“He will ride across land and time / To find a way through this endless night
There's a storm in his heart and the fire burns his soul / But the wanderer's part is to ride alone”
Ensiferum - Wanderer
Irthos

Background

O Início

O pequeno vilarejo de Rondall, nas regiões gélidas de Gadrafik, nada tinha a oferecer à visitantes que por ali passavam. Incrustada à beira das Montanhas Gadrafik, ao norte, era uma região inóspita, cercada pela neve e pela rocha. Durante o inverno, era impossível a sobrevivência de qualquer criatura que não estivesse apta a suportar o frio intenso, mas não foi isso que os humanos de Lobo Uivante pensaram quando se mudaram.

Era o início do Solstício de Verão de 2.080 quando duas dúzias de homens e uma dúzia de mulheres marcharam em direção às montanhas, muitos deles empregando esta viagem com a esperança de um lugar calmo e bem provido de comida para viverem, outros tantos para ganharem dinheiro se tivessem a oportunidade. Levaram quase três dias para chegar devido ao pasto molhado que cobria a região, renascendo após meses soterrados sob neve espessa e sendo rapidamente devorado pelos cavalos e vacas que seguiam o comboio.

Ao chegarem, se fascinaram com a visão. A montanha erguia-se imponente, mais alto do que o melhor dos falcões jamais poderia voar. Elas podiam ser vistas de Lobo Uivante, mas somente aqui, em sua base, era possível perceber sua grandeza. A neve, inclusive, parecia ser menos espessa naquela região, pois a grama não dava sinais de que havia sido totalmente encoberta meio ano atrás. Pensando nisso como um sinal dos deuses, as famílias ali se assentaram e começaram a construir suas casas. Em menos de 10 anos, 30 construções cercavam a beira das montanhas. Caça nunca fora o problema da região, e plantar era perfeitamente possível do inicio da Primeira Semente da Primavera até o fim da Estrela do Anoitecer, garantindo pão, frutas e um bocado de carne suficientes para agüentar o rigoroso inverno. Peles, obviamente, tornaram-se necessárias, mas os lobos e ursos da região satisfizeram essa necessidade.

Era o 11° dia da Estrela da Alvorada de 2.090. O sol já havia se posto a mais de três horas. Fazia muito frio naquela noite, mas os pouco mais de 50 habitantes do vilarejo já estavam quentes em suas camas – ou bebendo hidromel na taverna enquanto contavam histórias absurdas sobre encontros com criaturas míticas. Com exceção de uma família.

Duas estações inteiras haviam se passado desde que Cairnwolf e Karen Valeth tiveram sua noite de amor, e o resultado dessa união estava vindo ao mundo num dos dias mais frios já vistos em Rondall. A neve caia como jamais vista, sua fúria ameaçando despencar os telhados a cada rangida das tábuas. Os guardas pensaram ter ouvido, vindo do topo das montanhas, um som agonizante, como um grito de dor, mas nada era distinguível do barulho do vento, então voltaram a beber hidromel para se aquecerem no frio castigante. No mesmo instante, veio ao mundo o mais novo cidadão de Rondall, o herdeiro da família Valeth. Seu nome era Irthos.

Criação

Irthos era, no mínimo, diferente dos outros seis jovens que possuíam aproximadamente sua idade. Quieto e pensativo, tímido demais para ser homem, baixo demais pra ter quatorze anos. Sua pele branca contrastava com os cabelos e olhos castanhos, enquanto marcas de espinhas se espalhavam por sua testa. Enquanto os outros jovens já haviam atingido quase 1,70m de altura, eram musculosos e pesavam quase 70kg, ele ainda permanecia com 1,60m e pesando cerca de 50kg. Era mirrado para sua idade, por maiores os esforços que seu pai fizera para que se tornasse um futuro guerreiro. E não foram poucos.

A maioria dos jovens inicia seu treinamento aos doze anos, quando a puberdade aflora e eles se sentem donos da verdade e capazes de façanhas do tamanho de suas imaginações. Irthos, porém, não demonstrava a mesma vontade. Nos testes de sobrevivência, era o primeiro a passar frio e fome, mas nunca reclamava. Ao lidar com os cachorros, era o mais mordido, mas não chorava. Balançando sua espada de madeira, era o que menos acertava e o que mais apanhava, pois sua motivação era quase nula.

Uns diziam que o jovem Irthos havia nascido apenas para ser um estorvo para seu pai. Mas poucos recordam de como ele era uma criança ativa e brincalhona até os sete anos de idade. Sua mãe era quase tão baixa quanto uma elfa, porém irradiava uma beleza que invejava as mulheres do vilarejo. Seus cabelos castanhos sempre curtos davam a impressão de ela ser homem, mas seus olhos amendoados entregavam sua feminidade. Era extremamente bondosa, carinhosa e amável, zelava por Irthos melhor do que a maioria das mães o faria. Mas na manhã do 25° dia do Crepúsculo do Sol de 2.097, porém, foi acometida de uma doença rara que nem os curandeiros de Lobo Uivante foram capazes de impedir, por mais que implorassem aos deuses. Na madrugada do 4° dia da Estrela do Anoitecer, ela veio a falecer, sendo enterrada no pequeno cemitério de Rondall, com a seguinte inscrição sob sua lápide de pedra: “Quando os deuses nos chamam, não há amor no mundo que nos permita ficar entre os mortais”. Naquele dia, Irthos silenciou.

Cairnwolf também mudara drasticamente após o falecimento de sua esposa. Antes um homem alto, robusto, de cabelos e olhos de um preto intenso, tornando-se mais direto e seco em suas respostas e bebendo duas vezes mais hidromel que o costume. Aparentava ter mais de quarenta anos, apesar dos trinta e quatro.

Nunca, porém, deixou de cuidar das plantações, limpar a casa e cuidar de seu filho. Seu maior sonho era ver o filho como capitão da guarda local ou, quem sabe, arrumando um emprego bem rentável em Lobo Uivante. Mas nenhum dos dois se concretizou.

Quando soube que seu filho fora reprovado pela segunda vez nos testes para entrar na milícia, ele bebeu mais hidromel do que já o fazia, ficando completamente bêbado. Naquela noite, quando Irthos chegou em casa, desabafou: “Você quer saber? Continue assim, manche ainda mais a pouca honra que resta nessa família! Já não basta sermos taxados de amaldiçoados porque sua mãe não pôde ser curada, como agora estão dizendo que criei uma menina! E vejo que não estão enganados! Você não tem fibra pra ser um guerreiro, nem é falastrão para ser bardo, não tem aptidão mágica para virar mago da corte, enfim, você não é nada! Me diga, seu verme imprestável, onde foi que eu errei?”, no que Irthos respondeu: “Nada, meu pai. Sou assim porque nasci”. Esta foi a maior surra que o jovem jamais vira, mas como tudo que sofrera na vida, aceitou sem reclamar.

No outro dia, Irthos comemorou seu 15° aniversário longe de casa. Distraia-se dando de comer a um pequeno lagarto quando um senhor se aproximou. Aparentava ser um ancião, beirando a casa dos setenta anos, ostentando um sorriso atipicamente feliz. Ele já vira aquele senhor diversas vezes antes. Seu nome era Lothos e, segundo os moradores mais velhos de Rondall, ele simplesmente apareceu um dia pedindo abrigo e comida, dizendo que conhecia as melhores áreas de caça daquela região. De fato, suas instruções sempre levaram os caçadores a becos cheios de cabras montanhesas, lobos perdidos ou ursos feridos, garantindo que, mesmo que escassamente, os moradores do vilarejo tivessem carne para comer, pelo menos os homens. Ele desaparecia com freqüência, retornando vários dias depois. Hoje era um de seus habituais retornos.

“Por que está tão triste, Irthos? Hoje é um dia especial! Se me lembro bem, estás completando quinze anos hoje, não? Qual o motivo de tamanha tristeza?”. O jovem assentiu com a cabeça, falando sobre a surra que levara na noite anterior. Lothos era uma das poucas pessoas em que ele podia confiar seus segredos. Todas as pessoas confessavam seus segredos a ele, mas o senhor as guardava para si, tornando-o uma espécie de “clérigo sem robe”. “Ah, entendo. Bem, devo dizer que, ao menos em parte, você mereceu. Seu pai ainda não se recuperou da morte de sua mãe, você não devia tê-lo provocado”. Irthos respondeu com seu tom irônico habitual: “Realmente, concordo contigo. A culpa d’eu ser assim não é por ter nascido, mas por termos uma maldição na família. Afinal, nem os deuses tinham a cura da doença que roubou minha mãe, não?”. Lothos deu-lhe um olhar grave, porém sereno. “Filho, eu entendo como te sentes, mas deves entender que este mundo funciona da exata maneira que está escrito na lápide de tua mãe, quando os deuses nos querem lá em cima junto deles, não tem maneira mortal de continuarmos neste plano.”.

Irthos ironizou: “Sério? Bom saber que mais alguém além do meu pai, do padre, do dono da taverna e do meu vizinho pensa assim também. Estou quase com vontade de voltar chorando pra casa e abraçar meu pai.” “Não seja sempre assim irônico”, retrucou Lothos, “pois nem sempre chegamos ao outro lado. Dê graças aos deuses que sua mãe encontrou a paz”. O jovem empalidecera. “O que você quer dizer com isso?”. Lothos apenas sorriu, deu as costas e foi embora novamente dizendo: “Você saberá muito em breve, pelo visto”.

Destruição

Um alarme ecoou no ar. Irthos olhou em direção ao vilarejo. Na única vez em que ele fora tocado, Rondall fora atacada por ursos atrozes, vinte anos atrás, e quase metade dos guerreiros do vilarejo havia morrido para proteger suas famílias. Ele olhou novamente em direção ao velho: ele havia sumido. Algo estava errado. Voltou correndo para saber o motivo do tumulto e encontrou a milícia local correndo em busca de homens e armas, mulheres procurando desesperadas por seus filhos e trancando-os em casa, mercadores preparando-se para partir o quanto antes. Em meio ao tumulto, distinguiu um pequeno bardo halfing, vindo de outro pequeno vilarejo do norte. Ele trazia noticias de uma tribo bárbara que vinha do extremo norte, havia destruído seu lar há poucos dias e estava marchando em direção à Rondall. Chegariam em menos de oito horas, costeando as montanhas.

Irthos sentiu que precisava lutar. Não queria ser pra sempre o saco de pancadas de sua turma, queria contrariar o pai agora que este o achava um inútil. Allan Swenson, o líder da milícia local, foi enfático em lembrar Irthos de sua total falta de habilidade no combate, mas não dispensou ajuda, afinal eram pouco mais de cinqüenta pessoas em armas, muitas improvisadas, contra pelo menos cem bárbaros bem-armados. Cairnwolf não fez objeção ao fato de que seu filho poderia morrer em combate, mas Allan garantiu que ele ficasse na última fila, para não se machucar caso a linha de frente conseguisse barrar o inimigo.

Já era final de tarde quando, ao norte, surgiram as primeiras cabeças. Humanos e meio-orcs compunham as filas bárbaras, armados com lanças, espadas, armaduras e escudos. Irthos usava um corselete de couro, pois era fraco demais para carregar uma Brunea sobre os ombros. Em seu braço esquerdo ostentava um escudo pequeno de madeira e, no direito, uma espada curta de ferro. Mesmo assim, sentia-se extremamente pesado e desconfortável. Quando as duas frentes se chocaram, reinou-se o caos.

Era perceptível que alguns bárbaros engajavam-se pela primeira vez numa luta armada, mas a habilidade dos mais treinados compensou o fato. Para cada bárbaro que caia extremamente ferido, dois soldados da milícia eram mortos. Seus companheiros de idade resistiam bravamente na linha direto à sua frente, mais esquivando do que lutando em si. A situação, porém, não se invertia. Em apenas quinze minutos de combate, restavam apenas vinte e cinco soldados na milícia contra quase cinqüenta bárbaros, e eles não respeitavam nem quem caia em combate, degolando ou desmembrando os feridos até que parassem de se mexer, para desespero dos soldados que começavam a perder as esperanças.

Um grito na escuridão fez calar metade dos bárbaros. A cidade de Lobo Uivante ouvira os boatos de uma incursão bárbara a tempo de três druidas, quatro guerreiros e três arqueiros ouvirem e se juntarem à batalha. A esperança reacendeu nos olhos dos soldados, que agora não estavam mais sozinhos. Druidas lançavam pequenas magias enquanto seus lobos atacavam com as presas, guerreiros brandiam suas armas e arqueiros faziam zunir suas flechas no ar como relâmpagos. Mas o infortúnio quis que a taxa mortalidade simplesmente caísse para um membro de cada lado por minuto. Em questão de quinze minutos, havia apenas Irthos, dois de seus amigos, o comandante Allan e um dos druidas contra 8 bárbaros. E um de seus amigos estava gravemente ferido. O druida se propôs a recuá-lo até o vilarejo quando o comandante, tentando não perder o controle da situação, disse que os três poderiam dar conta do restante.

Irthos se virou para ver seu amigo sendo levado, mancando, de volta a Rondall, mas não teve muito tempo para pensar em outra coisa. Um dardo arremessado por um bárbaro trespassou sua armadura num ponto já gasto pelos golpes recebidos, bem no meio do pulmão esquerdo, próximo ao coração. Tudo ficou frio. Irthos tombou. Ele não queria morrer. Não ainda. Não podia encarar sua mãe sem ter feito algo que valesse a pena. Tudo ficou frio.

O Destino nos Uniu

Silêncio. Quando Irthos acordou, sua primeira reação foi tocar o local onde a flecha o atingiu. Não havia sangue ali. Ele estava inteiro, mas no fundo sentia que faltava algo, era como se metade de si tivesse desaparecido nos últimos segundos. Foi quando ele ouviu um lamento. Não um, mas muitos. Quando se deu conta, estava deitado sobre o que pareciam ser nuvens enquanto milhares de pessoas passavam ao seu redor. Assustou-se e levantou imediatamente.

Uma multidão de espíritos caminhava em direção a uma cidadela, entoando lamentos que falavam de morte, paz e guerra. Eram de todas as raças, cores e tamanhos, e marchavam lentamente para dentro dos portões, sem hesitar ou olhar para trás. Irthos não reconheceu ninguém, mas de uma coisa ele se deu conta, graças às histórias dos anciões de Rondall: ele estava nos Planos Superiores. Morto.

O desespero tomou conta do jovem. Não, ele não podia ter morrido assim, tão estupidamente. Justo ele, que planejara chegar à idade venerável para assustar as criancinhas com historias de terror. Seria apenas “mais um” a ter caído perante os bárbaros, e seu pai certamente iria enterrá-lo sem nenhuma honraria ou lápide. Ele saiu correndo, cada vez mais distante da cidade, mas o branco do chão não mudava, e a cidade parecia nunca se afastar, como se ele estivesse destinado a pairar pelos Planos para sempre, ou se algum deus estivesse instigando-o a correr justamente no sentido contrário, em direção à cidade. Ele se jogou frustrado ao chão, rindo mais sarcasticamente do que jamais o fizera enquanto olhava em direção aos muros. “Viu pai? Você tinha razão! Eu realmente consegui! Não derrotei nenhum oponente, morri estupidamente e nem me juntar a minha mãe eu mereço! Consegui ser pior do que o oposto que você imaginou pra mim! Será que o orgulho da família terminou na sua geração mesmo? Me diga!”

“Eu acho que não.”

Aquela não era sua voz. Irthos olhou para cima. A cabeça de um dragão prateado estava a menos de dez metros da sua, seus olhos de um prata fosco lhe fitando alegremente. Irthos se assustou ao ponto de soltar o grito mais agudo que já dera na vida, mas logo se recompôs. “Por sua calorosa recepção, posso perceber que nunca vistes um dragão, jovem humano,”, disse o dragão serenamente. Continuava fitando-o docilmente, com o mesmo carinho que um pai olha para um filho. O jovem não imaginava que existiam dragões tão belos quanto este, muito menos dragões dóceis, e a criatura sobre ele pareceu ler seus pensamentos. “Eu admiro a capacidade de sua raça de inventar, imaginar e temer o que não conhecem. Talvez seja por isso que vocês sobreviveram até hoje.”

De fato, todas as histórias sobre dragões que Irthos ouvia falavam de criaturas ferozes, com várias centenas de metros de comprimento, que soltavam ácido pelas narinas capaz de derreter aço em segundos e, quando famintos, podiam devorar o gado de um condado inteiro, isso quando não comiam todos os habitantes

depois, na sobremesa. Instintivamente, ele rolou para o lado e se levantou para observar o dragão. Tinha pouco mais de vinte braças de comprimento, mais cauda e pescoço do que corpo em si, o que deixou o jovem atônito. Era levemente mais alto que uma casa. Ficou admirando as escamas prateadas deste visivelmente jovem dragão. Suas asas eram cobertas por finas membranas e possuía um adorno de escamas que descia da cabeça até a ponta da cauda, como se fossem espinhos. O mesmo padrão criava uma espécie de orelhas nas laterais de sua cabeça. Esta tinha um aspecto de bico, como se descendesse de um pássaro ? apesar de que, Irthos imaginou, era mais fácil que os pássaros descendessem de dragões ?, dois belos chifres horizontais e uma barbicha que, apesar de escamada, em alguns aspectos lembrava um bode.

O dragão não pode deixar de achar aquela situação um tanto cômica. A cara do jovem variava do espanto à admiração, passando pela dúvida e pelo riso. Achou que fosse hora de se apresentar, antes que o rapaz o inundasse de questões ou mesmo fugisse. “Meu nome é Razgorith. E o seu, filhote de humano?”. Irthos não conseguiu deixar de ser ele mesmo. “Meu nome é Irthos Valeth, ó Razgorith, filhote de dragão.” Este bufou o que parecia ser uma risada. “Vejo que a ironia e o sarcasmo o acompanham em sua jornada. São duas excelentes ferramentas para espantar a tristeza, mas devem ser usadas com muita precaução. Você tem razão, para os padrões dos dragões eu ainda estou jovem em meus trezentos e quarenta e nove anos, afinal somos conhecidos por viver até dois mil anos antes de desaparecermos, levados pelas areias do tempo. Mas lembre-se que é nesta idade em que nossas habilidades físicas estão no auge. Você precisaria ser ressuscitado trezentas vezes até me causar dano suficiente para me fazer levá-lo a sério, e eu certamente não teria paciência nem magia para fazer isso tantas vezes seguidas.” Irthos engoliu em seco. Ou o dragão estava sendo sarcástico também, ou o pior estaria por vir.

Mas o dragão sorriu novamente. “Bem, deixando a ironia de lado, o que o trouxe a este plano?”. E então, o jovem lhe contou a sua história, desde as partes em que seu pai o instruíra por ser jovem demais para lembrar, até a batalha onde falecera. Razgorith pareceu interessado apenas no dia de seu nascimento. Fitava Irthos vagamente, perdido em seus pensamentos. Ao final da história, apenas concluiu: “Hum, sim, interessantíssimo. Quase bocejei aqui, sinto muito. O que realmente me fascina é que você nasceu no mesmo dia em que morri.” O jovem ficou abismado – estava frente a frente com “aquilo que fez um barulho esquisito na mesma noite em que ele nasceu”, segundo os vigias de Rondall. “Estou pensando, você está feliz em ter abandonado o mundo onde era um fraco inútil?”. Irthos sentiu muita raiva. Sua têmpora inchou, ele queria trespassar o dragão com uma espada, mas não tinha nenhuma. Mas, por algum motivo que nem ele sabe, isso não passou de uma vontade. Ele sabia que morreria caso ameaçasse fazê-lo. Seu pensamento não passou despercebido pelo dragão. “Vejo que fui indelicado com meus comentários, e por isso sinto muito. Mas me diga, meu jovem Irthos? Se você pudesse voltar e ser uma pessoa melhor, seria uma pessoa melhor?”. A mente do rapaz ficou ainda mais confusa. “Oras, você sabe o que eu quis dizer! Se você deixasse de ser o que era e virasse algo melhor, seria também uma pessoa melhor?”. Irthos anuiu. “Então, quer ter a chance de corrigir seus erros do passado?”

Ritual, Dor, Luta, Vitória

Razgorith começou a explicar, seu tom grave e sério como nunca antes visto. “Existe um ritual que é muito antigo e perigoso. Aprendi com um mago cujo nome me foge no momento, mas o que importa é que você entenda nossa situação: um de nós dois vai deixar de possuir um corpo. E provavelmente serei eu. Veja bem, ele envolve contrariar as leis criadas pelos deuses, que dizem que pessoas mortas só devem retornar à vida por intercessão divina. Esse ritual envolve a destruição de parte da alma de ambos os envolvidos, para sempre. Ambas as almas se fundem num só corpo, normalmente o mais fresco – aquele que morreu mais recentemente, no caso você. Até porque duvido que minha carcaça esteja intacta até hoje. O que importa é que isso implica que eu provavelmente perca minha identidade, ou pelo menos metade dela. Eu viverei dentro de você, eu serei você. Além do que estou lhe contando, só sei lhe dizer o seguinte: eu serei o provável prejudicado na experiência por possuir mais afinidade com a magia, já que é nela que o ritual se baseia. Apenas quando estivermos de volta no outro mundo – se voltarmos – é que poderemos tirar conclusões. Agora me permita o tempo para preparar o encantamento. Eu só preciso de alguma coisa sua que o faça lembrar sua existência no outro lado, algo mais especial que esse colete de couro barato que você está usando”. Irthos entrou em pânico. Não possuía nada além de sua roupa de batalha e, levou a mão subitamente ao peito. Sim, havia uma coisa. Por debaixo da armadura, tirou um colar simples, feito de um pedaço de rocha esculpido toscamente na forma de uma moeda. Apenas seu pai sabia da existência desse medalhão, afinal pertencera à sua mãe. Ele sempre o usara, apesar de nunca saber por quê. Entregou-o ao dragão, que sorriu satisfeito e mandou-o se afastar.

Irthos recuou cerca de trinta passos e começou a observar Razgorith enquanto ele desenhava alguma coisa no chão, pronunciando palavras em uma língua esquisita. Não entendia o que estava acontecendo, mas ficou fascinado. Após cerca de uma hora, o dragão parou e o chamou até o meio do que parecia ser um circulo.

Os desenhos pareciam emanar cheiro de sangue. “Quero primeiro que você entenda uma coisa, jovem. O tempo neste mundo flui de maneira diferente do que no nosso, então não se assuste ao retornar. E, segundo, não conte a ninguém sobre esse ritual, pois ele é considerado necromancia por muitos. Agora vá e me ajude a tornar o mundo um lugar melhor.” Pronunciou uma palavra estranha e tudo ficou escuro. O som era de guerra.

Irthos abriu os olhos. Sentia-se levemente tonto. Estava deitado sobre neve espessa e estava ficando escuro. Reconheceu o corpo que jazia ao seu lado: era Grewhammer, um jovem de seu vilarejo. O som da batalha continuava. Levou a mão ao seu peito. O medalhão havia sumido, assim como a ferida no pulmão. A flecha jazia quebrada sob seu peito aparentemente cicatrizado. Ele reconheceu a cena: era a batalha onde morrera, mas quanto tempo havia se passado? Levantou-se com cuidado e se surpreendeu.

Capitão Allan, um druida e seu amigo Waynorth lutavam contra três bárbaros. A julgar pelo andamento do combate, não haviam se passado sequer dez minutos entre sua queda, a passagem pelo outro plano e o retorno. O pulmão ardia, mas pelo menos não sangrava. Um dos bárbaros percebeu o estranho vulto que estava de pé e ficou horrorizado. Era o jovem que, minutos antes, ele atingira com uma flecha, quando ainda tinha uma besta – o capitão a quebrara enraivecido dois minutos depois, o que lhe custou uma seta no ombro direito. Por breves segundos que pareceram eternos, todos os combatentes olharam atônitos para Irthos, que estava parado de pé, imóvel e perfeitamente vivo, de espada em mãos. Esse tempo foi suficiente para que Allan e Waynorth fossem gravemente feridos e caíssem desmaiados. Irthos arremessou sua espada curta, pegando o bárbaro desprevenido. Ele caiu com a espada encravada em seu pescoço. Mas algo em Irthos o impedia de se mover. Ele sentiu suas entranhas queimarem de ódio, ele queria vingança pelos amigos tombados, e queria fazer isso sozinho. Gritou ao druida para que carregasse os dois feridos até o vilarejo. Apesar de atônito, ele anuiu com a cabeça e o fez sem hesitar. Os bárbaros entenderam o recado e o deixaram partir. Queriam despedaçar aquele jovem pirralho só por achar que podia enfrentá-los sozinho.

Assim que o druida sumiu de vista, Irthos entendeu a gravidade da situação em que havia se metido. Ele estava sozinho e não sabia até quando sua ferida iria permanecer estancada. Um dos bárbaros começou a correr em sua direção. “Você não está sozinho” foi tudo que ele ouviu em sua mente. Fechou os olhos e se lembrou de sua mãe. O bárbaro estava a dez passos dele. Pensou no seu pai, queria fazê-lo feliz um dia. Cinco passos. Pensou no dragão. Um passo. Um machado zuniu no ar. Mas nenhuma cabeça rolou. Irthos desviara-se com agilidade, pareceu flutuar sobre a neve. Aplicou um soco com toda sua força nas têmporas do bárbaro, que o deixou inconsciente. O outro bárbaro recuou assustado com a visão. Irthos não demorou a perceber que seus braços estavam cobertos de escamas prateadas. Suas mãos haviam adquirido garras afiadas e suas botas haviam rasgado na frente, deixando garras à mostra também. Ele jamais havia se sentido tão forte em toda a sua vida. Sentia-se leve também. Percebeu que possuía um par de finas asas prateadas também. Finas, porém resistentes, que lhe faziam doer as costelas ao mover. Alguma coisa pesada balançava em sua traseira: uma cauda comprida e escamada, com uma espécie de espinha que descia até a ponta. Sentiu alguma coisa apertando nas costas: essa mesma espinha devia subir até sua nuca, assim como em Razgorith. E de fato, ele possuía uma crista dessas em sua cabeça.

Não teve muito tempo para analisar o restante: o bárbaro avançou em sua direção, pegando-o desprevenido e quase lhe arrancando a cabeça. Não sabia como usar a cauda em seu favor, portanto acabou caindo desengonçadamente sobre o corpo de um bárbaro que ali jazia. Conseguiu desviar-se novamente quando o bárbaro fez uma nova investida. Desta vez, pôs-se de pé e pegou do chão uma espada longa e um escudo de metal. Pareciam leves demais. Quando o bárbaro investiu, cravando o machado no escudo, foi como se os ossos do seu braço esquerdo tivessem partido, mas ele suportou o impacto e contra-atacou, perfurando o bárbaro na lateral do estômago. Ele foi ao chão, sangrando, onde Irthos lhe aplicou o golpe de misericórdia, afundando a lâmina em seu peito. Fez o mesmo no outro bárbaro que jazia inconsciente. A batalha estava vencida, mas isso significava que só havia mais sete homens vivos no vilarejo com menos de setenta anos.

Ficou saboreando sua primeira vitória e tentou aprender sem sucesso a movimentar a cauda, além de bater as asas. O ultimo lhe rendera uma leve flutuação, mas não sem causar uma extrema dor nas costelas, o que fez lembrar-se da dor em seu braço. Decidiu caminhar até um riacho próximo e achou sua cara estranha acima de tudo. Em tudo lembrava Razgorith: tinha um par de chifres que pendiam para trás, uma crista que ia do meio da cabeça à ponta do rabo (estava amassado na parte protegida pela armadura, causando certo desconforto), uma barbicha de alguns centímetros que o fazia parecer um bode. Quando riu da situação, viu que tinha uma fileira de dentes duros e afiados. Deveria ser capaz de mastigar ossos com aquilo, similar a um lobo. Voltou ao ponto onde acontecera a batalha, o braço latejando, caiu exausto ao chão. Ele se sentia feliz, e no fundo da sua alma, sentia que Razgorith sentia o mesmo. Fechou os olhos e desmaiou.

Os Bons Velhos Tempos

“É um milagre dos céus”, “Foi pura sorte” e “Ele precisa de repouso, saiam daqui!” foi tudo que Irthos conseguiu distinguir entre as dezenas de vozes que rodeavam em sua cabeça. Não sabia há quanto tempo estava dormindo, mas teve sonhos malucos sobre ter virado um meio-dragão, sangue e morte. Logo descobriu que o sonho fora real. Quando abriu os olhos e pediu para ficarem quietos, pelo menos duas mulheres correram para fora para dar a noticia. Ele reconheceu aquele lugar, estava de volta à enfermaria de Rondall. Logo, várias pessoas vieram visitá-lo, as mulheres da cidade queriam abraçá-lo por ter impedido os bárbaros de chegarem ao vilarejo. Mas quem lhe mais agradou foi o pai, que agora tinha um motivo para se orgulhar do filho, o novo herói da cidade. Ambos se abraçaram e Irthos não pode conter as lágrimas. Chorou como uma criança e jurou que jamais o faria novamente. Especialmente quando deixasse de ser o queridinho da vila.

Após incontáveis dias e noites acamado, perdera a noção do tempo. Quando lhe tiraram as bandagens, sentia uma leve dormência no braço esquerdo, mas já podia movimentá-lo normalmente, apesar de ter certeza que ainda não estava apto a empunhar algo mais pesado que um garfo. Notou que sua ferida no pulmão lhe rendera uma estranha cicatriz escamada, do tamanho exato do dardo que o ferira, não mais que um centímetro de diâmetro. Era como se tivessem preenchido o buraco com pele de cobra, o que fez Irthos rir só de pensar na hipótese.

No primeiro dia da Aurora do Sol, deixaram-no sair do hospital. Caminhando normalmente entre as ruas, percebeu que as mulheres o olhavam tanto com admiração quanto com escárnio – afinal era praticamente impossível que o inútil da vila tivesse derrotado três bárbaros, segundo o druida que estava hospedado na taverna local. Seu nome era L’lanthar, falava pouco e bebia menos hidromel ainda. Irthos prestou-lhe uma visita e ganhou dele uma generosa rodada de hidromel, por sua honra em pensar primeiro na sobrevivência dos feridos. Beberam juntos ao longo da noite inteira, apesar de que o druida não chegou a terminar o 3° copo. Segundo os relatos do taverneiro à um escritor local dez anos mais tarde, apenas Cairnwolf havia passado tão mal quanto Irthos em sua primeira bebedeira na história de Rondall.

Os dias no vilarejo voltaram quase ao normal depois disso. Sendo um dos poucos homens que sobreviveram, Irthos teve que assumir os mais diversos papéis, de vigia noturno a caçador, e sentiu que gostava de ser reconhecido. O que não sabia é que as pessoas mais o olhavam devido à suas mudanças, tanto no nível das habilidades quanto na forma física. Ao longo do ano de 3005, ele cresceu quase três centímetros e desenvolveu sua musculatura ao ponto de não ser tão mais fraco que Waynorth. Por ter mais tempo disponível com seu mestre e um novo vigor, aprendeu tudo que podia sobre a sobrevivência na floresta, a caçar e até como afiar sua arma quando necessário. Allan sabia que Irthos deveria ser capaz de usar diversos tipos de armas em combate, então o ensinou a manejar armas de contusão, como pequenos manguais e maças. No início ele achou estranho que uma arma pudesse ter a ponta tão pesada sem perder seu equilíbrio, mas assim que matou seu primeiro lobo usando-as e vendo o estrago que causavam, gostou da idéia. Aprendeu lições de arquearia básica usando bestas à manivela e arcos curtos, que segundo Allan era a melhor forma de caçar sem ser notado.

Irthos porém descobriu que sua vocação estava nas espadas. Ele tinha interesse principalmente na espada longa e de lâmina curva que vira o elfo portando em batalha e estava decidido a comprar uma igual assim que um elfo estivesse disposto à vendê-lo. Decidiu focar seu combate na espada longa convencional, mesmo achando que os golpes dela eram muito abertos, deixando falhas na defesa. A lembrança de Allan de que era pra isso que serviam os escudos o fez dar um tapa na própria testa, tamanha a sua estupidez. Desde então Irhtos sempre andou com um pequeno escudo de madeira leve. Não agüentaria um golpe de machado, mas poderia ser a diferença entre ter ou não o braço arrancado pela mordida de algum animal feroz.

Quando chegou seu aniversário de dezesseis anos, Irthos teve um sonho que lembraria para sempre. Estava numa enorme caverna, simples porém aconchegante, decorada rusticamente com peles e ossos de animais recém devorados. Havia diversos outros túneis que deviam dar à outras câmaras. Mas no meio da principal, estava Razgorith em sua forma natural. “Vejo que você já estava se esquecendo de mim, jovem.”. Irthos corou, mas não deixou de perguntar onde estavam. “Em minha caverna, ou pelo menos é assim que me lembro dela. Ainda estamos na sua mente.” E começou a explicar os efeitos de sua fusão. “O resultado de nossa experiência foi pior do que imaginei. Eu não sinto mais a magia fluindo dentro de mim, ao menos não como antes. Ainda tenho minhas habilidades como dragão, mas o efeito delas está muito reduzido. Enfim, meu futuro não é nada bom. Custou-me um ano inteiro para conseguir trazer sua mente para dentro da minha, enquanto eu aturei o contrário durante todo este tempo. Bem, não estou reclamando, afinal posso ver o mundo através de seus olhos, mas não é a mesma coisa do que estar sentindo o vento bater em suas asas. E por falar nisso, você nunca mais se transformou. Mas não se preocupe, meu jovem: eu ainda fui capaz de alterar um pouco o fluxo do tempo por aqui. Teremos cerca de dez horas pra colocarmos o assunto em dia, isto é, se você conseguir dormir tranqüilo essa noite.”

Irthos então explicou como aprendeu a usar rusticamente diversos tipos de armas e a caçar, o que não levou sequer meia hora. Depois, ouviu durante nove horas e meia o dragão explicar-lhe como ele deveria se concentrar por cerca de seis segundos antes da transformação – e como fazer isso sem precisar fechar os olhos, algo que, segundo o dragão, fora uma completa estupidez na primeira vez – e fez o jovem aprender a usar corretamente sua cauda para derrubar seus oponentes com uma rasteira. Irthos percebeu que um golpe desses, se não levasse o inimigo ao chão, ao menos causaria mais dano que um bom mangual. Aprendeu que ainda era jovem demais para conseguir usar suas asas, mas que essa habilidade viria com o tempo. Aprendeu também a morder, a usar suas garras e até ambos ao mesmo tempo, mas foi desajeitado nessa última. Mesmo depois de retornar exausto após uma hora transformado, o dragão ainda exercitou seus ouvidos com todo o tipo de conhecimento antigo sobre dragões, desde seu idioma até as características que definem os membros de cada espécie, seus rituais de acasalamento, hábitos alimentares, regiões onde vivem e a criação dos filhotes. O jovem prestou atenção em cada mínimo detalhe. Quando percebeu que seu tempo estava próximo do fim, o dragão disse: “Por enquanto é isso que posso lhe oferecer. Você deve acordar, antes que alguém lhe jogue água fria no rosto por achar que estás em transe. Vá e ponha em prática o que lhe ensinei, mas tenha sempre o cuidado de não revelar isso a ninguém. Nem todo mundo gostaria de saber que tem um dragão por perto.”

Irthos acordou com uma leve dor em todo seu corpo, mas satisfeito com o que vira e ouvira. Razgorith estava bem acomodado em sua mente, podia ver e ouvir tudo o que ele via e ouvia, e caso estivesse transformado, podia sentir na pele também. E esse ano não poderia ser melhor para seu vilarejo, pois doze novos homens vieram morar no vilarejo, vindos de Lobo Uivante, a maioria parente das mulheres de Rondall, por terem medo de deixá-las sozinha nessa região gélida. Três deles eram desconhecidos, sendo que um se casou a filha de uma das viúvas.

Irthos finalmente aprendeu a adestrar animais domésticos e cavalos, além de usar esses últimos como montaria. Sentia-se realizado com o vento batendo em sua face, um sentimento interno extremamente feliz. Logo estaria cavalgando sempre que possível. Crescera mais quatro centímetros, mesmo sendo ainda mais baixo que os outros homens ele não deixava mais a desejar quanto à força e vigor físico. Seu pai era, provavelmente, a pessoa mais realizada do vilarejo, o orgulho visível em seus olhos. Seu filho era o destaque da milícia. O que não sabia é que sempre que possível, seu filho se transformava em um meio-dragão, principalmente quando ia buscar lenha sozinho – a essa altura seus sentidos estavam aguçados o suficiente para saber quando estava realmente sozinho, ao menos em lugares como a floresta onde era possível ver as marcas das pegadas e outros rastros -, pois não só queria trazer Razgorith a esse mundo de alguma forma, como também era ainda mais forte, se dando ao luxo de rachar grandes toras de madeira com alguns poucos golpes de machado. Sentiu pena de só poder ter feito isso três vezes naquele ano, mas aproveitou cada minuto transformado.

No dia de seu aniversário de dezessete anos, foi promovido à tenente da milícia, se tornando a segunda pessoa mais importante na autoridade local. A festa que se seguiu à promoção foi regada à muito hidromel, mas desta vez Irthos se lembrara que seu limite era de 8 canecos sem passar mal, saindo apenas “extremamente bêbado, tonto e contando piadas sem sentido, mas que todos riam por estarem ainda mais bêbados”, segundo as mulheres. Naquela noite, estava tão zonzo que jurava ver dois dragões em sua frente, além de tentar atacar o do meio que não existia. Um golpe de cauda do dragão em seu peito e a dor o fez ficar um tanto mais sóbrio. Como punição, Razgorith o fez passar por difíceis testes de concentração mental e física e o proibiu de se transformar para agüentar melhor as patadas que recebia caso falhasse. De volta à realidade, ele ainda foi proibido de fazer esforço durante dois meses devido às costelas quebradas, tornando-o motivo de chacota novamente. Ele entendeu que aquele era o único dia em que Razgorith podia falar com alguém e estragara o momento. Jurou não beber mais de três canecos no dia de seu aniversário.

O ano passou e ele desenvolveu também uma nova habilidade: escalar. Como não podia voar, decidira estar o mais perto possível das nuvens, então sempre que sobrava um tempo em suas tarefas militares, subia as montanhas para sentir o vento gelado menear seus cabelos e congelar sua barba. Não sentia o menor frio fazendo isso. Só conseguiu escalar seis vezes no ano, mas na ultima delas chegou a subir cerca de cem metros. A sensação de liberdade era tremenda lá em cima. Estava agora com um metro e setenta e um e pesava sessenta e oito quilos. Era a robustez de um adulto normal, mas era mais inteligente que a maioria do vilarejo e quase tão sábio quanto os mais velhos. Suas histórias sobre dragões não impressionavam pelo tamanho e fatos – afinal os seus eram reais, tendo bem menos de cem metros de comprimento -, mas sim pela riqueza de detalhes sobre aparência física e hábitos alimentares. Escondia coisas como localizações típicas, aparência quando na forma humana e detalhes sobre a criação dos filhotes e rituais sexuais, pois Razgorith o proibira de mencionar tais detalhes. De todo modo, se tornou uma pessoa extremamente carismática. E ganhava hidromel de graça, pois suas histórias contadas todo final da semana rendiam casa cheia ao taverneiro.

Transformação

Foi ao completar dezoito anos que seu corpo sofreu as mudanças mais radicais. Razgorith explicou que, por ele atingir a fase adulta, começaria a sofrer pequenas modificações físicas, mas não imaginou tanto. Seus cabelos começaram a ficar levemente grisalhos nas pontas, e somente nelas. Toda vez que cortava, eles voltavam a clarear novamente, não mais do que dois milímetros, mas visíveis em meio à seu cabelo castanho escuro. Seus olhos iam se tornando prateados e as pálpebras iam estreitando, cada vez mais parecido com os de um dragão. Crescera três centímetros no ultimo ano – estava agora com um metro e setenta e quatro – e pesava setenta e um quilos. Era atualmente o homem mais charmoso da vila, com sua barba rala que parecia nunca crescer além de dois milímetros, à exceção do cavanhaque que tinha cerca de quatro milímetros. Ambos também pareciam magicamente paralisados no tempo, dando a ele uma fisionomia de semi-adolescente enquanto causava inveja aos outros homens. As garotas de sua idade o admiravam, e ele via uma delas da mesma maneira: Arianna, filha do ferreiro local. Magra e alta, com olhos verdes profundos, cabelo castanho como o seu, Irthos sentiu algo mais do que simpatia por ela. Era extremamente reservada e pretendia seguir a profissão do pai, o exato oposto dele, mas seu pai sempre disse que os opostos se atraem, ou ao menos foi o que aconteceu com ele e Karen.

Quando saíram juntos pela primeira vez, ela não disse uma palavra, mas estava vermelha de constrangimento. Levou cerca de três encontros para que eles se beijassem, a partir do qual Irthos sentiu que era com ela que iria se casar um dia. O ferreiro assentiu com o namoro e eles continuaram se vendo, três vezes por semana, após o expediente do rapaz.

Irthos ainda sofria com um pequeno inconveniente em suas transformações: suas calças voltavam sempre rasgadas na parte de trás, na altura do quadril. A saída da cauda provocava essa ventilação que lhe custava não só o trabalho de levar junto uma calça extra toda vez que pretendia se transformar, como também significava uma moeda de cobre a menos. Insignificante perante seu salário na milícia, mas segundo sei pai, um dia poderia ser a diferença entre comer ou não comer carne num inverno mais rigoroso. Precisava de uma solução urgente e Arianna lhe deu a resposta. Ela negociou com seu pai e este assentiu em dar um pequeno desconto ao jovem na fabricação de uma armadura. Era uma Brunea quase convencional, mas com menos escamas no peito – estas substituídas por couro batido pintado de prata – e mais comprida, como um kilt, indo até a base do joelho sem deixar de ser maleável. Improvisou suas calças para que não subissem mais até os quadris, sendo que nestes usaria somente uma cueca básica – a cauda saia um pouco mais para cima, não atrapalhando o uso de peças íntimas. Essa pequena aventura lhe custou boa parte do dinheiro que havia guardado, cerca de cinqüenta moedas de ouro. Seu pai decidiu não retrucar.

O ano passou e Irhtos estava com dezenove. Media um metro e setenta e seis e pesava setenta e três quilos. Tinha tudo que uma pessoa podia desejar: força física, agilidade, porte razoável (sabia que existiam pessoas mais altas, mas estar na média já era algo bom para quem sempre fora baixo), sabedoria devido às lições históricas e geográficas de Razgorith, era carismático e, até certo ponto, inteligente. Só não tinha feito amor com Arianna, e isso ele pretendia realizar no dia de seu aniversário, mesmo que secretamente. Se o ferreiro descobrisse, estaria mais que feliz em ter que casar. Razgorith o ensinou a soltar fogo pela boca, usando gases criados pela digestão natural do estômago e armazenados em pequenas bolsas que apenas certas criaturas possuem e agora ele possuía também.

Esses gases entravam em contato com pequenas glândulas em sua garganta e, quando expirasse com vontade, entrariam em ignição e as chamas sairiam, sem contudo machucar o próprio usuário. Explicou que essa habilidade já é limitada nos dragões e que seria mais ainda num meio-dragão, recomendando não usar o ataque consecutivamente. Resolveu então por a nova técnica em pratica assim que acordou, mas o que aconteceu mudaria sua vida.

Curta enquanto pode

Estava aparentemente sozinho na floresta e decidira se transformar para praticar, tão absorto em seus pensamentos que nem notara a aproximação de uma pessoa, talvez porque não emanava perigo. Era Arianna. Estava prestes a usar suas chamas quando percebeu, ela em estado de choque e que, contrariando as expectativas, se aproximou incrédula do rapaz. “Uau, eu sabia que você não havia me contado tudo sobre sua vida, mas jamais imaginei isso. Você é ainda mais musculoso desse jeito”. “Como sabe quem eu sou? Por quê não está com medo?”. “A resposta é simples, meu amor: seu cheiro. As vezes quando você retornava da floresta, cheirava a chuva, e agora esse cheiro é ainda mais forte. Além do mais, eu vi você entrando e resolvi seguir.” Irthos abraçou-a como se não a visse há meses. Ela gostava dele e não tinha medo dele ser diferente. O que mais ele podia querer? “E aquilo que está entre as pernas, também ficou mais musculoso?”. Irhtos corou. De fato, jamais pensara no assunto, só sabia que a anatomia era completamente diferente, similar ao dos animais (o órgão permanecia para dentro quando não estava excitado, ficando apenas o saco escrotal e a abertura visível. Ali, no suor do treino e sentindo em seu corpo o cheiro de sua namorada, tal órgão se manifestou. Desta vez foi ela que corou. Ali mesmo, sobre a neve, tiveram uma sessão de amor que ambos guardariam na memória para sempre.

Ambos continuaram a se ver na mesma rotina de sempre, mas sem que seus pais desconfiassem de nada, no inicio de cada estação eles se distanciavam do vilarejo e tinham uma sessão de amor em meio à floresta. Ele sempre transformado, pois ela preferia assim e ele não a iria contrariar, mesmo que retornasse à forma humana tão esgotado como se tivesse cortado lenha a tarde inteira. Sempre se sentia mais fraco, lento e fatigado por cerca de quinze minutos depois de voltar. Eles reafirmaram o pacto de se casarem formalmente assim que um dos pais tomasse conta do ocorrido. Por enquanto, preferiam a aventura.

Aproximava-se o dia de seu aniversário de vinte anos e havia uma coisa que ele precisava perguntar urgentemente à Razgorith. Um dia, enquanto tomava banho num riacho nos últimos dias da Estrela do Amanhecer, notou que uma parte de seus pés estavam cobertos de escamas. As mesmas que ele possuía quando transformado. Ao ser questionado sobre o fato, o dragão só pode constatar o que Irthos temia. “Sim, e isso não passou despercebido aos meus olhos também. Ao que parece, toda vez que você se transforma, uma pequena parte de seu corpo não retorna mais à forma humana, creio que a quarta parte da centésima parte de seu corpo. Insignificante hoje, mas note que depois de realizar dezesseis transformações, quatro centésimos de seu corpo já estão assim. E até onde eu posso julgar isso será para sempre.” Ele entrou em pânico. Não queria ser assim para sempre, pois se as pessoas em Rondall já viam meio-elfos com zombaria, o que fariam com um meio-dragão? Ou melhor, uma aberração humana com patas de dragão? Ao retornar, não mencionou o fato à Arianna. Quando chegou sua noite de amor, no dia vinte e um da Primeira Semente, disse à ela que já havia sem querer se transformado pouco antes, portanto deveriam ter sua relação na forma normal. Ela ficou um pouco ressentida, mas entendeu e aceitou. Aquela noite fora a mais fria de todas para ambos.

Um novo recomeço

No dia seguinte, Irthos tomou conhecimento de Arianna partira junto de sua mãe para Aenen, centenas de milhas ao sul. Arrependeu-se amargamente de não tê-la contado a verdade, mas não iria se sentir triste. Um dia ele a encontraria, pois pretendia deixar o vilarejo assim que completasse vinte e um anos. Naquela noite, porém, teve um sonho incomum. Seu vilarejo ardia em chamas, atacado por um punhado de goblins liderados por um Bugbear e uma figura sinistra. Ele escalava as montanhas até não poder mais ver a cidade. Havia uma caverna a quase um quilômetro de altura. A figura sinistra ardeu em chamas e Irthos acordou assustado. Era quatro da manhã, e ele sabia de quem era a caverna. Tivera um mau pressentimento. Juntou todo seu material de escalada e decidiu sair sem armadura, pra facilitar a subida.

O silêncio no vilarejo era completo. Irthos deslocou-se até a beirada da montanha e começou a subir. Conforme avançava, as rochas ficavam cada vez mais íngremes e ele agradeceu-se por não estar com a armadura, podendo esticar-se livremente. O sol já raiava no horizonte e ele havia subido cerca de seiscentos metros. Já era metade do tempo entre o café e o almoço quando alcançou uma nova área. Era grande e achatada o suficiente para permitir o pouso de um dragão, ele pensou. Era a caverna de Razgorith. Avançou de espada em punhos, pronto para atacar qualquer criatura que pudesse estar usando esse lugar como ninho – foi nessa hora que ele começou a se arrepender de não ter vindo com a armadura. Tentou se concentrar e ouvir algum ruído, mas o lugar estava realmente abandonado. Não demorou para presenciar uma cena horrorosa, que carregaria para sempre na lembrança: a ossada de sete dragões, toda disforme, espalhava-se pelo cômodo central da caverna, mas não havia qualquer sinal de escamas, tesouros ou qualquer outra coisa. O local já havia sido pilhado.

Procurou ofegante entre os escombros do que parecia ter sido uma grande batalha, pois tudo estava quebrado e revirado, incluindo as peles velhas que forravam o lugar. Um único item jogado no canto do que parecia ser a sala dos tesouros lhe chamou a atenção. Ali, embaixo de uma pilha de lenha seca e restos de cerâmica quebrados, havia uma espada embainhada. Os detalhes eram diferentes de tudo que Irthos havia visto: a bainha era quase tão curva quanto à de uma espada élfica, mas a curvatura era uniforme, demonstrando que era trabalho de humanos mesmo. Lembrava mais um sabre, só que mais grossa, pesada, curta e sem proteção decente para o punho do usuário. O cabo era o que chamava a atenção, todo trançado artesanalmente em grossos fios de algodão, prateado como o restante. Foi quando puxou a espada para fora que percebeu sua beleza. A lâmina emanava um leve brilho, como se refletisse a própria luz do sol, mesmo que este não atingisse o interior da caverna – e foi apenas neste momento que Irthos percebeu que podia enxergar muito bem na penumbra do lugar, pois as únicas fontes de luz provinham de uma pequena rachadura no teto e da entrada que estava a cem metros dali.

Achou também um broche de tamanho mediano, grande o suficiente para ser fixado na gola de sua armadura. Ostentava um enorme dragão de aparência bondosa. Era Bahamut, o deus dos dragões bondosos. Irthos nunca levou a religião a sério, mas havia algo nele que o fascinava desde que Razgorith lhe explicara as diversas divindades dracônicas. Decidiu que seria em nome dele que destinaria suas orações de agora em diante, sempre que possível.

Estava feliz com o fato de que, seja lá quem fora que saqueou o lugar – devia ter sido outro dragão, dada a altitude e a localização remota – esqueceu de levar a espada junto, por distração ou por achar que não era valiosa. Quando saiu da caverna e encarou a neve que ainda se acumulava na montanha, a espada brilhou ainda mais forte num tom azul, fazendo-a parecer feita de puro gelo. Quando embainhada, parecia extremamente comum. Irthos passou a carregar ambas as espadas, pois o uso de uma espada que brilha no gelo, em uma região onde a neve reinava durante metade do ano, certamente atrairia curiosos demais. Só que ainda mais pessoas queriam saber por que ele carregava duas espadas na cintura e usava somente a mais comum. Só a usava quando estava sozinho, ou durante o verão, quando ela apenas aparentava ser de prata (o que ainda assim atraia a atenção de alguns). Logo ele dominou o manejo dela e aprendeu seu real poder: caso ele desejasse, a espada soltava um rastro de gelo quando acertava um alvo, apenas algumas vezes ao dia, mas segundo ele, seria suficiente para derrotar um inimigo mais forte, desde que este não fosse resistente ao frio.

A batalha na escuridão

Era o Dia do Eclipse de 3011. O dia virava penumbra todos os anos nessa data e as pessoas raramente eram vistas fora de casa, apenas os soldados eram obrigados a continuarem patrulhando as fronteiras do vilarejo. Irthos não se importava mais com isso, pois sua visão era normal nessas condições devido à influência dracônica em seu sangue. Mas havia um forte cheiro de chuva no ar, mesmo sem nuvens no céu. Havia algo errado. Ele também emanava esse cheiro quando se transformava, mas nunca a tal ponto. E vinha da pequena floresta ao sul. Ele vestiu sua armadura, pegou a Katana (um viajante chamou a espada curva desse jeito uma vez) e, aproveitando da posição de tenente, convocou mais quatro soldados, sob a desculpa de uma patrulha. Quando chegaram ao meio da floresta, seus temores se confirmaram.

Entre uma série de árvores congeladas, oito goblins e um bugbear vinham de encontro à cidade, guiados por um velho humano. Era Lothos. Irthos estava incrédulo. Aquele senhor que passara tantos anos morando no vilarejo, guiando uma tropa para atacá-lo? “Vemos-nos novamente, jovem humano. Imaginei que você viria, mas infelizmente calculei mal. Jurei que você viria sozinho. Vejo que você mudou”. Era por isso que trouxera um destacamento desses: seria pouco para acabar com o vilarejo, mas suficiente para derrotá-lo se estivesse sozinho. Com ajuda, ele teria chance. “Por que você, Lothos? Achei que a idade trouxesse a sabedoria. Eu não sou mais tão besta quanto o jovem que você conheceu. Suspeitei e trouxe um pequeno pelotão comigo.”, perguntou sarcasticamente, apesar de ver que os soldados não compartilhavam de sua confiança. Lothos porém não se deixou intimidar. “Ora ora, vejo que perdi muita coisa então. Bem, não vim aqui pra tomar hidromel, como você pode perceber. Só vim para trazer esse pequeno presente adiantado de aniversário. Agora, se me permite, eu preciso ir. Negócios me aguardam. Adeus.” E deu as costas.

“Espere!” Gritou mas o Bugbear enterrou sua enorme maça na neve, quase lhe acertando o pé. Esquivou por pouco e percebeu que não o deixariam passar. Ordenou que os soldados cuidassem dos goblins. O bugbear era dele, mas sabia que não teria chance na forma humana. Tomou distância e se transformou, para horror de seus subordinados. Gritou para que o ignorassem e continuassem lutando para que as criaturas não chegassem de maneira nenhuma ao vilarejo, o que lhes renovou a coragem. Lohtos já não podia mais ser visto, o que aumentou ainda mais a raiva do jovem meio-dragão. Investiu contra o bugbear, mas este bloqueava todos seus golpes com seu escudo e ainda manejava perfeitamente a maça. Era quase impossível que uma criatura mais de meio metro maior tivesse a mesma destreza.

Os soldados não estavam em melhor situação. Um deles havia caído, levando apenas dois goblins consigo. Irthos apenas bloqueava ou desviava, analisando as manobras de seu oponente. Notou que a destreza que o mostro tinha com as mãos, não tinha com as pernas. Aproveitando-se disso, rolou para trás dele e desferiu um golpe com sua cauda, mirando nos joelhos. A criatura foi ao chão, mas Irthos não consegui aproveitar para estocá-la, porque precisara girar todo o seu corpo. Mas assim que se recobrou do giro, evocou o poder da espada. Ela brilhou ainda mais forte. Ele investiu contra o bugbear que se levantava, acertando-o no braço direito. Ele urrou de dor e largou a maça no chão, dando a perfeita oportunidade, mas Irthos também gritou de dor. Uma maça o atingira na lateral do estômago. Havia dois goblins vivos e nenhum dos seus soldados. Aproveitando da distração do gigante, ele se virou e soltou um sopro contra os goblins. Um deles desviou mas teve a perna congelada. O outro virou uma estátua de gelo por completo, que Irthos despedaçou com um chute que lhe fez doer ainda mais seus órgãos internos. Ele se aproximou com raiva do goblin sobrevivente e o estocou com fúria no chão, mas não teve tempo de retirar sua espada do corpo inerte, apenas de reagir instintivamente.

O bugbear se levantara e estava a lhe dar um golpe com o escudo. Ele bloqueou usando seu escudo também, mas não sem se deslocar trinta centímetros para o lado com o impacto. Estava fisicamente no limite e sabia disso. Quando a criatura se aproximou pronta para outro ataque, ele instintivamente soltou um segundo sopro. O bugbear até conseguiu desviar, mas devido a seu próprio ferimento, caiu de dor. Irthos sentiu uma profunda queimação nos pulmões e teve que se ajoelhar. Esse sopro lhe salvara a vida, mas havia tirado o fôlego em troca. Nisso, viu outro goblin se aproximar correndo. O desgraçado devia ter se escondido, só esperando a hora certa para dar o bote, mas não conseguiu correr muito. Uma flecha voou, atingindo-lhe na têmpora, e ele caiu inerte. Outra flecha zuniu segundos depois, atingindo a cabeça do bugbear que começava a se levantar novamente, mas voltou a cair, desta vez morto, os olhos ainda abertos. Irthos olhou para o lado e respirou aliviado: era o Capitão Allan. Tirou a katana do corpo do goblin e a trouxe a seu subordinado. “Você não devia deixar isso nas mãos, ou melhor, na barriga de seu inimigo.” “Não está surpreso com minha aparência? “Que você é estranho eu já sabia, mas não imaginei que era para tanto. O que importa é que você impediu que o inimigo chegasse ao vilarejo, e o mais incrível, sentiu que eles viriam quase um quilômetro antes de o fazerem. E quanto à sua aparência, não se preocupe: todos nós temos um esqueleto guardado no armário. De minha parte, ninguém do vilarejo ficará sabendo de nada que você não queira contar pessoalmente.”

Assim, aguardou que Irthos retornasse à forma humana para carregá-lo até Rondall, onde recebeu tratamento médico, ficando acamado por mais três dias. Sua dor no pulmão passou depois de uma boa noite de sono, mas as curandeiras da cidade insistiam que ele ficasse em observação. No dia de seu aniversário de vinte e um anos, reencontrou Razgorith. Sobre a espada, ouviu que seu nome era Hyinen Aalto, que numa língua estrangeira significada “tempestade gélida”, como uma referência a seu poder de congelar o local afetado do alvo. Aconselhou-lhe a não se arriscar mais com sessões de amor na forma dracônica, a não ser que quisesse ver mais pessoas como ele, meio-dragões, soltos pelo mundo – mas sem possibilidade de voltar à forma humana, sofrendo portanto preconceito desde a nascença.

Rumando em direção à batalha

Foi a menção de seu encontro com Lothos que fez o dragão rugir de ódio, quase atacando Irthos. Demorou certo tempo até que se recompôs. “Maldito! Foi ele que arquitetou minha morte! Sangue do meu sangue!” Explicou que Lothos era, originalmente, seu único filhote, nascido de uma aventura amorosa com uma dragoa prateada no outro lado das montanhas. Quando ela morreu, ele se encarregou dos cuidados, sendo sempre um pai zeloso, mas o jovem era muito ambicioso, contrariando as expectativas de sua espécie. Que ele o banira dali no dia em que o vira atacando o rebanho de um vilarejo local apenas por diversão – não era necessariamente maldoso, mas gostava de pregar peças nos outros. Que retornara anos mais tarde para se vingar, trazendo o real motivo de sua má influência – seis dragões vermelhos, cinco adolescentes e um jovem adulto, que deviam morar em outras cavernas similares mais ao sul. A batalha foi longa, mas Lothos vencera no final, sozinho, sem nenhum arranhão, pois o restante fizera o trabalho sujo por ele. Era a noite em que Irthos nasceu.

O jovem descobriu que Lothos não passava de um dragão adolescente, mas que não tinha condições de desafiá-lo atualmente mesmo assim, precisava ficar muito mais forte para poder sequer arranhá-lo em sua forma natural – a aparência de um idoso humano, segundo Razgorith, é uma das quais os dragões prateados usam para andarem entre as outras raças humanóides – e mesmo assim não poderia fazer isso sozinho.

No dia seguinte, chegaram boatos de que o vilarejo de Othalos estaria sofrendo problemas com dragões. Jamais saíra de Rondall, só sabia que “seguindo por cerca de seis quilômetros a estrada a Sudeste de Hazúreas, há uma estrada que segue em direção ao Sul por pouco mais de dez quilômetros. No final dessa estrada se encontra Othalos”, segundo o forasteiro. Suspeitou que Lothos estivesse envolvido e não perdeu tempo: despediu-se do seu pai, juntou equipamento de viagem, pediu licença na milícia local – explicou à Allan que sua viagem envolvia saber mais sobre sua “outra forma”, e ele consentiu – e partiu sem dar explicações. Se ele estivesse realmente envolvido, um dia iria pagar pelo que fez. Ao mesmo tempo, sentiu-se desconfortado com o fato de que seria um jovem mirrado e baixinho até hoje se não fosse por Lothos, mas o que importava agora era se vingar. Queria mostrar que havia sobrevivido e não tinha medo dele.

Havia, também, a possibilidade de Lothos um dia encontrar Arianna, talvez matá-la como tentou fazer à ele. Não havia tempo a perder. No dia treze da Estrela da Alvorada, ele partiu, apenas Bahamut para guiá-lo em sua jornada.

Classe – Acólito do Dragão

Os desejos levam algumas pessoas a cometerem atos extremos, apesar das conseqüências. Apesar de ser difícil de acreditar que um ser vivo cederia corpo e alma a outra criatura, é exatamente isto que o Acólito do Dragão busca em sua vida. Mas os motivos são nobres.

Quando morrem, nem sempre as almas das criaturas encontram julgamento na outra vida, ficando perdidas entre o plano material e os planos exteriores. E, às vezes dragões também partilham desse destino. Como criaturas curiosas, em remotas ocasiões eles se aproximam de outras almas que também compartilham a sua sina, seja porque essa pessoa teve um destino em vida parecido com o seu, ou por piedade mesmo.

Como a maioria das criaturas não tem poder para retornar dos planos exteriores por conta própria, o dragão sacrifica boa parte de sua magia e de sua alma em troca de desafiar o curso da vida e trazer a tal pessoa de volta ao mundo dos vivos, não sem conseqüências.

Uma das primeiras é que alma enfraquecida do dragão precisa de um hospedeiro para continuar existindo. Portanto, ele passa a habitar a mente da criatura a quem forneceu parte de seus poderes. Dragões bondosos vêem essa partilha como uma forma de ensinar honra, justiça e lealdade à pessoa, ajudá-la a cumprir uma promessa que fizera em vida, proteger pessoas e porque não, para terem novas aventuras e colecionarem novos tesouros. Já dragões maldosos o fazem para continua-rem os mesmos atos maléficos que faziam anteriormen-te, dependendo do tipo de dragão. Dragões neutros possuem intenções que variam de acordo com a espécie.

De volta à vida, o Acólito do Dragão vai ter, desde o inicio, uma característica que o marque como sendo detentor de sangue dracônico, como olhos de pupilas amarelas (ou qualquer que seja a cor dos olhos do dragão correspondente). Mas será “aparentemente inofensivo”, como diria qualquer outro humanóide, pois aparentemente não retém nenhuma forma de magia.

Porém, seu verdadeiro poder consiste em assumir a forma de um meio-dragão muito parecida com a de seu dragão-patrono, além de ter sua mente aguçada e melhorada pelos conhecimentos e habilidades do mesmo.

Outra habilidade que acompanha os Acólitos do Dragão é a capacidade de se comunicarem mentalmente com o dragão ao qual compartilham a alma. Esse feito, porém, só acontece no mesmo dia do ano em que eles voltaram à vida em sua nova forma. Há chances de o dragão estabelecer outros contatos, mas é algo muito raro.

Essas habilidades, porém, não vem sem as conseqüências. Com o passar dos anos, conforme o Acólito do Dragão se torna uno com o patrono que habita sua alma, ele vai perdendo sua humanidade (no sentido geral da palavra, pois qualquer raça humanóide pode se tornar um Acólito do Dragão), cada vez mais se tornando um meio-dragão – para sempre. Isso prejudica seu convívio com outras raças, pois nem sempre dragões são bem-vindos, e meio-dragões são considerados ainda mais excluídos que os meio-elfos. Isso os força a morar de forma solitária, ou no máximo no covil de um dragão bondoso.

Informações de Jogo

Habilidades: A Força é essencial para um Acólito do Dragão, ela define suas capacidades no combate corpo-a-corpo, sua principal arma. A Constituição garante mais pontos de vida, sempre úteis para um combatente que com freqüência toma a frente nas batalhas. Uma Destreza permite a utilização de armaduras mais leves e melhora a esquiva. Uma Sabedoria alta garante mais conhecimentos sobre o dragão que o habita e melhora suas habilidades naturais.
Tendência: igual à do dragão, a não ser que o dragão permita (ex: dragões de prata são leais e bons, mas se não se preocupam se os humanos são ou não leais).

Dado de Vida: d10

Especial: Classe de História. Proibida a Multiclasse.

Perícias de Classe

As perícias de classe (e a habilidade chave delas) de um Acólito do Dragão são: Adestrar Animais (Car), Cavalgar (Des), Conhecimento (arcano) (Int), Concentração (Con), Escalar (For), Falar Idioma (Dracônico + um idioma referente à área onde o dragão vive), Intimidar (Car), Natação (For), Observar (Sab), Ouvir (Sab), Sentir Motivação (Sab) e Sobrevivência (Sab).

Pontos de Perícia no 1° Nível: (6 + modificador de Inteligência) x 4

Pontos de Perícia a cada nível subseqüente: 6 + modificador de inteligência

Características de Classe

NívelBônus Base de AtaqueFortitudeReflexosVontadeEspecial
+1+2+0+2Empatia Reptiliana, Falar com Répteis, Forma Antropomórfica I, Forma Permanente, Presença Desconfortante, Sentidos do Dragão I, Sopro Dracônico 2d8, Visão Aprimorada
+2+3+0+3Atlético
+3+3+1+3Resistência a Elementos
+4+4+1+4Sopro Dracônico 4d8
+5+4+1+4Bravura do Dragão, Forma Antropomórfica II, Sentidos do Dragão II, Talento Adicional
+6/+1+5+2+5Cura Transformada
+7/+2+5+2+5Dragão Familiar
+8/+3+6+2+6Aumento de Atributo – Sabedoria +4, Sopro Dracônico 6d8
+9/+4+6+3+6
10°+10/+5+7+3+7Sentidos do Dragão III, Talento Adicional
11°+11/+6/+1+7+3+7Imunidade ao Sono
12°+12/+7/+2+8+4+8Resistência à Magia, Sopro Dracônico 8d8
13°+13/+8/+3+8+4+8Forma Antropomórfica III
14°+14/+9/+4+9+4+9Imunidade à Paralisia
15°+15/+10/+5+9+5+9Sentidos do Dragão IV, Talento Adicional
16°+16/+11/+6/+1+10+5+10Medo da Morte, Sopro Dracônico 10d8
17°+17/+12/+7/+2+10+5+10Forma Antropomórfica IV
18°+18/+13/+8/+3+11+6+11
19°+19/+14/+9/+4+11+6+11
20°+20/+15/+10/+5+12+6+12Sentidos do Dragão IV, Sopro Dracônico 12d8, Talento Adicional

Usar Armas e Armaduras: Um Acólito do Dragão é proficiente com todas as armas simples e comuns e uma arma exótica à sua escolha. Também sabe utilizar armaduras leves, médias e escudos (exceto escudos de corpo).

Forma Antropomórfica (Ext): A principal arma do Acólito do Dragão é sua transformação. Após concentrar-se durante 1 rodada, o Acólito se transforma numa espécie de Meio-Dragão similar ao dragão que habita sua alma. Isso inclui chifres, escamas, garras, guelras e membranas (se for o caso), porém mantendo os traços de sua forma humanóide, como altura, fala, talentos, pericias e comportamento. Essa habilidade dura 3h. Enquanto transformado, o Acólito ganha:

  • +4 naturais de CA (não contam para a perda de destreza por usar armadura);
  • Força +4, Constituição +4, Destreza +2
  • Ataques por mordida (1d4), cauda (1d8) e garras (1d6 em ambas as mãos).
  • Bônus de +3 nos testes de Fortitude e Vontade.

Mordida é um ataque corpo-a-corpo que pode ser feito a qualquer momento no qual o alvo esteja num semicírculo de 1,5m à frente do Acólito, como um ataque normal. Cauda é um ataque em semi-círculo que causa uma ação total, mas permite derrubar adversários (para evitar isso, o oponente realiza um teste de reflexos contra CD 10 + metade do nível do Acólito – arredondado para baixo – + modificador de DES. O mesmo teste permite reduzir o dano à metade). Garras são consideradas como um ataque desarmado e, portanto não podem ser usadas em conjunto com armas nem causam ataques de oportunidade.

O Acólito pode realizar um ataque total, mas sofrerá uma penalidade de -5 em seus ataques com as garras.

Após retornar à forma humanóide, o Acólito do Dragão sofre danos similares aos de uma pessoa Abalada: -2 nas jogadas de ataque, testes de resistência, testes de pericia e de habilidade durante 10min. O Acólito do Dragão precisa esperar 5h entre uma transformação e outra.

No 5° nível, seu bônus na Destreza passa a ser de +4.

No 13° nível, o Acólito é capaz de voar a mesma distância que um filhote da espécie de dragão correspondente se portando uma carga leve, possuindo capacidade de manobra ruim. Caso esteja com uma carga média, suas manobras são consideradas desajeitadas, sua CA equivale à Surpresa, ele só poderá voar a metade da distância por rodada e qualquer ataque de longo alcance feito contra ele terá um bônus de ataque de +2. Em carga pesada não poderá voar. Seu bônus na Destreza passa a ser de +6.

Ele também ganha as primeiras duas habilidades inatas de sua espécie, exceto aquelas que permitem modificações corporais extremas (como Alterar Forma) e as imunidades. Essas habilidades variam de acordo com o dragão no qual ele se baseia e são as seguintes:

  • Azul – Criar/Destruir Água, Imitar Sons
  • Branco – Andar sobre o gelo, Névoa
  • Negro – Respirar na água, Escuridão
  • Verde – Respirar na água, Redução de Dano 5/-
  • Vermelho – Localizar objetos, Redução de Dano 5/mágica
  • Bronze – Respirar na água, Redução de Dano 5/mágica
  • Cobre – Patas de aranha, Redução de Dano 5/mágica
  • Latão – Suportar elementos, Redução de Dano 5/mágica
  • Ouro – Respirar na água, Bênção
  • Prata – Andar sobre as nuvens, Queda suave

No 17° nível, ele pode lançar sua única magia da vida: Evocar Dragão Patrono (conjura um dragão adolescente criado a partir de nuvens, 1/dia, 2min/nível, somente em campo aberto, componente Verbal e Gestual, tempo de execução 1min). Seu bônus na CA passa a ser de +6.

A principal característica que define um Acólito do Dragão é que 0,25% do seu corpo não retornam mais à forma humanóide ao desfazer a transformação (ao final do período total). Pode ser a marca de um ferimento profundo que cauterizou com escamas e não retornará a ter pele, por exemplo. Embora pareça um fato insignificante a principio, isso limita a quantidade de transformações.

O maior problema reside na interação com outros personagens, pois cada vez mais o personagem se parecerá, física e mentalmente, com o dragão que habita em sua alma, até que ao virar um meio-dragão completo. Poucos saberão se o personagem o faz por vontade própria ou se ele perdeu sua identidade. E nem todo mundo tem respeito ou admiração por um dragão, ou melhor dizendo, uma aberração que lembra um dragão. Ex: um personagem que se transforme 180 vezes ficará com 45% do corpo permanentemente na forma de meio-dragão.

A transformação sempre começa nos membros (pés e mãos) e se espalha para o restante do corpo, a não ser que o personagem tenha sofrido um grave ferimento. Neste caso, será o local do ferimento a ir adquirindo tal característica.

Há, porém, uma maneira de retardar o desenvolvimento de sua nova forma. Caso o Acólito mantenha-se em sua forma original por 48x o tempo que durou a ultima transformação, metade dela (0,125%) irá ser desfeita. Essa possibilidade se torna cada vez mais remota conforme o Acólito evolui, pois são dois dias a mais de espera para cada nível.

Forma Permanente (Ext): A cada 25% do corpo permanentemente na forma de meio-dragão, o Acólito passa a reter parte dos bônus desta forma. Estes bônus não se somam aos adquiridos quando ele se transforma.

  • 25%: FOR +1, DES +1, CON +1, CA +1, Fortitude +1, Vontade +1.
  • 50%: FOR +2, DES +2, CON +2, CA +2, Fortitude +1, Vontade +1.
  • 75%: FOR +3, DES +3, CON +3, CA +3, Fortitude +1, Vontade +1, Cauda, Garras, Asas.
  • 100%: Sopro Dracônico, Mordida.

Sopro Dracônico (Sob): enquanto transformado, o Acolito do Dragão pode realizar um sopro do mesmo elemento que seu dragão interior. O alcance das chamas é de 9m caso ele seja uma criatura média (reduza ou aumente esse alcance em 25% para cada nível maior ou menor de tamanho do Acólito), causa 2d8 de dano e pode ser usado com um intervalo de 8h entre cada sopro, pois os pulmões do Acólito não têm a mesma resistência que os de um dragão.

Caso tente realizar dois sopros sem esperar o tempo devido entre eles, sofrerá uma penalidade de 1d4 em sua Constituição até que durma, sem a possibilidade de restauração mágica. Não haverá uma terceira tentativa consecutiva, pois caso o faça, os pulmões do Acólito irão derreter e ele morrerá, só podendo retornar à vida com o uso da magia Ressurreição.

A partir do 8º nível, o Acólito já melhorou sua capacidade pulmonar, e a capacidade de lançá-lo muda para 2/dia, com intervalo de 4 rodadas entre cada um, ganhando um uso extra por dia no 12º nível e a cada quatro níveis subseqüentes (16º, 20º, 24º). Em compensação, ele perde a capacidade de forçar um sopro extra. Caso faça isso, morrerá do mesmo jeito que descrito anteriormente.

Os inimigos afetados têm direito a um teste de resistência de reflexos para ignorar metade do dano causado pelo sopro do acólito. A CD do teste equivale a 10 + metade do nível do acólito (arredondado para baixo) + modificador de Constituição. O dano do ataque aumenta em 2d8 no 4º nível e a cada quatro níveis subseqüentes (8º, 12ª, etc.)

Presença Desconfortante (Ext): Devido à sua forma híbrida nem um pouco acolhedora, o acólito do dragão sofre uma penalidade de -4 nos testes envolvendo Carisma, com exceção de Adestrar Animais do tipo Réptil/Anfíbio e Intimidar, enquanto estiver transformado. Em sua forma natural, para cada 25% do corpo permanentemente transformado, receberá uma penalidade de -1 que não se acumula com a penalidade da forma dracônica.

Sentidos do Dragão (Ext): mesmo na forma humanóide, o Acólito do Dragão possui uma mente extremamente aguçada, com todos os sentidos refinados. Ele ganha +1 em todos os testes envolvendo Sabedoria (exceto testes de resistência de Vontade). Esse bônus aumenta em +1 no nível 5 e a cada 5 níveis subseqüentes.

Visão Aprimorada (Ext): A mudança nos seus olhos não é decorativa: o Acólito do Dragão pode enxergar no escuro melhor que um correspondente da mesma raça. Considere que raças sem nenhuma visão à noite ganhem a habilidade “Visão na Penumbra” e quem já a possui ganha “Visão no Escuro”.

Empatia Reptiliana (Ext): Um Acólito do Dragão é capaz de usar linguagem corporal, vocalizações e comportamen-tos para aprimorar a atitude de um réptil ou anfíbio. Essa habilidade funciona da mesma maneira que um teste de Diplomacia para aprimorar a atitude de uma pessoa. O discípulo realiza um teste especial com 1d20 + nível de acólito + modificador de Carisma para determinar o resultado do teste de empatia. Um animal doméstico terá a atitude inicial Indiferente, enquanto os animais selvagens geralmente serão pouco amistosos. Para usar a empatia com a natureza, o acólito e o animal devem ser capazes de estudar um ao outro ― ou seja, estarem num raio de 9 m entre si e em condições normais de iluminação. Normalmente influenciar um animal dessa forma requer 1 minuto, mas semelhante a influenciar PdMs, a tarefa pode exigir mais ou menos tempo. Um acólito pode usar essa habilidade para influenciar bestas mágicas “reptilianas” com Inteligência 1 ou 2, mas sofre -4 de penalidade no teste.

Falar com Répteis (Sob): essa habilidade funciona de maneira similar à magia falar com animais, embora o discípulo pode usá-la somente em répteis ou anfíbios. Ele pode usá-la à vontade.

Atlético: Enquanto não aprende a usar suas asas, o Acólito do Dragão começa a praticar grandes saltos e a querer pôr sua nova musculatura em prática, ganhando o talento Atlético no 2° nível (+2 em Escalar e Natação).

Resistência a Elementos (Ext): Conforme ele descobre seu lado escamoso, o Acólito do Dragão adquire Resistência à Energia 5 + metade do seu nível contra o elemento de seu dragão patrono.

Bravura do Dragão (Ext): A partir do 5° nível, o Acólito do Dragão não sente mais medo na presença de outros dragões bons e neutros. Ele não é mais afetado pela Presença Aterradora desses dragões e recebe um bônus de +4 no seu teste de resistência de Vontade contra a Presença Aterradora de dragões maus. Os aliados do acólito a até 6m recebem um bônus de +4 para a Presença Aterradora de dragões bons e neutros e +2 para a de dragões maus.

Talentos Adicionais: No 5° nível e a cada cinco níveis subseqüentes (10°, 15°, 20°), o Acólito do Dragão pode escolher um talento extra da lista de Talentos Gerais, contanto que atenda aos pré-requisitos.

Cura Transformada (Ext): O sangue de dragão começa a influenciar no metabolismo do Acólito, fazendo-o regenerar uma quantidade de pontos de vida equivalente à seu nível ao voltar à forma humana, uma vez ao dia. Se o Acólito não tiver mais forma humana para retornar, ele regenera esses pontos ao longo do dia, mesmo que não durma, e adiciona metade de seu modificador de Constituição (arredondado para baixo) ao valor curado.

Familiar Dragão (Ext): Caso dedique sua fé a um deus dracônico, o Acólito de 7° nível receberá um filhote de Dragão similar à sua variedade como familiar. Ele deve ser tratado da mesma maneira que um dragão normal, mas receberá todas as habilidades de um familiar. Além disso, o familiar dragão ainda evolui da mesma forma que faria se fosse um dragão normal, com a diferença de que suas novas habilidades não dependem mais de sua idade, mas do nível de seu mestre. Apenas seu tamanho, quantidade de ataques corpo-a-corpo, Força e Constituição se mantêm inalterados até o fim de sua vida.

A tabela de progressão segue abaixo:

NívelCategoria de IdadeHabilidades ganhas como familiar
7º-9ºFilhoteCA +1, Prontidão, Evasão Aprimorada, Vínculo Empático
10º-12ªMuito JovemCA +2, Falar com mestre
13º-15ºJovemCA +3, Resistência à Magia 5
16-19ºAdolescenteCA +5, Vidência no Familiar
20ª-22ºAdulto JovemCA +6
23º-25ºAdultoCA +7
26º-28ºExperienteCA +8
29º-32ºAntigoCA +10
33º-35ºMuito AntigoCA +11
36º-38ºVenerávelCA +12
39º-42ºAnciãoCA +13
43º-46ºGrande AnciãoCA +15

(As CA listadas acima não são cumulativas)

Caso o familiar morra, seu dono deve fazer um teste de Vontade (CD 15, +2 a cada categoria de idade do familar) ou então irá perder 250XP por nível, devido ao rompimento do vínculo entre eles. Caso passe no teste, perderá apenas a metade disso. Com 24h de orações ininterruptas à seu deus, o Acólito pode trazê-lo a vida imediatamente.

Aumento de Atributos (Ext): No 8º nível, o Acólito pode se utilizar da sabedoria de seu dragão interior, ganhando um bônus de +4 nesse atributo.

Imunidade ao Sono (Ext): No 11° nível, o Acólita torna-se imune ao sono causado por magias e efeitos sobrenaturais.

Resistência à Magia (Ext): No 12° nível, a divisa entre sua alma e a do dragão já não são mais claras. O Acólito ganha parte da resistência mágica do dragão, equivalente a seu nível +6.

Imunidade à Paralisia (Ext): No 14° nível, o Acólito torna-se imune à paralisia causada por qualquer magia ou efeito.

Medo da Morte (Ext): No 16° nível, após ver o sofrimento pelo qual o Acólito teve que passar durante as aventuras, o dragão o manterá durante (X/2) anos aparentando ter 23 anos (onde X = porcentagem transformado), e o restante da porcentagem nas próximas passagens de idade.

Por exemplo, um humano que ao chegar no nível 16 tenha 28 anos e 50% do corpo transformado, “regredirá” para os 23 anos em aparência física, e se manterá aparentando ter tal idade durante 25 anos, onde então passará a envelhecer normalmente. Assim, ele entrará na maturidade com 65 anos (28 + 12 da diferença + 25 de classe).

Ao entrar na maturidade, se estiver agora com 100% do corpo transformado, permanecerá outros 25 anos sem aparentar mudanças físicas, levando ao todo 43 anos para atingir a velhice. Até aqui, o acólito teria vivido 108 anos, e viria a morrer apenas por volta dos 130 anos.

Além disso, para cada 5% do corpo transformado, o Acólito adquire 1 ponto extra de proteção contra o seu elemento.

Acólito do Dragão Épico

O Acólito do Dragão épico já é quase um meio-dragão por completo. As pessoas o acham assustador e costumam se afastar dele, mas quem conquista sua lealdade e supera seus medos descobre um valoroso e poderoso guerreiro, capaz de causar os mesmos estragos que um dragão real, mas mantendo toda a conduta humana. Nessa altura ele já passa quase o dia inteiro transformado quando está longe da civilização, para estar sempre em contato com seu lado feral. Ou talvez já fique o dia inteiro por não ter mais uma forma humana mesmo.

Ataque Potente: Após desenvolver uma forte ligação com seu dragão interior, o Acólito passa a ser cada vez mais letal. No 21° nível e a cada cinco níveis subseqüentes, seu BBA aumenta em +2 em ambas as mãos, tanto para ataques naturais quanto usando armas.

Resistência a Elementos: O Acólito do Dragão conseguiu dominar em partes a invulnerabilidade ao elemento de seu dragão patrono. No 23° nível e a cada 10 níveis subseqüentes, o acólito 5pts de proteção extra contra este elemento.

Talentos Adicionais: Um Acólito do Dragão épico recebe um talento extra a cada 3 níveis após o 20° (23°, 26°, etc.).

Vitalidade Extra: No 25° nível, o Acólito se torna mais resistente à morte, ganhando 25 pontos de vida.

Sentidos do Dragão: Os bônus nos testes de Sabedoria continuam a aumentar em +1 a cada nível múltiplo de 5 (25°, 30°, etc.).

Lista de Talentos Adicionais do Acólito do Dragão Épico: Armadura de Pele, Cavaleiro Legendário, Combater com Duas Armas Perfeito,  Dano Critico Decisivo, Dano Critico Devastador, Dilacerar com Duas Armas,  Escalador Legendário, Fortitude Épica, Foco em Arma Épico, Grande Constituição, Grande Destreza, Grande Força, , Grande Inteligência, Grande Sabedoria, Poderio Épico, Reflexos de Combate Aprimorados, Tolerância Épica, Vitalidade Épica.