, quase implorando. Virei meus olhos em sua direção, sua expressão mudara totalmente; ele estava sério, mas a sensação de que ele estava lendo a minha mente havia passado. Ele falou novamente, “Você com certeza sabe que estamos vivendo em tempo difíceis”.

Acenei positivamente com a cabeça. Eram freqüentes os relatos das guerras que aconteciam por toda a Val’huhn. Ao contrário das eras passadas, essa era uma de sangue e sofrimento. Não tínhamos muitas informações sobre o passado, mas o que tínhamos nos garantia que a na qual estávamos vivendo era a mais sangrenta de todas elas. Soube de reinos que desmoronaram, florestas que queimaram, vilas que viraram pó, e mesmo as nossas tão belas montanhas destruídas. Ao lembrar-me de tudo isso, senti um anseio por ajudar a melhorar a Val’huhn, fazer alguma diferença com meus punhos. O ancião permaneceu em silêncio por mais um tempo antes de continuar.

“Sabe por que o nosso clã tem esse nome?”, ele perguntou, acariciando a barba. “Sim”, respondi e depois continuei “É por causa de nosso cristal, o Lawj Udaka, que est…”, parei de falar assim que vi as rugas no rosto de Hekzad se contorcerem formando um sorriso. “Isso é conhecimento público, o real motivo é algo muito maior.”, ele disse, parecendo adorar aquele momento. “Você sempre foi um anão curioso Thamek. Como todos nós você acredita profundamente no Forjador de Almas, mas ao invés de procurar aprimorar sua ligação através da magia divina, você focou esse poder em seus músculos, tornando-se um paladino. Embora tenhamos muitos guerreiros hábeis, você foi o único em muitos milênios que conseguiu unir o divino ao aço.”

Senti-me constrangido. Jamais podia esperar que ele fosse me elogiar de tal maneira. Hekzad pareceu ignorar isso e continuou “Como você e todos aqui sabem, eu não tenho filhos. Já tive várias esposas ao longo da minha longa vida, mas nunca me foi agraciado um filho. Talvez esse seja o destino que Moradin tenha reservado a mim e também a você Thamek.” O meu constrangimento tornou-se confusão, não podia compreender o que Hekzad queria realmente, mas continuei escutando, tentando escondê-la. O ancião respirou profundamente e bebeu um gole de uma bebida que estava no cálice a sua frente e convidou-me a fazer o mesmo. Sorri quando vi que a bebida era uma simples cerveja. Ele terminou de beber a dele antes de continuar.

“Preste muita atenção Thamek, o que vou lhe contar agora é passado do ancião ao seu filho mais velho por toda a história do clã Lawj Kobred. Abro uma exceção aqui porque temo que este conhecimento se perca, pois sinto que as forças abandonam o meu corpo.” Passei a sentir medo; o que Hekzad pedia era que eu aceitasse e carregasse a maior responsabilidade do clã. E ele havia acabado de dizer que iria morrer em breve, naquilo não pude acreditar, ele acabara de subir e descer todo o percurso do topo da montanha até Lawjnesk. Estava estupefato, não consegui interrompê-lo enquanto ele continuava.

“Você ouvirá agora a verdadeira história por detrás do nome Lawj Kobred.”

Duas horas mais tarde não pude acreditar no que eu acabara de ouvir. Hekzad olhava para mim com uma expressão que lembrava pena, mas continuava sério mesmo assim. Demorou alguns minutos até eu recobrar meus sentidos, tudo parecia girar ao meu redor. “Sinto muito por isso”, ele disse tristemente. “É um fardo muito grande este que depositei sobre seus ombros, mas espero que compreenda.” Minha mente começou a voltar ao normal, consegui voltar a pensar claramente. Se for isso que Moradin desejou para mim, eu aceitarei com orgulho. “Compreendo sim, e aceito esse destino com orgulho e honra. Enquanto eu ainda respirar não falharei em manter a honra dos Lawj Kobred intacta.”

Lágrimas escorreram dos olhos de Hekzad em direção à sua barba. Elas pareceram brilhar ao refletirem a luz das chamas que ardiam mais forte do que nunca na lareira. Ele se levantou da poltrona. Fiz o mesmo em sinal de respeito e, quando ele atravessou a sala e caminhou até minha frente, ajoelhei-me aos pés dele, cabisbaixo. Ele me pegou pelos braços e levantou-me facilmente, o que me surpreendeu. Em seguida ele abraçou-me fortemente, retribuí o gesto. Senti-me confortado ― deveria ser essa a sensação que um abraço de um pai causava.

“Sinto em ser tão abrupto, mas você entende que a situação exige isso.”, ele falou, liberando o abraço. “Claro. Partirei imediatamente.”, respondi. “Espere aqui”, ele disse saindo da sala por uma porta ao lado da lareira. Voltou momentos mais tarde com uma mochila numa mão e na outra um embrulho em couro de dragão vermelho. Entregou-me a mochila por primeiro. “Aqui está o que você precisa para iniciar sua viagem, há provisões e ouro por um bom tempo.” Peguei a mochila e a coloquei em minhas costas, o couro roçou em minha brunea, produzindo um som metálico que ecoou por toda a sala até o momento em silêncio. Hekzad continuou, uma expressão de profundo orgulho no rosto.

“E este é o meu presente. Que ele lhe sirva bem.” Tirou o couro de dragão de cima do que se revelou ser um martelo de combate, forjado em ouro, mitral, platina e adamante. Ele tinha o exato formato do martelo de Moradin, o metal tão perfeitamente moldado e polido poderia refletir até mesmo a menor luz. Peguei-o e ele pareceu ter sido construído para a minha mão. Encaixou-se perfeitamente nela, minha expressão era o de uma criança que ganhara um brinquedo novo. Agradeci profundamente a Hekzad e parti imediatamente.

Segui pela cidade sem olhar para os lados ou para trás. O meu destino estava a muitos quilômetros dali, na direção onde o Sol se põe. Subi rapidamente pelo caminho em espiral até alcançar o topo das montanhas. O crepúsculo anunciava-se, colorindo os flocos que caiam mais intensamente agora com uma laranja vivo e radiante; ele também marcava meu caminho, talvez só voltaria para Lawjnesk daqui a muitos anos. Dei uma última olhada para a entrada de minha cidade e parti em direção ao Oeste ― a neve cobrindo meus rastros e os últimos raios do Sol guiando meu caminho.

Viajei por cerca de quatro meses até alcançar o meu destino. Os eventuais inimigos que encontrava ― orcs, goblins, ladrões, lobos e outras feras caiam facilmente perante os golpes de meu martelo. Ele era tomado por uma luz dourada toda vez que um inimigo se aproximava; e brilhava com a força de Moradin quando o golpeava. As provisões e o ouro foram mais que o suficiente ― pois aprendi a caçar em pouco tempo.

Mas o meu destino estava à minha frente, ao avistá-lo percebi que esses quatro meses não haviam me preparado para aquilo. Caminhei temerosamente em direção a ele, meu martelo em punho. As formas cinzentas e retorcidas começaram a ficar mais nítidas. Toda a luz e vida haviam sumido daquele lugar, se aquela floresta já havia sido verde e habitada eu não sabia dizer. Aproximava-me lentamente, todo o som do mundo parecia ter sido suprimido, restando apenas minha respiração e as batidas de meu coração.

Eu estava muito próximo da entrada agora, já podia ver a escuridão que estava prestes a me absorver. Respirei profundamente e caminhei decidido. Estava a poucos metros das primeiras árvores quando meu martelo começou a brilhar. Segurei-o firmemente e notei que a escuridão a minha frente parecia ganhar vida, formas humanóides surgiram avançando em minha direção. “Para trás criaturas da escuridão!”, urrei com meu martelo em punhos. “A luz está aqui para conquistá-las!”

Elas fizeram um barulho estranho, algo que lembrava terrivelmente risos. Meu corpo tremia, mas não me deixei abalar, peguei meu escudo de minhas costas e estava pronto para o combate quando uma delas falou, numa voz grave “Você acha que a luz pode salvá-lo? Mortal idiota! A luz ira condená-lo!”

O que antes eram criaturas de sombras tornaram-se seres de uma luz branca e dourada. A luz foi tão intensa que tive de fechar meus olhos. Lembranças de meu nascimento assolaram minha mente, figuras borradas passaram em uma rápida sucessão, mas apenas algumas sempre estavam visíveis. Eram figuras de luz e trevas ao mesmo tempo, avançavam em minha direção rapidamente, ao se aproximarem e erguerem suas armas, eu soube apenas quem eram. Elas riram e senti uma dor excruciante passar por todo o meu corpo. Quando despertei de meu devaneio sobre meu nascimento me vi numa poça de meu próprio sangue. Lembrei que havia prometido lutar pela honra de meu clã e vi meu martelo brilhar intensamente e se desintegrar numa explosão de luz e trevas. Os seres que estavam a minha frente sumiram em meio aquela explosão, com gritos de dor e fúria. Não sei explicar como, mas eu sentia que os havia destruído e disse às estrelas que haviam aparecido para contemplar aquela cena “Eu destruí os Arautos do Crepúsculo” antes de perder meus sentidos.

A muitos quilômetros dali, Hekzad dera seu último respiro em sua cama. O segredo por trás do verdadeiro significado do nome Lawj Kobred estava perdido.

A sexta era se estendeu por cerca de dois milênios depois da morte de Thamek e Hekzad, findando no dia 23 de Estrela do Anoitecer do ano de 9.132 quando os reinos de Hertar e Olamet assinaram um tratado de paz que acabou com a guerra por toda a Val’huhn.

Quando a luz se deita, as sombras despertam…


Anos de paz acabaram tornando calmos os habitantes de Val’huhn. Desde que a guerra entre Hertar e Olamet havia terminado ― 1.026 anos atrás ― a paz reinou. Os reinos já não mantinham mais soldados em número suficiente para uma guerra, contavam com apenas alguns homens para manter a paz nas cidades. Mesmo com esse “descuido” por parte dos reinos não havia problemas aparentes ― não se ouvia falar de orcs, goblins e outras criaturas invadindo cidades. Todos viviam suas pacatas vidas com suas famílias completas, já que os homens não eram chamados para a guerra.

Mas a guerra fermentava nas entranhas da terra. O mês de Zênite de Sol findava e o Dia da Chama negra desse mesmo ano se aproximava ― um dia que muitos esqueceram; apenas alguns se lembravam dos horrores que aconteceram na terceira era. Grande parte deles eram estudiosos das artes arcanas e de outras ciências ― estes estavam muito preocupados com esse dia, pois os números eram curiosos. Passara-se exatos 16.976 anos desde que a bola de chamas descera do céu e entrara em Kot’nathûk. Esse número era preocupante. Talvez pudesse ser uma mera coincidência, mas a cruzada do Rei Fealan do Reino de Helön na era anterior confiscara e destruíra esse mesmo número de conjuntos de estátuas dos Arautos do Crepúsculo.

Talvez quem mais tenha acredita que esse número não era apenas uma coincidência foi Gwënfil, uma elfa de meia idade que dominava tanto os mistérios arcanos como os naturais. Ao tentar alertar o mundo de sua suspeita foi criticada e expulsa de seu círculo de magos. Ela pareceu não se importar com o fato e apenas disse que iriam se arrepender de não pesquisarem mais a fundo o fato e se retirou para as profundezas de alguma floresta, onde viveria em paz com os animais.

Faltavam poucos minutos para o Sol atingir seu zênite, os habitantes que apenas conheciam o motivo para o término da terceira era nas histórias de seus avôs à beira da lareira não sabiam que o flamejante passado negro os assolaria novamente. No exato momento em que o Sol atingiu o zênite, tudo ficou escuro. Alguns pensaram ter se enganado quanto à data, pensaram que este dia era o Dia do Eclipse das Trevas, mas logo se lembraram que até momentos atrás havia Sol.

Kot’nathûk não observou calmamente isso. Rugiu furiosamente, o estrondo correu pelos ventos até os lugares mais remotos de Val’huhn. A terra tremeu vigorosamente. Diz-se que o próprio Plano Material mudou de posição na Grande Roda. Um clarão rubro subiu dele e iluminou o céu. Um mar de chamas líquidas jorrou e transformou em um deserto sem vida a paisagem num raio de quilômetros. Assim que as chamas pararam o Sol voltou a brilhar, como se nada tivesse acontecido enquanto ele estava oculto.

O ocorrido poderia ter sido considerado uma catástrofe natural normal, exceto que ao se solidificar a lava formou uma fortaleza nas paredes externas do vulcão. A fortaleza estendia-se por grande parte das Montanhas da Chama, dando um ar ainda mais funesto à paisagem já destruída. Havia apenas uma entrada na torre central, embora houvesse várias janelas por toda a extensão da fortaleza. Não havia sinal de vida aparente, mas todos aqueles que ousaram adentrar nela, não foram mais vistos. Se morreram ― ou coisa pior ― ninguém sabe. Foi dado um nome a essa fortaleza, um nome que começou numa canção de um bardo e logo estava saindo dos lábios de todos: Apogeu das Sombras.

Mas o fato é que a paz aparente em Val’huhn findou nesse dia. Orcs, goblins e outras criaturas que até aquele momento da sétima era não participaram ativamente de sua história resolveram que era hora de mudar. Invasões seguiram mais invasões, a sombra ameaçava cobrir toda a Val’huhn. Mas esse período de trevas pareceu despertar o guerreiro que havia em todos os habitantes, adormecido desde o final da sexta era.

Eles pegaram em armas e expulsaram os invasores de suas terras. Algumas das pacatas vilas de outrora já não mais o eram. A guerra havia chegado a elas, transformando o ambiente agrário em militar. Muralhas foram construídas no seu perímetro para impedir os invasores de entrarem ali novamente. Quartéis, forjas, estábulos e outras construções militares ocupavam o lugar das antigas casas. Já não mais se ouvia o riso das crianças e o canto dos bardos, ouvia-se o barulho do aço e das chamas. O ambiente festivo tornou-se taciturno.

Se os invasores já fossem o suficiente, revoltas internas começaram a desestabilizar os reinos. Algumas vilas e pequenas cidades haviam sucumbido ao caos e à loucura. Destruíam e pilhavam tudo o que estava em seu caminho, alguns por necessidade, outros por riqueza, e outros ainda pela simples diversão de ver o sangue jorrando de suas vítimas ― um rio de vida que se esvaziava quando uma lâmina tocava os corpos.

Os reis viam que seus reinos sozinhos sucumbiriam àquela onda de carnificina e horror. Decidiram que os problemas externos deveriam ser tratados antes dos internos. Goblins, orcs e outros deveriam cair antes. Até porque era mais fácil para seus exércitos ― ainda inexperientes ― golpearem esses invasores do que seus semelhantes. E assim nasceu a Irmandade do Aço, uma união entre os reis de todos os reinos livres para expulsar esse mal de toda a Val’huhn.

Talvez ironicamente, os invasores mantinham sua base principal logo à frente do Apogeu das Sombras. Nem mesmo eles ousavam adentrar nela, os rumores que julgavam fantasiosos foram comprovados quando o primeiro grupo de “corajosos” resolveu adentrar nela. Suficiente dizer que nenhum deles foi tolo o suficiente para cometer o mesmo erro novamente.

A data era 11 de Meio-Ano do ano de 1.032 da Sétima Era, os exércitos da Irmandade do Aço marchavam em direção ao acampamento inimigo na sombra do Apogeu das Sombras. Havia novamente grama naquele lugar, uma grama verde e saudável, suas lâminas moviam-se lentamente ao vento que anunciava a chuva vindoura. Os guerreiros seguravam fortemente em suas armas, medo e esperança estavam presentes em seus olhos. Seus líderes instilavam a esperança neles, tentando subjugar o medo que sabiam estar presente em seus irmãos em armas.

O exército inimigo era tão grande quanto o deles, uma massa de criaturas amontoavam-se desordenadamente nas sombras do fortaleza. Talvez não temessem a morte, mas não tinham um motivo para lutar tão forte quanto os guerreiros que enfrentariam.

Era meados da manhã quando o primeiro grito de guerra cortou o ar, no mesmo tempo em que o primeiro raio cortou o céu. Os exércitos avançaram cegamente em direção ao outro, armas em punho. A chuva caiu ao mesmo tempo. Gritos de dom e glória misturavam-se aos trovões que regiam aquela funesta melodia. O sangue era lavado dos ferimentos pela chuva.

No final, a Irmandade triunfou; não sem perder muitos de seus guerreiros, cujo sangue agora, juntamente com a chuva tornava o chão lamacento. Mais tarde a grama que ali crescera perdeu sua cor verde, adquirindo uma tonalidade vermelha. Muitos consideraram isso uma homenagem aos bravos guerreiros que ali perderam a vida lutando pela liberdade de toda a Val’huhn. Nomearam-na de A Planície Rubra; sua tonalidade rubra assim permaneceu por muitos milênios. Kot’nathûk entrava em atividade ocasionalmente, nada de anormal acontecia nessas ocasiões, pelo menos aparentemente.

Os guerreiros da Irmandade retornaram a seus lares, onde reencontraram suas famílias e puderam viver suas vidas mais tranquilamente. Às esposas e filhos e perderam seus maridos e pais, restou apenas o orgulho por eles. Sempre houve uma e outra tentativa de invasão, e as feridas internas foram cicatrizadas quase que totalmente. A paz não reinou por completo, mas não houve nenhuma guerra de proporções grandes o suficiente para merecer mais do que algumas palavras em um livro.

A Irmandade do Aço continuou ao longo dos anos. Fora reduzida a poucos membros, que não mantinham nenhum ligação direta com nenhuma reino. Serviam como conselheiros aos reis e comandantes militares quando um conflito surgia. Logo ela cresceu e se espalhou por toda a Val’huhn, mantinha fortalezas por todo o lugar. Mesmo com todo esse aparente poder, continuava a manter poucos membros, muitos dos que permaneciam em suas fortalezas eram súditos do rei local. A realeza ou não se importava com a Irmandade ou o fingia muito bem.

Quase dois milênios passaram, as coisas em Val’huhn permaneceram da mesma maneira: a Irmandade do Aço continuava a auxiliar os reinos com as eventuais tentativas de invasão. O Apogeu das Sombras continuava lá, intocado e esquecido. Talvez um erro, mas nada havia acontecido lá desde o seu aparecimento, portanto todos podiam dormir sossegados, ainda mais porque a Irmandade mantinha um posto na Planície Rubra, que os alertariam caso alguma coisa acontecesse.

No ano de 3.007 dessa mesma Era, uma nova erupção de Kot’nathûk banhou de vermelho as Montanhas da Chama. Um pouco mais forte do que o padrão, mas nada para se alertar.

Aqui começa a verdadeira história da sétima Era.